O caso do afegão Nasir e a corrida da IntellCorp aos dados biométricos

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FOTO: AP ©

Manuel Matola

O imigrante Nasir Ahmadi mostra-se cada vez mais “preocupado” com a situação política prevalecente no Afeganistão, pelo que diariamente luta por trazer a mãe e irmã a Portugal, onde o grupo IntellCorp monitora a base de dados biométricos de “situações operacionais extremamente graves” de afegãos ex-colaboradores das forças Ocidentais.

O novo governo do Afeganistão, formalmente constituído esta semana pelos talibã, apoderou-se de Equipamentos Portáteis de Deteção de Identidade Interagências (HIIDE, sigla em inglês) que contém dados de reconhecimento facial e dispositivos de impressão digital dos que trabalharam em parceria com os aliados norte-americanos e a NATO.

Hoje, muito mais do que o risco que a comunidade internacional vê nos talibã de usarem a base de dados de impressões digitais dos estrangeiros que trabalharam no Afeganistão, Nasir Ahmadi receia que essas ferramentas permitam que os talibã cheguem facilmente a sua irmã, uma ativista dos direitos humanos que tal como a mãe “ainda não podem sair” do país porque as fronteiras permanecem encerradas.

No dia 30 de agosto, Nasir Ahmadi iniciou uma greve de fome para apelar o governo português a retirar a família do Afeganistão mas, 24 horas depois, o imigrante residente no Porto interrompeu o protesto por ter recebido garantias diretas do ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal, Augusto Santos Silva, de que a mãe e irmã terão visto de residência quando ambas estiverem “em território português”.

Nasir Ahmadi refugiado afegão residente no Porto
O jornal É@GORA questionou o jovem afegão sobre a situação da família, ao que respondeu: “Não sei nada. A situação está tão complicada que elas estão numa fronteira à espera para sair (do Afeganistão) e eu também estou tão preocupado” face aos últimos desenvolvimentos da política interna daquele país da Ásia Meridional.

Mas revela que, a partir de Portugal, há uma empresa de intelligence que “está a tentar” ajudar “a ver” se consegue retira-las de Cabul. Nasir Ahmadi remeteu mais detalhes sobre o assunto à empresa IntellCorp.

Contactado pelo jornal É@GORA, o fundador da IntellCorp, Ruben Ribeiro, diz qual o propósito da missão: “Trazer para casa elementos e famílias que se encontrem no Afeganistão”, resume o analista, esclarecendo, de seguida, quem são os tais elementos a resgatar.

“São familiares ou os próprios que estiveram a trabalhar com ex-militares portugueses ou com ex-militares dos aliados, dando prioridade aos portugueses e à União Europeia. Mas, ao contrário do que outros estados fizeram, não vamos discriminar. Não fica ninguém para trás, seja norte-americano, canadiano ou britânico”, explica.

Na lista constam “ex-oficiais de informações, ex-operacionais no âmbito da defesa, pessoal diplomático”, ou seja, “são um grande número de profissionais com muitos anos de experiência nas instituições e no terreno. E muitos deles são colegas nossos nos Estados Unidos, Reino Unido, França, Alemanha e outros países mais longínquos. São operacionais que trabalharam connosco e com quem mantemos uma ligação bastante intensa e de confiança, e que o tratamento é feito de forma coordenada”, diz.

E em relação ao caso de Nasir Ahmadi, que pretende trazer a mãe e a irmã para Portugal, Ruben Ribeiro garante: “O processo da família do Nasir é feito como todos os que me estão a chegar”.

Rúben Ribeiro, fundador da IntellCorp
No entanto, o ex-oficial do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa (SIED) adverte que, para já, “é impossível revelar” dados concretos de âmbito operacional deste e de outros casos “por uma questão de segurança”, até porque no Afeganistão “a situação é extremamente complicada”.

De seguida, Ruben Ribeiro remete a conversa para “algo que não é abordado a nível da comunicação social internacional” e que no solo afegão é apenas do conhecimento “dos que estiveram envolvidos a trabalhar com este tipo de situação”: a colaboração de especialistas nacionais estrangeiros com os aliados.

“É que estamos a receber contactos de elementos que estiveram nos serviços de informações e estiveram a colaborar com os serviços da NATO e dos aliados”, cuja base de dados biométrica “não se encontra justificável o seu paradeiro ou a sua inutilização”, afirma Ruben Ribeiro, alertando que estes “estão num perigo extremo, principalmente porque neste momento não há conhecimento por parte da comunidade internacional na vertente pública, mas também dos Estados” sobre o que é e será feito com essas informações confidenciais.

Segundo Ruben Ribeiro, os colaboradores dos aliados “não têm conhecimento onde se encontram as bases de dados biométricos, que supostamente terão lá ficado”, não havendo também informações “tanto ao nível do serviço de informações, da direção responsável pelas estatísticas e ao nível do Ministério do Interior”.

Ou seja, “dá a entender que neste momento quem está numa posição de ocupação dessas instalações tem acesso a essas bases de dados e daí estarmos a monitorizar situações operacionais extremamente graves em termos de buscas porta a porta, cortes de internet e de luz elétrica em determinados locais porque existe uma verdadeira caça a colaboradores de aliados e dos ministérios afegãos que possuam mais informação”, refere.

De resto, é esse grupo de especialistas que está a contactar a empresa de intelligente espalhada por mais de uma centena de país, incluindo Portugal, a pedir para esta auxiliar na extração das informações que têm nas várias documentação que resultam do trabalho das forças norte-americanas e da NATO que estiveram presentes duas décadas no Afeganistão.

“Esses elementos que estiveram no terreno durante anos, com acesso à informação classificada, acesso a operacionais dos aliados que se deslocaram ao terreno, acesso a métodos e processos com demasiada informação. Esses ativos têm de ser extraídos”, defende o analista.

Para Ruben Ribeiro, a base de dados biométricos de afegãos que colaboraram com os aliados “é algo que não está a ser abordado, como é óbvio, por uma questão de descrição dos diversos estados. Mas tem de ser discutido porque este assunto não pode morrer. É algo que estamos a monitorizar (sobretudo) tudo o que é órgãos de comunicação social, em termos daquilo que vai ser difundido, no terreno, a nível de posições, de artigos de opinião. Tudo isso está a ser objeto de monitorização nossa. Existem autores que têm mais influência a nível internacional e cujo comportamento habitual é a difusão de contrainformação ou de desinformação”.

E exemplifica com um caso que “no espaço de uma hora e meia” a IntellCorp acabava de “desmontar”, decorria a entrevista com o jornal É@GORA.

“Tivemos de desmontar uma filmagem que foi divulgada como sendo de um ataque feito pela aviação paquistanesa à resistência de Panjshir em que utilizaram imagem do videojogo ´Arma3`. Tudo isso são peças de informação que no terreno, para os aliados ou analistas, poderá levar a determinadas interpretações enganosas e tudo isso faz parte da nossa pesquisa e do tratamento de dados. Temos um conhecimento na zona de conflito, mas também na zona mais complexas de cidades ou locais onde haja pessoas para extrair”, conta.

Atualmente, também a partir de Portugal, a empresa IntellCorp está a acompanhar no território afegão “mais de 50 mil” perfis sociais de todo o tipo de assunto: político, estratégico, diplomático, refere Ruben Ribeiro quando questionado sobre o número de pessoas que está a trabalhar para o grupo de intelligence.

“O número não pode ser revelado, mas temos uma sólida equipa de pesquisa e uma sólida equipa de análise. Essas duas equipas têm vários elementos e estão subdivididas em quatro pesquisa para pesquisa e outras quatro para análise. Depois temos a vertente operacional, e que são operacionais nossos. Uns estão no terreno, outros deslocam-se para o terreno na altura da missão. Em termos de tratamento de todas as notícias e o acompanhamento que fazemos é desde perfis sociais – estamos a acompanhar mais de 50 mil – e todo o tipo de assunto: político, estratégico, diplomático. Todas as vertentes de segurança”, revela, assinalando a forma como se desenrola o trabalho colaborativo no terreno.

“A informação é processada no estrito cumprimento da lei nacional. Existe muita informação que é processada fora do território nacional, nunca chega a entrar e não é processada por pessoal que esteja em território nacional. Felizmente, temos uma rede muito extensa de colaboradores”, diz.

Segundo Ruben Ribeiro, “isto é um trabalho que é feito pelo grupo Intellcorp”.

Aliás, “todos os assuntos que são possíveis a nível de pesquisa e que contribuam para a segurança dos operacionais no terreno, mas também dos elementos e famílias a extrair são confirmadas e reconfirmadas com contactos e fontes nossas em várias áreas geográficas”, esclarece.

“O alvo final somos todos nós” – Rúben Ribeiro

A comunidade internacional teme que os equipamentos de biometria possam ser usados pelos talibã, dado que anteriormente estas ferramentas serviram para fazer o rastreio dos terroristas e identificar potenciais criminosos, alguns dos quais estão hoje soltos.

Através da leitura ótica – Face ID -, este trabalho permite também reunir dados biométricos de identificação, impressões digitais, recolher informações biográficas dos afegãos que colaboraram com os militares e nos esforços diplomáticos, sobretudo, norte-americanos que estiverem no solo afegão.

Questionado sobre a centralidade deste debate no seio das instituições multilaterais como a União Europeia e as Nações Unidas, Ruben Ribeiro responde apontando para aquilo que é a sua experiência pessoal enquanto analista da IntellCorp.

“Internamente deveria ser algo que estivesse a ser discutido de forma bastante intensa em determinadas instituições. Acredito que haja, em alguns estados, a preocupação destas instituições estarem a tentar perceber exatamente o que se passa”, mas Ruben Ribeiro vê uma razão para a falta de uma discussão pública sobre “Quem tem as bases de dados biométricas?”.

“Tudo isso não irá ser discutido em praça pública por parte das instituições e dos Governos porque é uma admissão de que falharam e que (a operação de retirada de forças Ocidentais a 31 de agosto) podia ter sido feita de forma diferente”, diz numa altura em que existe muita gente preocupada e à procura de uma resposta para essa pergunta relativa ao paradeiros das bases de dados biométricas.

Mas o analista insiste: “A nível de opinião pública é importante que isto seja abordado e falado porque é preciso alertar a sociedade e as pessoas – porque são as pessoas que estão dentro das instituições que podem fazer essa diferença – de que há riscos que são colocados agora internamente para determinados ativos dentro de uma área geográfica como o Afeganistão em que elas são os alvos”.

E fora do território afegão há outros riscos, reconhece: “O alvo final somos todos nós. Essas informações podem ser utilizadas futuramente como vulnerabilidades nossas a ser exploradas e, portanto, existe um real e grande perigo de irem parar às mãos de organizações que não são propriamente boas nem organizações amigas”.

Instando a pronunciar-se sobre a possibilidade de se recuperar essa informação, o fundador do grupo IntellCorp considera que “o mínimo que se pode fazer é proteger as pessoas que estiveram colocadas na posição de acesso a essa matéria”.

“É possível uma localização da base de dados e eventualmente uma inutilização delas”, garante, esclarecendo:

“Há quem tenha capacidade para o fazer. Em termos daquilo que é mais imediato do ponto de vista de extração de elementos, o que mais nos preocupa é extrair esses ativos para evitar danos maiores porque há coisas que não vão para a base de dados e coisas que dizem respeito aos aliados e ficaram no conhecimento dessas pessoas”, diz.

Mas, acrescenta, essas pessoas já não estando no terreno, já não estão sob perigo e já não são uma ameaça.

Aliás, “já não poderão entregar informação porque não podem ser capturadas nem interrogadas. Essa é a nossa preocupação agora. Mas é um assunto que tem de ser discutido publicamente. Tem de haver uma pergunta da comunicação social dirigida aos estados: “Como é que lidaram com a informação classificada? O que é que ficou lá? Foi inutilizada? Os elementos que lidavam e colaboraram com os aliados ou com determinado estado vieram todos? Procuraram trazê-los?”.

Para Ruben Ribeiro, “são essas perguntas incisivas que têm de ser feitas aos estados”, porque, “é a única forma de, rapidamente, se arranjar uma dinâmica que possa avançar para a extração – quer a nível de negociação diplomática -, porque os estados têm essa capacidade”.

“Nós os privados fazemos o possível, mas o estado tem essa principal capacidade para, diplomaticamente, arranjar formas de pressionar e negociar determinadas situações”, diz.

Enquanto a IntellCorp prossegue na corrida aos dados biométricos em poder dos talibã, o imigrante Nasir Ahmadi garante ao jornal É@GORA que continuará a tentar ver junto da embaixada paquistanesa, Islamabad, se a mãe a irmã conseguem atravessar a fronteira para o Paquistão até que a qualquer momento cheguem a Portugal.(MM)

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