O Afro-Braids e a crise da mega-indústria de cabelo em tempos de Covid-19

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Equipa do projeto Afro-Braids. Foto: Pedro Sá da Bandeira ©
Manuel Matola 

A cabo-verdiana Nádia Garcia é uma das empreendedoras africanas mais referenciadas na comunidade feminina imigrante em Portugal que busca no Afro-Braids, uma cadeia de salões de cabeleireiro que atende centenas de mulheres africanas, e não só, uma porta para a integração social através do embelezamento do cabelo, visando amenizar a negatividade do símbolo identitário.

Quando há mais de dois anos lançou o inovador projeto de tranças de cabelo natural, Nádia Garcia estava ciente de que a decisão “de desenvolver o afro e o braids” tinha sido tomada “em boa altura”, porque “todas as pessoas queriam aceitar a sua identidade”, especialmente as mulheres africanas que “estavam cansadas do postiço” produzido nas famosas indústrias de cabelo artificial chinesa, brasileira e indiana.

Mas, hoje, a pequena empresa pessoal que emprega 21 funcionárias em três salões de beleza localizados em Lisboa e Porto está a braços com o dilema que está a atingir a quase totalidade das ´startups` que em Portugal enfrentam os efeitos da Covid-19, e cuja sobrevivência poderá passar pelo acesso, já a partir desta quarta-feira, às linhas de crédito anunciadas pelo governo no âmbito da crise sanitária mundial.

“A minha contabilista está a ver isso”, garante ao jornal É@GORA a proprietária do Afro-Braids, um salão que procura trabalhar a autoestima de mulheres que, depois de “10, 20 anos sem ter o cabelo próprio”, optaram por abandonar o uso de postiços e/ou perucas, um negócio altamente lucrativo para a indústria da beleza estética.
O Afro-Braids que arrancou com um investimento pessoal de 1500 euros, um valor que “não é nada se comparado” ao que Nádia Garcia investiu quando abriu o segundo cabeleireiro, em Lisboa, com uma funcionária, e o terceiro, no Porto, tornou-se hoje num dos projetos mais apreciados no seio feminino imigrante em Portugal, embora tivesse quase todas as caraterísticas para falhar.

“Eu digo isso porque o Afro-Braids está localizado ao pé da Buraca e muitas pessoas não gostavam de lá ir alegando que, porque está o pé da Buraca, é perigoso. Muitas pessoas diziam que a maioria dos portugueses não iria ao Afro-Braids e, agora, cerca de 30 por cento dos nossos clientes são portugueses. Por isso é que digo: o impossível não há”, garante.

Nádia Garcia, proprietária do Afro-Braids. Foto: Pedro Sá da Bandeira ©

Uma impossibilidade que, segundo a empresária, é contrariada por poder concretizar desejos como os de, por exemplo, “acordar cedo e ir pentear uma artista como a Mayra Andrade”, ou “o sonho de conhecer a (cantora) Josslyn, a (atriz) Ana Sofia, ou a (cantora) Blaya”, pessoas que estavam muito longe do alcance de Nádia Garcia.

“Agora elas vão ao meu cabeleireiro, ou chamam-me para as ir pentear”, conta, para ilustrar a projeção de um negócio muito destacado também no digital, onde já chegou a registar ter perto de 50 mil seguidores só no Instagram, antes desta que é uma das redes sociais mais usadas pelo Afro-Braids ter sido pirateada e, por precaução, temporariamente desativada.

A popularidade dos três salões de Afro-Braids, um em Lisboa – “tenho dois cabeleireiros, um ao lado do outro, no mesmo edifício: um no número 11C e outro no 13D” -, e outro no Porto captaram, antes da eclosão da pandemia da Covid-19, imensos clientes, incluindo “uns 10 ou 15 por cento de estrangeiros de diferentes partes do mundo”, refere.
“Ao cabeleireiro Afro-Braids já foram chineses, tailandeses, pessoas de diferentes” países e lugares do globo, que pedem “tranças soltas, uma das técnicas que as pessoas mais gostam porque dá para fazer muitos tipos de penteados” e também “dá para lavar”, assegura Nádia Garcia.

Hoje, a empresária dirige uma equipa de funcionárias que vivem fora do círculo urbano de Lisboa, em bairros como o 6 de Maio, contudo, “a maioria veio de Cova da Moura”, diz.

Pesquisadora Brasileira Mariana Desidério

A imigrante brasileira Mariana Desidério abandonou o sonho de ser artista plástica a tempo inteiro, após a licenciatura, para abraçar a atividade cabeleireira, no Brasil, onde abriu dois salões de beleza, antes de decidir vir a Portugal fazer o mestrado em Antropologia, cujo trabalho final do curso visa perceber “A escolha da trança como um veículo de mudança”.

“Tenho muitas clientes de várias nacionalidades, principalmente, de Angola, Guiné-Bissau e Cabo Verde. Então, cada uma delas tem um olhar diferente sobre essa questão da mudança, que é onde eu pretendo aprofundar por que cada um delas tem um olhar diferente. Até que ponto o eurocentrismo influencia, porque elas ainda têm essa capacidade de não aceitar o cabelo crespo e recorrer ao cabelo artificial. Aí que quero saber se ainda há o complexo de aceitação deste cabelo liso. Então, tenho várias perguntas sem respostas concretas”, refere a pesquisadora.
Embora o tema final do estudo ainda não esteja definido, Mariana Desidério pretende compreender as razões de as mulheres negras optarem pelo uso do cabelo artificial e não cabelo crespo natural.

O estudo não apresenta nenhuma hipótese de reivindicações por parte das negras ao uso de cabelo crespo à semelhança do que acontece no Brasil, até porque, diz, as mulheres negras em Portugal “ainda estão muito atrasadas neste campo de consciencialização de aceitação porque a influência (do conceito de beleza) europeu ainda é muito presente”.

“No Brasil, como estamos um pouco mais distantes, não temos essa influência, por isso é que estamos tão avançados. Já houve, mas está a acabar de uma última década para cá. Já em Portugal não. Elas estão a começar nesse processo de encontrar produtos que sejam voltados para cabelo crespo, que se consiga procurar e encontrar um emprego com cabelo crespo. Ainda há essas exigências de que o cabelo tem que estar alinhado e bem-apanhado. Então, devido a isso, eu não quero fazer comparações” esclarece.

No entanto, a investigadora que centra o seu estudo de caso à área do Cacém, onde se encontra a maior parte de pessoas negras em Portugal, divide este grupo por idades, uma vez que “as pessoas mais jovens têm um olhar diferente do das pessoas mais velhas”.

“Dos 14 aos 22 anos acredito que sejam as que mais aderem ao cabelo natural pela moda, passando pelo processo de big shop, que é cortar para manter o seu cabelo natural, e a das mais velhas, que têm outro olhar: estão cansadas de serem dependentes desses produtos”, refere.

A pesquisadora assinala que “hoje, os mais jovens são influenciados por uma ´Media` no reconhecimento do cabelo como identidade”.

Para esse grupo social, “essa questão de se querer estar com o cabelo natural virou moda. Não sei quanto tempo vai durar, mas percebo que também é uma moda. Só que, em contrapartida, o movimento está a tornar-se mais forte. Eu venho do Brasil, onde isso é mais forte”, observa.

E acrescenta: “O que percebo nesses dois anos e meio (de estadia em Portugal) é que esses espaços estão crescendo porque a necessidade está aumentando”, ou seja, “que as pessoas querem estar com o seu cabelo natural evitando todos aqueles métodos de friso ou de químico. Pelo menos do que venho notando, quando a mulher negra se propõe a ficar com o seu próprio cabelo é para, de certa forma, se libertar desses artifícios”, que apesar de tudo “não são nocivos”.

Garantido perceber melhor hoje que tem feito tranças a partir de casa, para também sustentar o seu mestrado, Mariana Desidério considera “que as africanas têm um método de trançar que pode causar dor”, daí que algumas mulheres usam o postiço “por causa da forma como fazem o aperto sobre pressão danificando a parte da frente do cabelo delas”.

“Se olhar por essa ótica, é algo nocivo para o cabelo, sim. O que percebo é que elas querem recuperar o cabelo saindo desse postiço, das tissagens, dos químicos para poder manter o cabelo delas, que até então elas não sabiam e nunca ninguém lhes disse que o cabelo delas era bonito”, afirma.

Salão Afro-Braids. Foto: Pedro Sá da Bandeira ©

Questionada sobre quem hoje é responsável pela transmissão aos “Media” da mensagem de que o cabelo delas é bonito e como é que isso se processa, Mariana Desidério aponta “os vários movimentos negros” e a “influência do Brasil” como os maiores agentes.

“Elas influenciam toda essa beleza estética que a mulher pode ter quanto da parte do corpo como psicológica. O que acontece é que os ´Media` influenciam para que elas tenham essa conceção de que a mulher negra é uma mulher bonita independentemente de qualquer coisa e que o seu cabelo também é bonito”.

No entanto, lembra: “Só que os pais, os avôs e bisavós não tiveram esse tipo de informação. Então quem vai ter o padrão da beleza europeia vai dizer que aquele cabelo é ruim: que é feio, carapinha, duro e não é nada disso. É um cabelo crespo que requer um pouco mais de atenção. Por ser um cabelo muito fino é que ele enrola, dá todo o trabalho que normalmente as pessoas não estão habituadas, porque não lhes foi dito que esse cabelo não é tão complicado”. (MM) 

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