“O combate ao racismo passa por reeducar os fake thinkers” – Filinto Elísio

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O poeta Filinto Elísio é dos mais destacados imigrantes cabo-verdianos em Portugal. Foto retirada no Facebook ©
Nilza Rodrigues

Poeta, escritor, matemático, gestor, pensador, senhor de si. Filinto Elísio é um cidadão do mundo. Mas também um imigrante residente em Portugal, com Cabo Verde na alma.

Esta é a história de um poeta que tem em “Dom Quixote de la Mancha” o seu livro de eleição. Ao som de “Poinciana”, confessa, dançar sozinho no escuro. Lê e escreve ostensivamente. Sobre quase tudo. Mas sente-se Cabo Verde na sua alma. “A minha infância ficou lá longe, na cidade da Praia, nos anos sessenta e setenta. Ela permanece-me viva e de mim reclama incessantemente um poema, uma lembrança da casa na Rua do Hospital, dos meus pais trancados no quarto a ouvir a Rádio Libertação, difundida a partir da Guiné-Conacri, da criançada em brincadeira. A música, o cinema e a literatura como o pão nosso de cada dia”, recorda Filinto Elísio em entrevista ao jornal É@GORA.

Imigrante residente em Portugal, este não foi o seu primeiro poiso. De Cabo Verde parte para o Brasil e depois para os Estados Unidos onde trabalhou como professor. “Portugal só me aconteceu em 2014. É claro que antes disso já havia passado por cá dezenas de vezes, umas de férias, outras a trabalho. Hoje, vindo de Cabo Verde, como muitos compatriotas meus, Portugal recebeu-me relativamente bem e sou parte também desta sociedade portuguesa, que é plural e diversa, lugar de muitos bons amigos e parceiros”. Para trás fica uma vida estudantil intensa. História da Arte, Biblioteconomia, Gestão e experiências profissionais marcantes como professor em Boston, como assessor e conselheiro em Cabo Verde, como agora a vida de editor e de consultor. E a poesia sempre presente. Na sua vida e nesta entrevista. “A poesia realiza-me. Torna-me um Cavaleiro de Triste Figura, dispensando o fiel escudeiro, e impele-me a lutar contra os moinhos de vento”, confessa, antes mesmo de começarmos.

Filinto já passou pelo Brasil, Estados Unidos e Portugal. Em Lisboa acaba por ficar. O que o mantém cá?
Mantenho-me por cá. É uma excelente plataforma para ver Cabo Verde, a África e o Mundo. Deixa-me a impressão de “perto-longe” de tudo e de todos. Neste momento, estou a desenvolver uma pesquisa sobre Amílcar Cabral com uma universidade italiana e Lisboa parece-me o lugar ideal para “procurar Cabral”. Temos forte atividade editorial e cultural. Quem seja o poiso duradouro do Cavaleiro de Triste Figura?

Mas sempre com ligações constantes com Cabo Verde e com a Lusofonia. Funda a Academia de escritores cabo-verdianos e a Editora Rosa de Porcelana. Para potenciar o talento da sua terra natal?

Ligação intensa com Cabo Verde, com os Países de Língua Oficial Portuguesa, com a África e com o Mundo. Em Cabo Verde, participei do grupo fundador da Academia Cabo-verdiana de Letras e criei, com Márcia Souto, que é minha companheira de vida e de desafio cultural, a Rosa de Porcelana Editora. Para potenciar talentos cabo-verdianos e outros, em Cabo Verde e em qualquer lugar. Uma das premissas da Editora é a internacionalização não apenas dos autores e das suas obras, mas também das iniciativas culturais, razão por que criámos o Festival de Literatura-Mundo do Sal. Enquanto editores e sujeitos culturais, achamos que a arte (e como tal a literatura), por autoral que seja, por identitária que reivindique, é também poligonal e tem enorme potencial rizomático e de traficância. E o nosso sonho já declarado é criarmos um centro cultural-mundo, algo que poderia, mais à frente, ser em Lisboa.

É, portanto, um imigrante residente em Lisboa. Gostaria que fosse de outra forma? Há constrangimentos nesse ‘estatuto’?
Tenho a carteira de residência em Portugal e trabalho a partir deste país. Não vejo grandes constrangimentos ao exercício laboral com o estatuto de imigrante residente, mas não descarto a possibilidade de concorrer à cidadania portuguesa, no princípio de que a lei me permitiria a dupla cidadania e da premissa de que não me abdicaria da minha nacionalidade de origem, que é cabo-verdiana.


Qual a sua visão da comunidade cabo-verdiana em Portugal?

É uma comunidade heterodoxa e complexa, que não se compadece a um visão simplista e redutora. Os cabo-verdianos estão há séculos na sociedade portuguesa e muitos estão nelas plasmados. Da imigração mais contemporânea, temo-los de várias gerações, categorias profissionais e, consequentemente, estatutos sociais. A maior parte, acredito, embora admita a necessidade de um levantamento sociológico, talvez faça parte de uma malha mais desfavorecida da sociedade portuguesa e a viver em bairros periféricos de Lisboa, Vale do Tejo, Vale do Sado e Porto, sem negligenciar outras cidades de grande concentração estudantil como Bragança ou Braga. Entrementes, há uma significativa classe média cabo-verdiana, em muitos casos constituída de quadros médios, superiores e especializados, relativamente bem integrados. Creio que somos uma das grandes comunidades estrangeiras em Portugal, com positiva contribuição para a pluralidade social e para a prosperidade da economia portuguesa, mas temos de fazer uma reflexão responsável sobre as complexidades das nossas comunidades.

“O racismo alimenta-se da falácia de que o imigrante é um custo social, quando na verdade é portador de valores e produtor de riqueza”

Até porque os incidentes de índole racista estão na ordem do dia. Que comentário lhe merecem?
Tenho-os acompanhado com preocupação consequente. Com responsabilidade e ponderação. Tais incidentes são apenas uma ponta de iceberg de um fenómeno de extremismo da intolerância e de resquícios coloniais não totalmente saneados da sociedade, em seu grosso modo constituída de pessoas de bem e tolerantes. O fenómeno, que existe, alimenta-se da falácia de que o imigrante seja um custo social, quando na verdade é portador de valores e produtor de riqueza, para o benefício coletivo. Ademais, a tensão, ainda de baixa intensidade, mas com picos de confrontação, provém do racismo estrutural contra o negro-objeto nas malhas de uma memória esclavagista não sublimada de todo e do chauvinismo em estado dormente contra o estrangeiro a partir da ideia de “usurpador do território”. O racismo e o chauvinismo, se não contrariados, regeneram-se, reconstituem-se e reproduzem-se na economia, na política, no pensamento, na linguagem, na sociedade e na capacidade de definir a lei e a ordem.

Como travar essa batalha?
Creio que precisaremos de uma pedagogia da convivência e não a reprodução curricular acrítica que transforma os educandos em fake thinkers. Temos, sem extremismo estéril, nem confrontação histérica, propor reformas curriculares, reconfiguração educacional, a partir do questionamento do pedagogo Paulo Freire: “a favor de quê e de quem, contra o quê e contra quem a educação?” A ciência já derrubou há muito a raça e, com ela, o racismo. O cientista e egiptólogo Cheik Anta Diop diria que pelo genótipo pode-se encontrar afinidades de cromossomas entre um senegalês e um sueco. Temos também de perscrutar o passado, ir para trás, como forma de ressignificar o presente. Um afrontamento educativo novo, baseado na igualdade, na liberdade e na solidariedade, assim como na autonomia aprendente e na melhoria cognitiva, como no-la propõe o filósofo Edgar Morin, como a estrada viável para mudar as coisas.

O racismo é crime. É de lei. Mas fala-se de uma racismo à boca pequena que existe, mas não pode ser provado. Como colmatar?

Racismo é crime e criminalizá-lo foi um salto civilizacional, em linha com os Direitos Fundamentais e do Estado Democrático de Direito. Entretanto, a lei tem de ser mais apropriada cívica e culturalmente. O espírito da lei deve tornar-se prática, costume no dia-a-dia dos cidadãos, algo verdade mesmo à boca pequena. O racismo é ilegal e o racista é um fora-da-lei e há que agir em conformidade. A partir disso, temos de analisar o insidioso do racismo sobre novas máscaras, mesmo quando ele não se expressa através da brutalidade de alguma polícia, do linchamento grupal ou da discriminação verbal. Em muitos casos, o racismo, subtil e manhoso, se esconde no pacto de privilégios que “racializa” intrinsecamente o aceso à melhor educação, melhor rendimento, melhor emprego, melhor saúde, melhor posicionamento social, a casa grande numa dimensão imaterial, mas nem por isso inexistente, o mesmo em relação à senzala. A desigualdade brutal está aí para uma análise mais complexa e lúcida da problemática.

Tem um discurso político muito firme. Foi, inclusive, conselheiro do antigo primeiro-ministro de Cabo Verde. A política fascina-o de alguma forma?
A política fascina-me enquanto exercício da Polis, não enquanto ocupação de poder. Fascina-me enquanto campo alargado da cidadania, na procura incessante das liberdades, direitos e garantias. Não me é despiciendo pensar o Estado Social, como expressão da vontade cidadã e como modo de viabilizar modos de vida das comunidades. Enquanto tal, fui conselheiro do antigo Primeiro-Ministro num tempo em que se falava em agenda de transformação de Cabo Verde, porquanto acredito que o meu país, sendo uma democracia com reputação global e uma referencia de boa-governação em África, tinha e ainda tem o grande desafio pelo desenvolvimento sustentável. Nem me repugna pensar politicamente outras realidades que não a cabo-verdiana, pois sou cidadão do mundo e tenho ideários reabilitadores dos conceitos equidade e solidariedade, que considero progressistas, por um mundo melhor possível.

Então a política é um caminho por explorar ainda…?
A política fascina-me, mas não estou disposto a picar o ponto em qualquer partido político ou em me alinhar em iniciativas de sujeição do sujeito-humano que, como diria Jean-Paul Sartre, está condenado a ser livre.

“A CPLP deixa-nos sempre a impressão de que funciona aquém, muito aquém do seu potencial”

Nem mesmo se lhe lançassem o desafio de integrar o governo cabo-verdiano quiçá na área cultural… temos o exemplo de
Regina Duarte a quem foi lançado recentemente o desafio para ser secretária de Estado da Cultura do Brasil. Aceitaria?

Não aceitaria, primeiro por indisponibilidade. Depois, por conflito de interesse, pois sou estruturalmente um operador cultural e, enquanto isso, dou o meu contributo na ótica de utilizador. Além disso, eu olharia para tal função como exercício da antropologia aplicada e como acesso universal de todos a tudo que seja bem simbólico. De resto, se assumisse a política ativa, certamente seria para uma posição eleita e não aquela nomeada, pois a legitimidade é o pilar que sustenta o do-in reformista. Afora isso, defendo algumas bandeiras ainda não incorporadas efetivamente, como as do Estado Social, Solidário e Qualificado, direitos das mulheres e LGBTI, outro paradigma educativo, partido societário, agenda verde, inovação e criatividade, desenvolvimento sustentável e inclusivo, mobilidade e transumância universais.

Há mais cabo-verdianos no mundo do que em Cabo Verde propriamente dito. Como analisa o papel da CPLP nesse sentido?
A CPLP deixa-nos sempre a impressão de que funciona aquém, muito aquém do seu potencial. Queria ver mais engajamento dos países no reforço desta Comunidade. Mais vínculo ativo e consequente. Entretanto, respeito e valorizo os esforços possíveis que têm sido feitos e não quero olhar para a instituição com crítica inconsequente. Considero importante este novo desafio lançado sobre a mobilidade dos cidadãos e oxalá ele se traduza em medidas concretas. Mas precisávamos de uma melhor CPLP, mais efetiva, mais inclusiva e mais forte, muito para além da premissa pouco otimizada de que a língua portuguesa nos une. Esta língua, com dimensão e potencial extraordinários, deveria unir-nos para grandes convergências e saltos estratégicos, como assenta a um bloco mundial digna do nome. Acredito que uma melhor CPLP ainda esteja a caminho.

“Como poeta, sou um homem livre, completamente livre, e se calhar, radicalmente livre!”. Assim se definiu, certa vez. Acredita ser verdadeiramente livre? Podemos ser verdadeiramente livres?
Sim, sou livre. Visceralmente livre. Hoje, nesta idade evito as palavras “absolutamente” e “radicalmente”, porque há compromissos que nos condicionam algumas atitudes. A minha utopia, que não está morta, não pode ser erigida malgrado tudo e todos. Visceralmente livre e socialmente comprometido.(X)

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