O caso de imigrantes com filhos autistas e o desafio das escolas na inclusão das crianças

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Elisabeth Almeida

A brasileira Fabiana Tavares é mãe de Henrique, de 4 anos e meio, diagnosticado com Transtorno do Espectro Autista (TEA) após os primeiros dias de aula num jardim de infância regular no Concelho da Amadora, um estabecimento de ensino português que está a ganhar notoriedade no acompanhamento de crianças autistas.

A surpresa da mãe foi a rapidez com que seu filho começou a se desenvolver, apesar de suas limitações, após o acompanhamento da escola, que até então tinha pouca preparação para receber crianças especiais.

Além de observar o comportamento de Henrique, a instituição direcionou a mãe a um médico especialista para que assim ela tivesse um diagnóstico mais detalhado não só sobre o TEA, mas para saber em que nível a criança se encontra(va) de forma a ajudar no convívio desta com os demais colegas de turma.

“A Escola do meu filho é um exemplo a ser seguido pois é uma escola que se esforça na inclusão de uma criança com necessidades especiais, incentiva os alunos a respeitarem as diferenças e desenvolvem trabalhos nos quais as crianças conseguem estar todas juntas, mesmo tendo entre elas uma com maior dificuldade. Eles estão sempre em contato com a família, dando um feedback sobre o desenvolvimento da criança” disse Fabiana Tavares ao jornal É@GORA, falando sobre os educadores da escola primária Os Pequenos Génios, situada na Junta de Freguesia de Águas Livres, na região da Amadora, Concelho que alberga maioritariamente imigrantes, nos arredores de Lisboa.

“Além disso, a professora montou uma página em um aplicativo, onde ela divide por meio de fotos e vídeos, o dia-a-dia das crianças e os trabalhos desenvolvidos. É um lugar onde os pais também podem participar, dando sugestões e acompanham de perto a trajetória escolar de seus filhos”, explicou.

Rute Santos é educadora há 14 anos e Henrique é a primeira criança com Necessidades Educativas Especiais (NEE) a quem ela dá aulas, refletindo assim sobre os desafios entre aquilo que aprendeu na teoria e o que é vivido na prática, em sala de aula.

“Não sabia muito bem o que fazer, pois, quando tiramos o curso, a lacuna nesta área era enorme. Foram dias de pesquisa, leituras, formações e a incerteza de estar a fazer o correto estava sempre presente”, contou a educadora.

De acordo com a educadora, Henrique chegou à Os Pequenos Génios com quase 2 anos de idade e, à primeira vista, era um menino igual aos outros, mas que aos poucos e diante do olhar atento da equipe da escola notaram os primeiros sinais de alerta.

“Depressa reparamos que o Henrique era diferente dos outros e que não interagia da mesma forma com seus pares. Por outro lado, ele não recusava o nosso afeto e nem sempre desviava o olhar, algo que nos confundia”, contou Rute Santos.

Ao jornal É@GORA aponta alguns episódios marcantes desta trajetória: “Ele fazia sons que nada se assemelhavam a palavras, batia com as mãos uma na outra… eram muitos sinais para deixar o tempo remediar e achar que ia passar”.

Ao perceber que o menino tinha 2 anos e meio e ainda não falava, unindo ao comportamento do mesmo, a educadora Rute sugeriu aos pais que fosse realizado um despiste auditivo, pois Henrique poderia não falar por não ouvir bem. Além disso, a professora abordou com os pais suas suspeitas, mas quis descartar todas as possibilidades.

“Ao ser abordado pelos pais, o médico achou um disparate esta minha sugestão, mas os sinais continuavam lá e a situação agravava-se a cada dia. Os pais então acabaram por levar a um terapeuta da fala que sugeriu o mesmo despiste auditivo. Constatou-se que Henrique ouvia. A mãe foi encaminhada a uma consulta de desenvolvimento e assim ele foi diagnosticado com TEA e começamos uma jornada juntos”, diz, prosseguindo.

“Na escola, independentemente do tempo que demorou para chegar o diagnóstico, começamos a trabalhar com o Henrique no sentido de criar rotina sólidas. Adaptamos a sala e os espaços comuns e identificamos tudo com cartões de imagens semelhantes aos PECS (Picture Exchange Communication System ou Sistema de Comunicação por Troca de Figuras) que a mãe dele usa em casa, de forma que ajudássemos o seu pensamento a organizar-se e a sentir-se seguro na sua rotina diária”, explicou.

Segundo a educadora, surpreendentemente, não houve problemas em explicar aos demais alunos sobre a condição especial do colega, filho de imigrantes.

“Magicamente não foi preciso explicar ao grupo que o Henrique é especial. Aos poucos eles foram-se apercebendo e aprendendo a lidar e ajudar. Disse-lhes a dada altura que todos são especiais, mas que o Henrique era um pouco mais especial e precisava que o ajudássemos e eles compreenderam muto bem”, referiu Rute Santos ao jornal É@GORA.

Cristiano Pinheiro é pai de Henrique e endossa as declarações da esposa Fabiana ao elogiar o comprometimento da escola, que hoje investiga novos casos de crianças com NEE.

“Hoje já temos mais dois casos em investigação na escola do Henrique, que foi o primeiro, mas acreditamos que se surgirem mais casos a escola estará preprada. E é muito bom, pois aqui as crianças têm o direito de estar em escolas regulares, mas no caso da escola do meu filho é muito mais do que isso: tem muito envolvimento, compreensão e esforço em aprendermos todos juntos”, diz Fabiana Tavares.

O autismo foi mencionado pela primeira vez em 1943 por Leo Kanner, médico psiquiatra austríaco, no artigo “Distúrbios Autísticos do Contato Afetivo”; já em 1944, o pediatra Hans Asperger escreveu outra obra intitulada “Psicopatologia autista na infância” e por isso até os dias atuais se atribuem à Kanner quanto à Asperger a identificação do autismo, lê-se na página da Associação Brasileira de Autismo Comportamento e Intervenção (ABRACI).

Ainda segundo a instituição, o Transtorno Espectro Autista possui vários níveis e muitas vezes são quase imperceptíveis, como o caso de Ana Paula, que tem dois filhos com a síndrome, mas em graus diferentes.

“Eu tenho um casal de filhos, o menino com 13 anos e a filha tem 9. Os dois são autistas leves e minha filha é praticamente imperceptível. Se não fosse pela desatenção e inquietude ninguém notaria. Quando ela recebeu o diagnóstico ainda no Brasil, a psicopedagoga disse que ela tem uma inteligência muito acima da média e por conta disso ela consegue driblar as dificuldades. Já o Felipe tem dificuldades diferentes, ele se comunica muito bem, mas é hiperativo e tem uma grande sensibilidade a ruídos”, disse Ana Paula.

A brasileira Ana Paula reside em Viana do Castelo, norte de Portugal, mas vive atenta ao que acontece com outros pais e mães de crianças com TEA noutras partes do país. Recentemente criaram grupos de redes sociais, onde compartilham dúvidas, desafios e progressos. Entre a evolução no desenvolvimento das crianças, Ana Paula fala da sua experiência em Portugal.

“Quando a gente chegou aqui, em janeiro de 2020, eu já trouxe todos os diagnósticos e explicamos todos as questões. A escola do meu filho aqui tem uma comissão que tem psicóloga, psicopedagoga e professores da educação especial e nessa reunião são apontadas algumas medidas perante a dificuldade que foi observada dele. Então ele tem aulas de reforço; tem uma professora-tutora, que o ajuda na organização uma vez por semana e semestralmente é feito um relatório com todas as atividades e com tudo o que foi feito”, disse.

Questionada sobre as diferenças entre o acompanhamento dos filhos em Portugal e como era no Brasil, a terra natal acaba perdendo.

“É bem diferente. Nalguns aspetos é melhor e noutros é pior, mas a grande diferença é a nível cultural: os portugueses têm uma forma mais rude, seca de lidar e isso na escola se traduz por uma relação muito impessoal, formal. Tanto de pais com professores, quanto professores com alunos, aqui somos ‘encarregados de educação’, já em contrapartida, todos os recursos que eu consegui aqui são gratuitos, é tudo público. A escola é pública, tudo é público. Já no Brasil a relação é mais próxima, mas tudo era pago: escola, plano de saúde, psicopedagoga, psicóloga”, exemplificou.

Para Ana Paula, em termos de recursos, Portugal suplanta.

“Eu tinha recursos sim, pois eu podia pagar por eles. Se eu não tivesse, eu não sei se pela rede pública do Brasil eu teria. E considerando tudo isso que aqui eu tenho, todo esse suporte, esse apoio, na rede pública, eu acho que aqui em Portugal é muito melhor”.(EA)

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