O desespero dos micro-empresários brasileiros face à crise da Covid-19 em Portugal

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Elisabeth Almeida (Correspondente em São Paulo)

O ano começou com número recorde de brasileiros em Portugal, que registou 151 mil pessoas que trocaram a feijoada pelos pastéis de nata. Entre eles está Flávia Silva, que saiu de Goiânia para tentar a vida no Porto, onde logo que conseguiu um emprego começou a faturar o suficiente para seu sustento. Mas o ordenado nunca deu para poupar, até que se mudou para Lisboa e se deparou com a Covid-19.

“Nunca tive dinheiro sobrando, ainda mais com o valor alto das rendas. Tive dificuldade para me recolocar no mercado de trabalho, depois que vim viver na capital portuguesa e comecei a trabalhar como motorista do Uber. Só que com esta pandemia e o isolamento, o que ganho não dá nem para gasóleo”, diz ao jornal É@GORA, numa conversa em que fala sobre uma das muitas faces da atual pandemia: a crise económica.

“Ao meu ver, Portugal ainda vai ser muito afetado, já que depende muito do turismo. E quando o comércio reabrir, grande parte da população vai estar há tempos sem receber seus ordenados, sem dinheiro e vai demorar muito até tudo voltar realmente ao normal” prevê Flávia.

E num breve olhar ao antes e depois da sua vida por terras lusas, a imigrante brasileira fala da aflição dos dias de hoje, que, na verdade, levam cada vez mais a uma situação de desespero.

“Antes do coronavírus, eu conseguia ganhar por semana cerca de 500 euros, mas em meio a esta fase eu não faço nem 150 euros por mês e me encontro sem dinheiro para ficar e sem para retornar ao meu país. É uma situação desesperadora”, desabafa.

Ainda assim, mesmo com o aumento de casos confirmados de Covid-19 no território brasileiro, para Flávia voltar para o Brasil é a melhor opção.

“O simples fato de estar livre de renda, que é muito alta em Lisboa e arredores já vai facilitar a minha vida significativamente. Estando perto da minha família e saber que posso contar com eles e que não estarei desamparada, ajuda ainda mais. Além disso, em Goiás, local onde eu nasci e onde meus parentes vivem, tem muitas fábricas e, mesmo com a crise, há empregos e vejo mais oportunidades”, conclui a brasileira em declarações ao jornal É@GORA.

A situação da advogada Viviam Mourão não é distante da de Flávia, já que a mineira trabalha há mais de três anos numa empresa de cobrança de dívidas no Porto e viu sua rotina mudar após a eclosão da pandemia.

“Diante do surto de coronavírus em todo o país e a necessidade do isolamento social, tive que me adaptar com o ´home-office` e, apesar de toda essa fase difícil, tive uma diminuição de 25% no meu ordenado sem aviso prévio. Não sei o que fazer para complementar a renda”, relata Vivian.

“Entre passar necessidade aqui e no Brasil, eu prefiro mil vezes voltar e passar por tudo isso ao lado da minha família”, concluiu.

No no dia 18 de março, o Presidente da República de Portugal, Marcelo Rebelo de Sousa, aprovou um decreto sobre o “recolhimento domiciliário” para toda a população, tendo a permissão para trabalhar apenas os funcionários das empresas que prestam serviços essenciais como, por exemplo, farmácias, supermercados e correios.

Pesquisadores estudam todas as possibilidades para o rumo da economia nacional, mas as primeiras publicações já demonstram uma quebra drástica na economia global.

“Assim como no Brasil, quem mais vai sair perdendo são os autónomos, ou, em Portugal, os que trabalham com recibos verdes. Mas apesar de tudo isso, acho que o mundo todo vai amadurecer e começar a levar as finanças mais a sério. No fundo, esse desespero meu e de outros milhares de pessoas se deve ao facto de termos sido surpreendidos. Mas se você olhar atentamente para o seu círculo de amizades, com certeza verá alguém que está bem tranquilo com relação à economia, pois tem uma quantia reserva, já planejada para essas emergências”, reitera Flávia.

A imigrante residente no norte de Portugal, onde há mais casos de Covid-19 no país, faz uma comparação entre a realidade portuguesa e a brasileira.

“Os dois países sofrem dos mesmos males, basicamente, mas como o território brasileiro é infinitamente maior acaba sendo mais exposto e julgado. A grande diferença, no meu caso, é a distância da família, o que mais me incomoda, além do facto de não ter condições de voltar para minha casa de verdade (Brasil)”, finalizou.

E da cidade de Braga, que por sinal é a mais afetada pelo covid-19 até o momento, no norte de Portugal, o publicitário Lui Serpa lembra que aquela região recebeu no ano passado o título de 2º. melhor destino turístico europeu, pela European Best Destinations, mas hoje em dia é vista como uma cidade fantasma.

“A rotina de todo mundo foi modificada e a visão cotidiana que tínhamos de turistas em frente aos monumentos, assim como praças, comércio e bares que antes viviam cheios, agora estão desertos”, conta Luís Serpa sobre a região com mais de 620 casos, que teve seu primeiro caso positivado ainda no início de março: um aluno da Universidade do Minho, uma das mais tradicionais de Portugal.

“A situação económica sofreu um impacto muito grande, já que as microempresas não terão suporte para continuar depois de ter as portas fechadas durante meses. Eu ainda tenho contrato de trabalho e todos os direitos que o envolvem, mas penso também nos autónomos (microempresários), que só recebem mediante a prestação de um serviço. A grande verdade é que ninguém estava esperando por este surto: nem as autoridades, nem os empresários e muito menos os funcionários”, revela Serpa.

Tal circunstância é uma realidade também no Brasil e cada vez mais divide opiniões, já que o país possui mais de 38 milhões trabalhadores autónomos e que, como todo o restante do mundo, não contavam com um surto de tamanha grandeza logo no início do ano.

Para tentar amenizar a vigente crise, o Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, criou o Auxílio Emergencial, que varia entre 600 reiais (105 euros) e 1.200 reais (210 euros) para os servidores independentes.

Segundo o relatório “A economia em tempos de Covid-19”, recentemente divulgada pelo Banco Mundial, estima-se que este ano haverá uma retração de 5% no Produto Interno Bruno (PIB) brasileiro.

Já a nível mundial, o Fundo Monetário Internacional (FMI) prevê uma crise económica “bem maior” do que a vivida entre os anos de 2008 e 2009, com queda de 3%, sendo a pior recessão em toda a Terra desde 1929. (AE)

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