O “efeito Joacine” entre os candidatos da imigração nas Autárquicas-2021

0
417

Manuel Matola

As eleições autárquicas deste domingo tiveram um número record de candidatos ligados à imigração, mas na lista da força política portuguesa de extrema direita há um nome que concorreu em contraciclo: o imigrante Gabriel Mithá Ribeiro, vice-presidente do Chega, partido anti-imigração.

O historiador moçambicano, de ascendência indiana, síria e africana, reside há mais de quatro décadas em Portugal, onde no domingo foi candidatos à presidência da Câmara Municipal de Alcochete por um partido que já protagonizou várias manifestação para contestar a existência do racismo em Portugal.

Aquando da sua indicação para candidato às eleições municipais, o Chega justificou a escolha do historiador Gabriel Mithá Ribeiro, autor do livro “Colonialismo nunca Existiu”, com a pretensão de colocar “esta Terra [Alcochete] na primeira linha do progresso, contra a estagnação comunista e socialista”.

“Esta é uma proposta da nova direita para Alcochete, que com um projeto exequível e sem dogmatismos ou promessas vãs, pretende colocar esta Terra na primeira linha do progresso, contra a estagnação comunista e socialista”, disse o Chega em comunicado.

Mas neste domingo, o imigrante Gabriel Mithá Ribeiro averbou uma derrota ao se posicionar na última posição entre os cinco candidatos à presidência da Câmara Municipal de Alcochete.

De Moçambique vem também Suzana Garcia, candidata de uma coligação liderada pelo PSD na Amadora, e que passou a ser conotada com os ideais do partido da extrema-direita devido aos seus discursos contra a população afrodescendente, sobretudo, à comunidade cabo-verdiana, a quem a advogada alegadamente terá chamado de “gentalha”.

Após a escolha de Suzana Garcia como candidata do PSD à presidência da Câmara de Amadora, o luso-cabo-verdiano Jorge Humberto que há anos era vice-presidente do PSD na Amadora e com um percurso de ativismo social naquele Concelho, onde o político vive desde a infância e cresceu entre comunidades retornadas, refugiadas, imigradas e migradas, renunciou ao cargo por discordar com a escolha feita pelo maior partido da oposição em Portugal.

Na altura da sua indicação à candidata, o presidente do PSD, Rui Rio, avisou à advogada: “Num contexto de candidatura é bom que [Suzana Garcia] não tenha uma linguagem parecida [com a que tinha nos programas da TVI], porque são contextos diferentes”.

Durante a campanha, Suzana Garcia lembrou várias vezes a sua ligação com Moçambique e, na noite eleitoral em que proferiu o discurso de derrota, após falhar a eleição para a presidência do Concelho, destacou o facto de integrar na sua lista uma cidadã lusodescendente e de eleger um vereador de origem cabo-verdiana, uma das maiores comunidades imigrantes residentes na Amadora.

Desde há uns anos para cá tem havido um crescimento no que diz respeito a candidatos afrodescendentes nas eleições portuguesas. Os rostos mais conhecidos que marcam essa mudança são as três deputadas à Assembleia da República de origem guineense: Joacine Katar Moreira (a primeira mulher negra cabeça de lista em eleições legislativas em Portugal), Beatriz Gomes Dias (que no domingo disputou à presidência da Câmara de Lisboa) e Romualda Fernandes (deputada do PS no Parlamento).

Embora tenda a ser cada vez mais frequente o processo de integração de imigrantes nas listas partidárias, esta foi a primeira vez que, numa única eleição, se terá contabilizado mais de uma dezena de candidaturas de cidadãos ligados à imigração, em lugares elegíveis, em quase todas as listas das forças políticas ou coligações de partidos – da Esquerda à Direita ideológica.

O jornal É@GORA questionou alguns candidatos para saber qual a leitura que fazem desta participação de cidadãos com nacionalidade portuguesa adquirida mas que são provenientes de quase todos os países lusófonos e não só.

António Semedo
Instado a comentar, o agrónomo António Semedo, de origem cabo-verdiana, olha para o fenómeno de forma dual: se, por um lado, considera “positiva” essa “maior participação” dos imigrantes e afrodescendentes, que “tem a ver com a afirmação dos africanos com uma responsabilidade política, de chefia ou de direção e na sociedade em geral”, por outro, critica o facto destas comunidades “continuarem a fazer número” nas listas dos partidos políticos.

“Nós temos aqui os afrodescendentes para fazer número. A comunidade africana como começa a afirmar-se em alguns lugares interessantes na comunidade, por vezes, há esse aproveitamento de partidos políticos em quererem colocá-los nas suas listas para ganhar corpo e não contando com eles realmente para lugares pensantes e colaborantes, para resolução de problemas e construção programática do que seja as candidaturas que existem”, diz António Semedo, que concorreu como independente numa coligação liderada pelo PSD na União de Freguesias de Cacém e São Marcos na Câmara Municipal de Sintra.

Em entrevista recente ao jornal É@GORA, a cabeça de lista do Somos Todos Lisboa à Câmara da capital portuguesa, Ossanda Liber, candidata de nacionalidade angolana e francesa, admitiu que a sua equipa terá feito uma inflexão ao preparar um programa que começou por pretender “dar voz à imigração”, mas depois “passou a ser mais amplo”.

“Inicialmente, quando decidimos ir à rua auscultar e perceber a pertinência das nossas ideias para que preparássemos o programa, o plano era dar voz à imigração. Julgávamos que era o setor da sociedade lisboeta que mais necessitava e mais urgente de intervir. Até pelas minhas próprias caraterísticas e de alguns dos nossos candidatos que integram a lista, obviamente, temos sensibilidade para este tema”, diz.

Em declarações ao jornal É@GORA, a luso-cabo-verdiana Andredina Cardoso, candidata socialista à Assembleia Municipal em Sesimbra, Andredina Cardoso, considera esta maior inclusão de imigrantes e afrodescendentes na política ativa “um processo normal”, isso “no sentido em que estas questões são sempre uma caminhada”.

As taxas de abstenção nas eleições de domingo foram de quase 50 por cento e Andredina Cardoso aponta uma razão para a habitual fraca participação também dos imigrantes ou afrodescendentes com direito ao voto.

Andredina Cardoso. FOTO: Marlene Nobre
“Na minha opinião não há uma grande aposta na literacia política. As pessoas aproximam-se pouco da política. Olham para a política como uma grande mancha cinzenta e não sabem muito bem o que se passa lá dentro, e isso afasta-as, até porque não percebem muito bem todas as dinâmicas que a envolvem e a repercussão que isso tem no seu dia-a-dia”, diz.

Andredina Cardoso destaca a forma destes grupos contraporem a sua ação política: “Cada vez mais a luta social a nível das comunidades das diásporas, por norma, fazem-se muito através do movimento associativo. Mas isso não é suficiente, até porque o movimento associativo das diásporas em Portugal tem muitas fragilidades”.

E partindo para um momento de exposição das dificuldades que este tipo de ativismo social enfrenta, com base no associativismo, a candidata da lista do PS lança um outro olhar profundo ao problema: é que tudo começa quando as leis equiparam as associações com empresas, diz.

“Uma associação para funcionar convenientemente tem de ter um corpo de trabalho estável. […] As leis que regem o funcionamento de uma associação são extremamente exigentes, são semelhantes ao funcionamento de uma empresa, o que exige uma capacidade técnica muito grande. E muitas das vezes as associações não estão dotadas dessa capacidade técnica”, denuncia.

E mais: a falta de capacidade técnica resulta da elevada quantidade de burocracia e que, consequentemente, ‘obriga’ ao sistema de voluntariado dos membros destas instituições, o que “acaba por ser uma fragilidade porque estes têm de funcionar numa base profissional, mas como voluntários”, considera.

Segundo a socialista, “estas duas situações acabam por não ser suficientes para consolidar uma estrutura forte que permita ir buscar o financiamento onde eles são necessários e colocá-los em prática no terreno”, e nisso “as pessoas também passam muitas horas a cuidar do equilíbrio da própria vida”.

Fátima Vicente
A luso-guineense Fátima Vicente, candidata à deputada independente de uma coligação liderada por PSD na União de Freguesias de Cacém e São Marcos na Câmara Municipal de Sintra, tem uma leitura contrária, quando questionada sobre um eventual aumento de candidatos ligados à imigração.

“Acho que não [há grande participação]. É só ver, por exemplo, que as listas são compostas por entre 12 e 14 pessoas. Nós temos a sorte de estar na freguesia e termos [tido] dois elementos afrodescendentes na nossa lista. Mas há freguesias onde não [houve] nenhum afrodescendente. Portanto, eu não acho que haja uma maior participação. Antes pelo contrário”, diz a candidata em declarações ao jornal É@GORA, apontando para uma possível razão desta situação.

“É por não acreditarem nos afrodescendentes e na nossa capacidade. As pessoas que acreditam são muito poucas. O facto de nos puxarem para as listas ainda pode [levar estas pessoas a] ser penalizadas” dentro das estruturas partidárias, diz Fátima Vicente, que propõe uma “mobilização e união” entre a comunidade imigrante e afrodescendente, sobretudo candidatos, para inverter essa situação por forma a se colocar o tema em cima da mesa e discutir-se sobre as questões migratórias.

A luso-guineense considera também que para que o afrodescendente queira participar e haja incentivo nesse sentido “tem de haver alguém que acredite nele e na sua opinião. Se não há quem acredite e não o incentive ele não participa. Ponto”, diz Fátima Vicente cuja bandeira para eleição foi a promoção da cultura africana em Portugal.

“Acho que as pessoas não acreditam em nós porque não nos conhecem. Se as pessoas conhecessem a nós e à nossa cultura talvez a partir daí nos dessem o valor e o reconhecimento que nós de facto temos como seres pensantes porque às vezes não sei se nos consideram como seres pensantes ou só como quem trabalha e faz o trabalho duro”, diz.

Na verdade “o que está a falhar é educação”, resume, entretanto, o luso-guineense Cissé Camaró, candidato à deputado à Assembleia Municipal de Algueirão-Mem Martins, quando questionado sobre o tema.

Em conversa com o jornal É@GORA, Cissé Camaró é perentório: “É muito pouca a nossa participação”, sobretudo um concelho de Sintra que é o segundo maior concelho do país em termos de população, com quase 400 mil habitantes.

“Se formos a ver são muitos africanos e afrodescendentes [que moram no Concelho], só que não estão envolvidos no processo eleitoral, nas juntas de freguesia, nas câmaras, nas finanças”, aponta Cissé Camaró prosseguindo: “A geração de afrodescendentes que está cá e que cresceu cá não está envolvida na sociedade. Vive à beira da sociedade e não consegue atingir um nível necessário para estar envolvida na definição de políticas, nos partidos. Se são convidados não têm autoconfiança necessária para estar lá. Precisam desta autoconfiança e sentir que somos daqui, porque estamos a viver aqui, crescemos aqui e temos todos os direitos como qualquer um”.

Questionado sobre qual o papel das associações pró-imigrantes para inverter essa situação, o luso-guineense insiste: “temos que participar. Desculpa dizer assim, mas nem todos nossos meninos aqui são burros. Então por que nem 12º ano conseguem fazer? Falta um acompanhamento. Precisamos perceber que uma pessoa formada é diferente de uma não formada. A educação é a chave. Todos os afrodescendentes que a nível mundial conseguiram um certo nível na política internacional são pessoas educadas. Pelo menos têm uma licenciatura ou mestrado”, sugere.

Em entrevista ao jornal É@GORA, o candidato à presidência da União de Juntas de Freguesia de Cacém e São Marcos – Sintra, Domingos Massena, propõe um debate contrário: “Para mim são todos os portugueses. O debate devia ser outro [pelo que se deve questionar]: por que são vistos como imigrantes, se nasceram cá? Para mim são todos portugueses”. (MM)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here