ONG pro-imigrantes e as dificuldades de ajudar os seus necessitados

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Manuel Matola

A Associação Amigos B2M Ajuda garante ter conseguido ser “uma resposta pronta” às famílias carenciadas durante a fase crítica da pandemia, “quando instituições de cariz social procuravam organizar as suas respostas de forma estruturada”, mas a Batoto Yetu lança um novo “desafio” às organizações pro-imigrantes em Portugal no pós-covid.

É necessário “tentar readaptar-se às condições já existentes, como por exemplo, a adequação das atividades para as áreas de emergência social, não fugindo ao core business da entidade”.

O jornal É@GORA publica a primeira de um conjunto de reportagens que irão mostrar como as associações pro-imigrantes sobreviveram no pico da Covid-19, como estão ou se vão reposicionar no pós-Covid. O trabalho a ser desenvolvido é uma parceria com o Gabinete de Imagem Integrada e de Recursos Comunicacionais para o 3 º Sector (GIIRC`3), cuja atividade se insere no âmbito do Plano Municipal para a Integração de Migrantes na Cidade de Lisboa.

“Apesar da distância física, provavelmente o tempo de pandemia em confinamento foi um novo tempo em que nos sentimos mais próximos, como uma enorme família, não nos víamos todos os dias, mas sabíamos que estávamos uns com os outros”, diz Sandra Alves, Presidente da Associação Amigos B2M Ajuda, que já em janeiro, antes da eclosão da Covid-19, começou a contactar várias famílias em Lisboa para auxiliar no que fosse necessário.

“Felizmente somos promotores do Projeto Incubadora Popular d´Ajuda, a par da Junta de Freguesia da Ajuda e da 4Change e conseguimos na fase de pandemia ser uma resposta pronta, quando as instituições de cariz social procuravam organizar as suas respostas de forma estruturada”, afirma Sandra Alves, assinalando que na altura a sua associação identificou famílias com quem trabalha, “quer através das crianças e jovens, quer do grupo de seniores”.

“Ouvimos as famílias, tentámos perceber os constrangimentos de cada família e conseguimos dar diversos tipos de respostas. Estas respostas passaram por entregar durante várias semanas cabazes alimentares, por apoio jurídico laboral “direitos e deveres dos trabalhadores”, por simplificar as autorizações de residência, pela elaboração de pedidos de moratórias de créditos, … no fundo oferecemos uma simplificação jurídica das normativas que surgiam ao ritmo que a pandemia impunha”.

A 18 de março, Portugal decretou o estado de emergência, no entanto, mesmo no pico da crise pandémica, a Associação Amigos B2M Ajuda conseguiu “levar a cabo uma campanha e angariar equipamentos informáticos para colocar 15 das nossas crianças e jovens on-line permitindo-lhes continuar a aceder às aulas síncronas na web”.

Sandra Alves, Presidente da Associação Amigos B2M Ajuda
E mais: “Concebemos um guia informativo simplificado com os contactos e os documentos necessários para que as pessoas pudessem depois do desconfinamento procurar apoios sociais nas instituições que oferecem essas respostas.
Fomos durante o período de confinamento a ´Voz amiga`que contactava as nossas seniores para conversar e procurar saber como se encontravam de saúde física e mental”, conta Sandra Alves.

A readptação das atividades foi extensiva à mudança de hábitos alimentares das crianças, o grupo-alvo daquela agremiação que diz acreditar que “a transformação social começará com a mudança do paradigma, na infância e adolescência dos jovens e crianças do Bairro 2 de Maio”, onde o nível de pobreza existente não parece “ainda ser possível em pleno século XXI”.

“Relativamente às famílias desafiámos as mães a partilharem receitas, as monitoras Carina Faria e a Adriana Alves, através dos grupos de WhatsApp conseguiram manter as atividades com desafios que passaram pela dança, desporto, artes plásticas, canto, entre outras. Também em tempo de confinamento e depois do desconfinamento, o apoio ao estudo tem sido fulcral para o sucesso das aprendizagens das nossas crianças e jovens”, aponta Sandra Alves.

Uma recomposição que se assistiu também na Associação Unidos de Cabo Verde, localizado no Casal da Mira, na Amadora, Concelho que alberga grande parte da comunidade imigrante, que não só anulou propinas, como introduziu aulas via WhatsApp e criou ementa criativa para 75 crianças dos três aos cinco anos que frequentavam o Jardim Infantil antes da declaração do estado de emergência, a 18 de março, que, de resto, ditou também o encerramento do pré-escolar.

A decisão de a Associação Unidos de Cabo Verde anular as mensalidades dos alunos deveu-se ao facto de quase a totalidade dos pais e encarregados de educação das crianças que estudam naquele estabelecimento de ensino terem ficado no desemprego ou terem tido quebras abruptas de rendimentos devido à atual situação pandémica.

Com a medida adotada, aquela associação pro-imigrante tornou-se na primeira das dezenas Instituições Particulares de Solidariedade Social existentes no Concelho de Amadora a aliviar as despesas das famílias daqueles alunos, cujos pais trabalham, sobretudo, na restauração, um dos setores onde os empregos caíram a pique após encerramento das atividades que levou a entidades empregadoras a recorrerem ao lay-off. Hoje, todos os funcionários estão no mesmo regime simplificado.

Cátia Domingos – Representante Batoto Yetu
O jogo de cintura também se deu com a Batoto Yetu (BYP), cujo nome origina do Swahili e significa “as nossas crianças”, uma associação cultural e juvenil sem fins lucrativos fundada em 1996 com o apoio da Câmara Municipal de Oeiras e Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, cujo alvo primordial são jovens e crianças interessados na cultura africana, provenientes de meios económicos mais ou menos desfavoráveis.

A representante da Batoto Yetu, Cátia Domingos, diz quais foram as mudanças que ocorreram quando os primeiros casos do coronavírus passaram a ser considerados alarmantes em Portugal, impondo restrições a nível de circulação dos cidadãos no território nacional, levando, a que a Associação sofresse “um corte brusco” a nível da proximidade com a comunidade com quem trabalha.

“Neste momento, seguimos as regras gerais e temos os ensaios artísticos, workshops, eventos, tertúlias e visitas guiadas canceladas. Estamos a desempenhar as funções de acompanhamento técnico ao atendimento de imigrantes e seus descendentes através do teletrabalho, recorrendo fundamentalmente ao e-mail e ao telefone dando continuidade a uma parte do trabalho”, conta Cátia Domingos.

De resto, o “corte brusco” criou ainda maior constrangimento porque é no seio destas comunidades que se concentra a maior parte dos projetos da Batoto Yetu.

“Devido ao confinamento, deparamo-nos com a impossibilidade de manter as atividades e projetos de componente artística (nacional e internacional) e social que temos dedicado ao nosso principal público-alvo – os adultos, jovens e crianças. Por exemplo, muitos dos eventos que tínhamos previsto foram cancelados, o que afeta de forma direta a sustentabilidade da associação, por isso estamos abertos a todo o tipo de respostas positivas para que em parceria se possa chegar junto da nossa comunidade”, afirmou.

Contudo, a ativista social reconhece que o período de confinamento trouxe algo de novo à Associação Batoto Yetu.

“Continuamos a tentar recriar e ultrapassar as dificuldades impostas pela pandemia com os poucos recursos humanos existentes, seguindo a nossa missão e valores da melhor forma possível, trabalhando sempre em proximidade com os nossos parceiros institucionais e verificando fragilidades, de modo a expor essas dificuldades”, diz.

Apesar da experiência que a instituição tem tido das crises com impacto sobre a imigração em Portugal – eventualmente nada comparado ao efeito da atual pandemia -, Cátia Domingos lembra que à semelhança do que se passou com a crise de 2008, “o desafio encontra-se novamente em tentar readaptar-se às condições já existentes”.

E exemplifica com a necessidade de “adequação das atividades para as áreas de emergência social, não fugindo ao core business da entidade, assim como desenvolvimento de uma proximidade virtual e aperfeiçoamento de mais propostas de apoio que possam concretizar-se em modo virtual”.

A responsável diz em que consiste os novos desafios para os cidadãos migrantes nesta fase que o mundo atravessa.

“Com a questão do ´Despacho do Imigrante`, alguns desafios acabaram por ser colmatados, uma vez que muitos dos imigrantes que se encontravam irregulares têm agora a situação regularizada, pelo menos até ao fim deste confinamento. Mas a questão do emprego continua a ser um desafio, tendo em conta que grande parte dos imigrantes ou seus descendentes trabalham em áreas associadas ao turismo ou restauração, áreas que estão a ser extremamente afetadas por esta situação”, frisa.

Mas se, por um lado, a crise pandémica cria desigualdades para quem perdeu emprego, por outro, é nas crianças que, entretanto, a Associação Amigos B2M Ajuda deposita esperança no retorno ao novo normal, reconhece Sandra Alves na entrevista ao Gabinete de Imagem Integrada e de Recursos Comunicacionais para o 3 º Sector.

“As crianças nascidas em meios desfavorecidos não têm oportunidades iguais”, diz Sandra Alves, apontando um caso concreto testemunhado pelos associados da Amigos B2M Ajuda numa visita a Lisboa.

“Quando numa viagem de dez minutos ao centro da cidade descobrimos no olhar das crianças que estavam a percecionar o centro de Lisboa como se estivessem numa cidade nova isso fez-nos pensar. Quando descemos a Calçada da Ajuda com as crianças e percebemos que apenas conheciam o jardim de Belém, mas nunca tinham entrado nos monumentos ou museus, que são parte da nossa história, ali tão perto da nossa casa, percebemos rapidamente que tínhamos mesmo de agir”, conta, que sentencia:

“Se ainda existem crianças sem acesso à cultura, aos monumentos, ao teatro, aos concertos, às viagens, aos livros, ao cinema, então não podemos falar de oportunidades iguais. Se ainda existem crianças sem habitação condigna, sem alimentação equilibrada, sem higiene cuidada, não podemos falar de direitos iguais. Em termos académicos crianças de meios desfavorecidos partem sempre em desvantagem”, conclui. (MM)

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