O grito da diáspora sul-africana: “Os nossos compatriotas não precisam lidar com mais perdas e anarquia!”

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Manuel Matola

Existem 1.640 imigrantes sul-africanos a viver em Portugal. No ano passado, a diáspora sul-africana alertou o mundo sobre a “morte lenta” da África do Sul, país que agora está em chamas. O jornal É@GORA entrevistou com a representante em Portugal do projeto “Move One Million”, Lauren de Almeida, sobre a situação no país de Nelson Mandela quando o mundo tenta perpetuar o legado do maior ícone da História Global. Acompanhe:

Em julho de 2020, a diáspora sul-africana lançou o projecto “Move One Million”, que atraiu o interesse de meio milhão de sul-africanos a nível global, alertando à comunidade internacional para “a morte lenta” da África do Sul. Um ano depois, como é que descreve a situação que se vive na África do Sul?
A atual situação na África do Sul é desanimadora. São muitas as emoções pelas quais os sul-africanos estão passando atualmente, uma profunda tristeza pela devastação e destruição às infraestruturas do país acompanhadas com o saque e queima de supermercados, negócios, armazéns, áreas industriais etc que foram danificados, criando ainda mais perda de empregos no país. É muito chato ver as imagens e vídeos nas redes sociais. É estressante tanto para quem mora lá quanto para quem está no exterior com familiares e amigos ainda por lá. Os saques e motins que ocorreram no país foram considerados uma tentativa de desestabilizar a democracia. Esses eventos geraram graves consequências econômicas e sociais, com tantos setores sendo afetados. Isso está acontecendo em meio a uma pandemia já trágica, onde a África do Sul teve um dos bloqueios mais severos do mundo, e muitas vidas já foram perdidas. Os cidadãos não precisam lidar com mais perdas e anarquia!

Como é que avalia a reação da comunidade internacional face à situação sul-africana?

Lauren de Almeida, representante em Portugal do projeto “Move One Million”
A comunidade internacional, especificamente os sul-africanos, procuraram governantes e agências de notícias na esperança de que os cidadãos sul-africanos pudessem ser auxiliados de várias maneiras. Temos visto relatos sobre a situação por vários agentes noticiosos ao redor do mundo, porém é em vão, pois se resume a uma mera reportagem, com pouca ajuda da Comunidade Internacional. O projecto “Move One Million” é específico e aumentou a conscientização para a situação na África do Sul com um encontro que aconteceu no Reino Unido e outro na Nova Zelândia.

Olhando para os propósitos da campanha lançada pelos sul-africanos a nível global e o que se assiste na África do Sul, acha que o projecto “Move One Million” terá falhado no seu objectivo? Porquê?
Não, nós não falhamos, Como membros do projecto “Move One Million” as pessoas se unem tanto a nivel internacional quanto na África do Sul, para criar consciência e agir ajudando as comunidades, seja com financiamento para ajudar com provimento de alimentos ou produtos de limpeza, alcançando as comunidades mais vulneráveis, asilos para idosos, bem como áreas isoladas dentro de Kwazulu Natal e Gauteng. O projecto “Move One Million” é a maior organização civil do país. O membro fundador é Jarette Petzer e ele está trabalhando duro no terreno, ajudando nas comunidades e mantendo contato com os membros, e o CEO Derek Holmes, também tem enviado mensagens aos membros local e internacionalmente com atualizações sobre o que o project “Move One Million” está fazendo no interior da África do Sul.

O mundo assinala dia 18 de julho o Dia Mandela. Como é que se explica a uma criança sobre o Dia do Nelson Mandela, quando esta vê as imagens do que se passa na África do Sul?
O Dia do Nelson Mandela é um dia dedicado às boas ações em cada comunidade do país. Como uma nação arco-íris, a maioria dos nossos cidadãos passa o dia ou a semana distribuindo atos de bondade uns com os outros, doando dinheiro, comida, cobertores, roupas, plantando árvores, a lista é interminável. Explicar a uma criança que vê o que está acontecendo na África do Sul não é fácil, mas expressamos à futura geração da África do Sul que Mandela defendia a igualdade, a justiça e o bem da humanidade e de nossa bela e diversificada nação, onde algumas pessoas nem sempre refletem sua imagem. É nossa responsabilidade e dever como sul-africanos e jovens da África do Sul incorporar nossa visão de fazer crescer a nação com sucesso.

O legado de Mandela ainda vive?
Sim, para milhões em nosso país, acreditamos em seu legado e continuamos a construí-lo, no entanto, há e tem havido alguma instabilidade política dentro do país e, claro, isso é uma preocupação para nossa nação. O partido de Nelson Mandela está no poder há mais de um quarto de século e ainda há muito a ser feito para mudar para melhor o nosso país e os meios de subsistência de seus cidadãos.

Como é que o mundo pode perpetuar o legado deixado por Nelson Mandela?
Através da esperança, do respeito e da bondade uns com os outros. Com compaixão e humildade para com os indivíduos, independentemente da raça, sexo ou crença, de forma contínua.

Face ao que se passa no seu país de origem, a África do Sul ainda tem direito de reinvidicar o legado de Mandela?
Uma pergunta difícil. Acho que a grande maioria dos nossos cidadãos diria que sim, dada a natureza de nossa nação em se posicionar na união para um bem maior, no entanto, do ponto deb vista político do legado e atuação do partido, isso é questionável.

Que futuro se reserva à África do Sul, aos sul-africanos e a sua diáspora?
Nada pode derrubar o espírito de nação, muito menos através de qualquer crise, ou obstaculos, a nossa nação sempre encontra uma maneira de se unir, os sul-africanos são uma nação muito resistente. Sempre encontramos uma maneira de nos ajudar uns aos outros nas comunidades. Fazemos isso por meio de comunidades religiosas que se reunem para entoar canticos de louvor e adoração em supermercados, hospitais e vias públicas, por forma a elevar o espírito de nossa nação e orar por nossos cidadãos e nosso país. Vemos camiões cheios de cestas básicas saindo para dar comida a quem precisa, membros da comunidade e empresas que estão se oferecendo para ajudar e ajudar onde podem. Vemos também membros da comunidade guarnecendo áreas afetadas, principalmente homens, e algumas mulheres montando guarda todos os dias e noites para vigiar por form a que os criminosos não voltem para saquear, e o mesmo se faz nos supermercados, e áreas onde ainda não há registo de incidentes, onde nosso pessoal se uniu sacrificando seu tempo livre para salvaguardar essas instalações, protegendo-as da ocorrência desses incidentes, para garantir que a infraestrutura não seja danificada e não haja mais perda de empregos. Cidadãos sul-africanos ajudaram a estabilizar a situação em Kwazulu Natal e Gauteng, antes que o presidente enviasse a força de defesa sul-africana para ajudar. Felizmente, nesta fase, houve várias prisões e confiscação de bens roubados. Os sul-africanos estão em alerta neste momento e juntos vamos reconstruir o nosso país! (MM)

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