Novo filme de Welket Bungué cruza memória da escravatura e futuro da Guiné-Bissau

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Welket Bungué. FOTO: LUSA ©️

O ator e realizador Welket Bungué apresenta, na sexta-feira, em Bissau, o seu novo filme, “Cacheu Cuntum”, no âmbito da primeira edição do Bissau Film Meeting, que vai decorrer no centro cultural brasileiro, na capital da Guiné-Bissau.

“O filme que trago aqui, e que será uma antestreia, chama-se ‘Cacheu Cuntum’ e é um filme ‘mobile’, captado inteiramente por dispositivos móveis, e que faz a interceção entre a fala de um guia de museu, do Memorial da Escravatura, em Cacheu, e imagens que captei ao longo da minha estadia aqui, em 2019, com o telemóvel”, explicou, em entrevista à agência Lusa, Welket Bungué.

Segundo o ator luso-guineense, as imagens evidenciam aquilo que pode ser “uma espécie de juventude promissora da cultura guineense”.

“Este filme traz para a tela, procura ‘friccionar’, aquilo que é a memória do passado da escravatura em contraste com aquilo que pode ser a Guiné de amanhã, tendo em conta as imagens que nós vemos, como as pessoas interagem umas com as outras, como é que esta luz significa vitalidade e, ao mesmo tempo, como eu, enquanto recém-chegado à cidade, [a] perceciono”, sublinhou.

Para o ator, o filme não pretende “somente fazer um atestado” da memória da escravatura, mas “desconstruir e, ao mesmo tempo, relatar, denunciar, algumas figuras que fizeram parte daquele período e que podem ser associadas ao que foi Cacheu”, enquanto interposto comercial de escravos.

“Mas, por outro lado, acredito que quando vemos a juventude que está retratada nas outras imagens, crianças, famílias, a dinâmica da cidade de Bissau, nos pode ser despertada alguma reflexão, sensibilização, sobre o que foi aquele período, mas, sobretudo, aquilo que podemos ser”, disse.

Durante a primeira edição do Bissau Film Meeting, que decorre na sexta-feira, o público pode assistir a quatro produções de Welket Bungué e ainda a mais dois filmes das realizadoras Filipa César, “Regulado”, e Vanessa Fernandes, “Tradição e Imaginação”.

Welket Bungué foi distinguido em novembro no Festival Internacional de Cinema de Estocolmo, com o Cavalo de Bronze, o prémio de melhor ator principal pela sua interpretação no filme “Berlin Alexanderpiatz”, de Burhan Qurbani, um desempenho que o destacou no Festival de Cinema de Berlim, em 2020, e pelo qual esteve igualmente nomeado para o prémio de melhor ator da Academia Alemã de Cinema, em abril do ano passado.

Em outubro, Bungué abriu a 7.ª Mostra Internacional de Cinema Anti-Racista (MICAR), no Porto, com a curta-metragem “Eu não sou Pilatus” e, em agosto, venceu o festival internacional de videoarte Fuso, com “Metalheart”, que o júri destacou pela sua “qualidade poética marcadamente crua”.

Cineasta Welket Bungué FOTO: Inês Subtil ©️
Bungué estreou ainda, em setembro, em Lisboa, no Teatro do Bairro Alto, o projeto “Mudança”, desenvolvido com a socióloga e deputada Joacine Katar Moreira, sobre questões de preservação da democracia, da integridade da saúde pública e de individualidade, impostas pela pandemia, numa abordagem em que contou com a imagem do artista Nú Barreto, a música de Mû Mbana e referências ao povo do arquipélago dos Bijagós, na Guiné-Bissau.

Welket Bungué nasceu na Guiné-Bissau, em 1988, cresceu em Portugal, onde se licenciou em teatro, estudou também no Brasil e recentemente mudou-se para Berlim. É membro da Academia Portuguesa de Cinema e da Academia Alemã.

Trabalha em representação há mais de uma década. Participou em séries televisivas, como “Equador”, “Morangos com açúcar” e “Os filhos do rock”, e entrou em filmes como “Joaquim”, do brasileiro Marcelo Gomes, e nas produções portuguesas “Cartas da Guerra”, de Ivo Ferreira, e “Quarta Divisão”, de Joaquim Leitão.

É ainda autor e realizador de várias curtas-metragens, entre as quais “Corre que pode, dança quem aguenta”, “Arriaga! e “Ex Exploiter Expropriator”.

O Bissau Film Meeting é organizado em conjunto pela produtora KalmaSoul Guiné-Bissau e o Centro Cultural Brasileiro, em Bissau.

Para este ano, Welket Bungué tem previsto a montagem de um documentário de ficção, denominado “Bissalanca”, um outro que falará de aprisionamento e libertação e, em breve, vai regressar à Europa para começar a filmar uma longa-metragem belga.

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