O silêncio “da elite negra” numa manifestação em Portugal, onde “o racismo sufoca”

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FOTOS: Tiago Fernando ©

Manuel Matola

A manifestação contra o racismo que juntou este sábado milhares de pessoas em Lisboa foi um protesto à morte de George Floyd em Minneapolis (EUA), mas na Praça do Comércio na capital portuguesa protestou-se também contra o silêncio “da elite negra que se projetou em Portugal” e nunca age mesmo sabendo que “o racismo sufoca” a todos numa sociedade.

A jornalista da TVI Conceição Queiroz questionou a sistemática ausência da “elite negra que se projetou em Portugal” nos debates reivindicativos sobre situações de discriminação racial ainda que consciente de que são parte do grupo dos que “tem toda a obrigação de olhar para os outros”.

“Existe uma elite negra: onde é que eles estão” nessa hora de luta antirracista, questionou a jornalista nascida em Moçambique e que cresceu em Portugal. E, antes de prosseguir com a palavra, prontamente, ouviu uma resposta de um dos manifestantes que gritou: “Eles não nos representam”.

Mas “o racismo não escolhe”, lembrou a deputada Joacine Katar Moreira, que na sua intervenção explicou: “O racismo é geral, mas ele é mais implacável quando as pessoas não estão seguras dos seus direitos. Então, nós temos a responsabilidade de nos reeducarmos nós também negros. Exigir direitos”.

“A democracia é como a gravidez: ou se tem ou não se tem”

E porque numa sociedade democrática, a condenação ao racismo é um dever de todos – negros e brancos, ricos e pobres -, a jornalista e ativista angolana, Luzia Moniz, recordou que “não há democracia para uns e para outros não”, pelo que exortou: “Precisamos desmontar esse racismo estrutural que a todos oprime”.

“O racismo é um sistema de opressão mundial, mas nós precisamos de olhar para os nossos problemas aqui em Portugal. Precisamos de desmontar esse racismo estrutural que a todos oprime”, disse Luzia Moniz, que durante o discurso de quase minuto e meio foi ovacionada quando afirmou que o racismo “não oprime só os negros, oprime também os brancos, porque não há democracia com discriminação”.

“Nós não podemos ter uma sociedade democrática enquanto tivermos um grupo de cidadãos e cidadãs que são desprezados, explorados e discriminados. Isso não é democracia. Não há democracia para uns e para outros não. Ou há democracia para todos ou não há para ninguém, porque a democracia é como a gravidez: ou se tem ou não se tem”, considerou a jornalista.

Luzia Moniz, que preside a Plataforma para o Desenvolvimento da Mulher Africana (PADEMA), apelou por isso para uma luta abrangente e contínua contra o racismo: “Não basta lembrar-nos do George Floyd se nos esquecermos do Giovani” (estudante cabo-verdiano assassinado em Bragança) e “da Cláudia” (que foi vítima da agressão policial na Amadora).

A manifestação deste sábado foi um “marco importantíssimo” na história de luta contra o racismo em Portugal, segundo disse ao jornal É@GORA José Falcão, membro do SOS Racismo, pois três movimentos da capital do país se juntaram ao movimento global para exigir “o fim da violência policial”, dada à falta de resposta à pergunta exibida num dos cartazes por um manifestante: “A quem ligar quando a polícia mata?”.

Na capital portuguesa, os três grupos associativos que já tinham agendado manifestar-se contra o racismo, clima e os direitos humanos, entre sexta-feira e domingo, concertaram posições durante semanas e, neste sábado, “de forma espontânea” conseguiram que milhares abarrotassem a Alameda e fizessem um percurso de mais de duas horas pelas ruas de Lisboa até à Praça de Comércio, onde se ouvia, cada um, gritar por “Direitos iguais. Black Live Matters”, face à morte de George Floyd e à atuação policial em Portugal.

“A manifestação estava a ser preparada há quase dois meses para quando pudesse haver manifestação antirracista, do clima e de mulheres, dos direitos humanos para fazer uma manifestação dia 06. O que aconteceu foi que se conseguiu juntar todas as manifestações espontâneas que apareceram com o caso Floyd”, disse o responsável pelo SOS Racismo.

“Foram três: uma que estava marcada para dia 05, que haveria amanhã (domingo, dia 7) na embaixada dos EUA e esta que estava marcada para hoje (sábado, dia 6) há mais de um mês. Houve muitas discussões e as pessoas entenderam que era um marco importantíssimo fazer isso todos juntos”, acrescentou José Falcão.

E, sem obedecer ao distanciamento social imposto em tempos de Covid-19, juntos foram todos os manifestantes exibindo dísticos onde se podiam ler palavras de ordem estampadas também em inglês, como “white silence is violence” para assinalar o impacto de um silêncio.

“Não éramos nós que devíamos estar aqui hoje, eram os branco/as porque quem comete racismo são eles e elas”, disse a deputada Joacine Katar Moreira, que também sublinhou a importância de “todo/as unido/as” estarem a lutar contra o racismo.

O racismo que, de resto, é “uma pandemia” que vem de longe e tem agido perante “a população negra que tem sido invisibilizada”, segundo disse José Pereira, responsável pelo Movimento Consciência Negra em Portugal.

“Se há palavra que nós conhecemos é o significado da palavra pandemia: nós fomos sujeitos à pandemia da escravatura, que nos arrancou do território de África e nos lançou no continente americano para enriquecer uma elite de escravocratas e donos de plantações de cana de açúcar. Nós sabemos o que é uma pandemia da escravatura. Nós sofremos a pandemia da escravatura”, disse José Pereira.

Segundo o ativista, depois os negros passaram por outras pandemias, especialmente a “do trabalho forçado durante o tempo colonial, que vem do século XV e chega até o 25 de abril de 1974, que se deu só quando a população negra se levantou em armas na então colónias portuguesas”, cujo regime “lançou os angolanos e cabo-verdianos nas roças de São Tomé e Príncipe, e moçambicanos nas minas de ouro da África do Sul” e, de seguida, “recebeu por cada trabalhador moçambicano/a na África do Sul”.

“Sim houve a pandemia do trabalho forçado e não nos podemos esquecer disso”, líder da Consciência Negra em Portugal.

E perante uma situação de injustiça manifestada na base da cor, uma jovem afrodescendente de 30 anos que interveio para contar a sua trajetória enquanto Fisioterapeuta alertou especialmente aos jovens negros para resistirem: “Não deixem que o sistema vos baixe a cabeça. Estudem a nossa História de África. Nós precisamos de mais representação. Não deixem de estudar. Vamos estudar. Não deixem que ninguém vos tire os vossos sonhos”.

“O meu apelo é: estudem”, concluiu. (MM)

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