O “mundo obscuro” de cuidadores formais que “comiam restos dos utentes positivos de Covid-19”

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Manuel Matola

Há 24 anos, a escritora brasileira Tânia Brunello iniciou o seu percurso migratório na Itália mas, após a eclosão da Covid-19, a autora do livro “Mulheres Feridas” decidiu “dar uma pausa” à mobilidade e fixar-se em Portugal onde hoje está a criar um sindicato de cuidadores formais para lutar contra as injustiças laborais.

“Muitas vezes, os meus colegas que não tinham dinheiro para o que comer, comiam restos dos utentes positivos de Covid-19”, conta ao jornal É@GORA a auxiliar de geriatria Tânia Brunello, dinamizadora do “Movimento Força”, que está a trabalhar na implantação do Sindicato de cuidadores formais em Portugal e a organizar uma manifestação para o dia 05 de setembro também em prol dos idosos.

O Movimento tem um propósito: proteger os membros das eventuais atrocidades cometidas no “mundo obscuro” das empresas prestadoras de serviços Domiciliário que “dão golpes a funcionárias”, especialmente imigrantes recém chegados e que trabalham em situação irregular num setor onde muitas mulheres são alvo de maus tratos de utentes e dos próprios patrões que as “fintam” na hora de pagar os ordenados. Todos a recibos verde.

Tânia Brunello conta que é, hoje, uma das várias vítimas destes “golpes aplicados pelas empresas intermediárias entre a família e o cuidador”, a quem estas omitem informações fundamentais para o exercício desta atividade, permitindo assim que os patrões, muito deles endinheirados, façam de tudo um pouco contra as funcionárias.

Há “mulheres que são contratadas para trabalhar e quando chegam ao local, os próprios utentes abusam-nas”, exemplifica Tânia Brunello, que nas redes sociais tem publicado ativamente vídeos de testemunhos de “muitas mulheres” que na primeira pessoa contam o que lhes aconteceu, depois de terem visto o primeiro vídeo-denúncia daquela escritora e cuidadora de idosos que ultimamente tem sido “vítima de perseguição e ameaças” de morte.

“Eu vi uma publicação da empresa a pedir pessoas para trabalhar. Eu disse às pessoas para não irem e expliquei o que eles fizeram. Depois a empresa começou a criticar-me a dizer que estava a denegrir a empresa. As pessoas leram esses comentários e cada uma começou a contar o que tinha acontecido. Foi aí que surgiu a ideia de fazer esse comité das cuidadoras que tinham sofridos abusos. Algumas falam de abuso sexual, assédio, de serem acusadas de roubo e espancamento (dos utentes). Chegou quase a 150 mulheres a denunciarem”, afirma ao jornal É@GORA para depois explicar de forma precisa o que pretende dizer com ‘abuso sexual’ neste setor.

“Violação sexual, exatamente. E eles ainda ameaçam que, se contarem, são expulsas porque não têm documentos”, que lhes permita trabalhar de forma legal em Portugal, afirma apontando exemplos de casos reais.

“Nós temos relatos de mulheres que foram chamadas para trabalhar e os idosos e utentes diziam que lhes davam dinheiro em troca de relações sexuais. Queriam que se sentassem no colo deles, que tocassem nas partes íntimas, nas delas também e outras coisas. Eu tenho um relato de uma senhora em que o homem ameaçou bater-lhe se não se deitasse com ele. Ela pegou numa lixa e disse: ´Se o senhor me tocar eu enfio-lhe isto na barriga`. Ele foi em direção a ela, e a mulher espetou-lhe a lixa. Como não era uma faca, não espetou na barriga, mas feriu o homem. Ele assustou-se e saiu do quarto e ela foi-se embora. A maior parte das empresas sabe que isso acontece, mas não fazem nada porque ganham muito dinheiro com essas famílias. O que fazem é substituir a cuidadora por outra”, garante Tânia Brunello.

Muitas dessas mulheres são imigrantes “sem conhecimento da lei e que precisam de trabalhar para viver”, diz a pastora evangélica que, de seguida, conta o seu caso pessoal, de resto, o mais partilhado entre as duas dezenas de denúncias de cuidadoras formais que o jornal É@GORA recebeu nos últimos dias.

“Cheguei a Portugal cansada e decidi dar uma pausa a esse meu trabalho de pregação, ministrando nas igrejas para as mulheres e reservei-me no meu cantinho. Precisando me sustentar fui para Lisboa, procurei uma agência de recrutamento (de trabalho temporário) que oferecia trabalho de qualidade. Falaram-me de um trabalho de 48 horas por semana para cuidar de uma senhora (idosa). E eu não tinha documentos. O único que tinha era a inscrição nas Finanças com o endereço da Itália. A senhora fez-me a proposta de me pagar 350 euros/mês para que eu entrasse sábado de manhã e saísse segunda feira de manhã”, descreve a escritora que trabalhou três meses, a princípio, achando que, com o salário mínimo a rondar os quase 600 euros no país, o que recebia era um bom salário.

“Só que quando o tempo foi passando consegui uma melhor proposta no Porto e saí de Lisboa. Como eu não entendia de leis em Portugal, trabalhei para ela [antiga patroa] uma semana inteira para pagar a multa por não ter dado um pré-aviso de 15 dias de que iria deixar o trabalho. No Porto arrumei trabalho de limpeza. Mais tarde, em dezembro do ano passado, na segunda vaga da pandemia, encontrei um trabalho [de terceirização num hospital gerido pela Santa Casa]com um contrato de três meses”, conta Tânia que nunca fez um curso teórico atestado de geriatria, mas trabalha como cuidadora de idosos há cinco anos, desde a Itália.

“Em Portugal eu fui incluída dentro do hospital, mas tudo que eu tenho é experiência prática resultado de treinamento que é dado na hora pelos enfermeiros”, assegura, descrevendo os dias difíceis e os “muitos problemas” que teve no Porto ao fazer prestar esse serviço para uma empresa que assegurou que daria refeições mas que, no final, não cumpriu a promessa aos funcionários que vivam numa correria em plena época difícil da Covid-19.

“Quando nós chegamos, abri mão da minha casa que eu tinha arrendado em Menedo, no Porto, entreguei para o senhorio e dirige-me à Póvoa de Lenhoso, onde tive um quarto num primeiro andar partilhado com outros colegas. A empresa prometeu dar alimentos mas não tivemos o direito das três refeições diárias. O pessoal que fizesse turno da noite também não tinha. A Santa Casa vende tickets de alimentação para os seus funcionários. A empresa não quis pagar. Pagava-nos apenas o almoço. No entanto, tínhamos um turno de quatro dias de trabalho direto durante 12 horas por dia. E trabalhar no meio da correria naquela época da Covid-19 era uma coisa de nos fazer sentar no chão e chorar. Imagine alguém assim sem se alimentar”, diz relatando o que acontecia.

“Ficávamos fracos. Não tínhamos força para pegar as pessoas no colo. Muitos deles eram acamados, alguns tinham deficiência física (mas o cuidador) tem de limpar, dar banho, trocar roupa naquela correria. Os utentes eram todos eles covid positivo”, garante Tânia, lembrando o momento em que concluiu que os colegas haviam chegado ao ponto de “exaustão total”.

“O hospital tinha quase 60 utentes positivos para poucos funcionários. Então, o turno de 12 horas durante quatro dias era muito puxado e cansativo. E só tínhamos uma refeição por dia. Muitos que estavam aí, eu inclusive, não tinham dinheiro e além disso não tínhamos tempo para ir ao supermercado, pois trabalhávamos das 8 da manhã às 8 da noite num período em que tudo fechava mais cedo, principalmente nos fins de semana. Então, muitas vezes, os meus colegas que não tinham dinheiro para o que comer, comiam os restos dos utentes positivos de Covid-19”, conta.

E, na sequência dessa situação, muitos ficaram doentes: “Eu fui um dos que ficou doente”, confessa Tânia Brunello que a partir daí decidiu recorrer às redes sociais para lançar um forte apelo para conseguir ajuda junto da comunidade de Lenhoso de modo a que estes auxiliassem com bens alimentares.

“Antes disso falei com a enfermeira chefe e perguntei se eles podiam ajudar nesse sentido e só dizia que estavam a tentar convencer a Santa Casa a nos dar mais refeições, mas era tudo mentira. Aí falei com a responsável pela cozinha do hospital e perguntei se poderíamos comprar alguma coisa no mercado e cozinhar no hospital para todos nós comermos”. Debalde.

Nesta insistência pela obtenção de ajuda alimentar, alguém partilhou a mensagem SOS que Tânia Brunello lançou nas redes sociais. A informação chegou à sua responsável que se reuniu com a cuidadora depois desta fazer 12 horas de trabalho.

“Confrontaram-me. Confirmei e depois fui despedida”, resume a auxiliar de geriatria que recentemente escreveu uma carta ao Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, a denunciar essas “empresas mal intencionadas [que] recrutam estrangeiros sem documentos para prestarem assistência a idosos (com graves patologias) e cobram precisamente preços exorbitantes das famílias e [no entanto] pagam menos de 3€ a hora para o cuidador que se sacrifica horas, e às vezes dias, sem direito a descanso”.

“Sofremos desumanidade, falta de respeito e consideração pelos cuidadores formais por parte de algumas empresas prestadoras de serviços Domiciliários”, diz Tânia Brunello na carta endereçada ao chefe de Estado português e à ministra da justiça portuguesa.

Mas há uma versão diferente sobre o despedimento da Tânia em pelo menos duas das três empresas em que trabalhou: na primeira, foi despedida por supostamente “denegrir” o bom nome da Santa Casa; na segunda empresa, a auxiliar de geriatria viu o seu contrato não ser renovado porque alegadamente a família não a quis mais. Por ordens, Tânia Brunello teve que abandonar a casa onde trabalhava às 10:30 da noite de uma sexta-feira e viu-se forçada a pagar o taxi pessoalmente. A promotora da ideia de criação do Sindicato de cuidadores informais não acredita na justificação apresentada pela empresa intermediária que, entretanto, lhe ficou a dever dinheiro.

A brasileira Mércia Costa trabalha como auxiliar de geriatria para a empresa Prioridade Serviços Seniores, detida pela empresária Maria Júlia de Almeida, que deve ordenados a “várias pessoas”, incluindo “uma amiga que foi para o Brasil” sem receber o valor os 1800 euros de valores em atraso.

“Ela trabalhou para a senhora Júlia, mas ela não pagou. Eu trabalho para uma família que contratou o serviço da Júlia. A família pagou à Júlia mas ela não repassou o dinheiro para mim e aí a família rescindiu o contrato pelo facto de a Júlia não ser honesta. Ela tem atrasado os pagamentos. Como a filha da senhora que eu cuido não concordava com essa atitude da Júlia, decidiu rescindir o contrato. Mas eu continuei a trabalhar para ela. Só que este é o último mês em que eu receberia da Júlia, mas ela não pagou”, resume a cuidadora formal.

Em declarações aos jornal É@GORA, Mércia Costa estima que Júlia de Almeida estará a dever a “mais de 20 cuidadoras” e que “pelo histórico” da empresária, algumas das funcionárias levaram-na ao tribunal e isso a faz pensar que jamais irá receber o ordenado em atraso.

“Tudo indica que infelizmente eu não vou receber este dinheiro. Isso dói porque eu trabalhei o mês todo. Tentei falar com ela inúmeras vezes e ela sempre dá desculpas. Todos os meses ela atrasava o pagamento, isso é normal. Só que desta vez a família rescindiu o contrato, ela não tem como me pagar”, diz.

Contactada pelo jornal É@GORA, a empresária portuguesa Maria Júlia de Almeida, confirma que “as contas da empresa estão a zero”, pelo que a Prioridade Serviços Seniores vai decretar insolvência já em setembro, mas garante:”Não há aqui má fé”.

“Eu nunca disse a ninguém que não pagava. Aliás, houve um grupo de cuidadoras que entrou com um processo. Posso dizer os nomes das pessoas a quem eu devo”, afirmou a empresária enumerando os nomes das funcionárias que deve.

“No total são cinco”, asseverou para depois corrigir o número e incluir na lista Mércia Costa que “saiu da empresa no dia 31 de julho, porque o cliente dela cancelou o serviço”.

“Eu pedi para ela esperar, mas disse que não”, garante a proprietária da empresa intermediária voltando à lista das pessoas que deve: “Fátima Lopes, Regene, Dina Silva, Sheila, Arlise e mais ninguém. Cinco pessoas. Estas pessoas não estão a trabalhar comigo. Uma delas saiu sem dar satisfações”.

Segundo a empresária, o advogado da empresa Prioridade Serviços Seniores tentou fazer um acordo de pagamento com as funcionárias com ordenados em atraso, no entanto, “elas não aceitaram”.

“Assim que possível vamos fazer novamente um acordo de pagamento. Vão ser pagas se elas aceitarem os acordos que nós pretendemos fazer. Agora, elas querem receber tudo de uma vez, mas tudo de uma vez é impossível porque eu não tenho. Se fizermos uma insolvência não temos como pagar”, avisou. (MM)

1 COMENTÁRIO

  1. É lamentável! Sou cuidadora há 5 anos. Sofri abuso de do os de lares,como não tinha documentos,me colocava para fazer noites e noites. Hoje tenho sério distúrbio de sono. Tive uma depressão severa. Hoje nós domicílios, não mudaram muito. Sofri uma agressão. Passei fome, frio. E reclamava para a empresa e nada mudava. Somos obrigada a deixar o trabalho. Às vezes isso é combinado para nós fazer desistir. Sofri Xenofobia em todos os domicílios que passei. E aguentamos calada. Tenho síndrome de Bornout. Só durmo com Diazepam. Mas mesmo assim ainda trato o Utente como se fosse meus avós. E ninguém reconhece isso.

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