“Os políticos têm que representar o conjunto da população”, defende Boss AC

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Boss AC atuando no Festival da Costa da Caparica

A representação étnica nas estruturas do poder em Portugal tem que ser transversal a todas as áreas da política e da vida sócio-administrativa. Quem defende esse princípio é Boss AC, nome artístico de Ângelo César do Rosário Firmino, entrevistado a propósito das próximas eleições legislativas em Portugal e da participação de candidatos afrodescendentes no escrutínio de 06 de outubro próximo.

Como é que observa o facto de aparecerem mulheres negras, da comunidade de afrodescendentes, nas listas partidárias para as eleições legislativas em Portugal previstas para outubro deste ano? O que isso pode representar? A resposta de Boss AC é categórica: “Cada vez mais é preciso haver essa inclusão”, afirma o músico em entrevista ao Jornal É@GORA, depois do seu último concerto na Costa da Caparica, na periferia de Lisboa.

“Gosto de acreditar que as pessoas têm que subir na vida tendo em conta os seus méritos e não a sua raça ou a sua orientação sexual ou a sua religião”. Para Boss AC, “com certeza que há mérito” nestas pessoas. “Isso é que me deixa mais feliz”, reforça o rapper e produtor português de origem cabo-verdiana, nascido na Ilha de São Vicente (Mindelo).

O músico, autor da bem conhecida canção “Sexta-feira” (Emprego Bom, Já!), diz que os políticos têm que representar aquilo que é o conjunto da população. “A população também é negra”, lembra. “Também há minorias e elas têm que estar representadas. A população também são as mulheres. Elas também têm que estar representadas”, insiste.

Falando desta questão da representatividade, o músico recua no tempo e lembra que a sociedade portuguesa “já reconheceu menos” as minorias. “Vamos ver um copo meio cheio em vez de vê-lo vazio”. Mas, reconhece, “ainda há muita resistência, ainda há espaço para muita discriminação, há muita desconfiança”, lamenta. “Mas eu quero acreditar que as coisas já foram mais difíceis do que são hoje em dia”.

A música constitui um elemento de integração, como admite este antigo bancário que optou por esta forma de arte. «Eu até extrapolo e digo que a música até pode ser um veículo para essa tal integração”. Nesta área, adianta, o fenómeno da integração na sociedade portuguesa conheceu um salto qualitativo mais rápido.

Entende que a música acaba por ser um fator galvanizador para a integração, considerando também o contributo da juventude, “da malta mais nova, que começa a ter uma mente muito mais aberta em comparação com as gerações anteriores que viveram outros tempos”. Refere-se, por exemplo, aos tempos da guerra colonial em África e a pessoas que, se calhar, estão formatadas a pensar de uma certa forma. “Já na sua fase final de vida”, constata, “é muito mais difícil mudar esta forma de pensar” sobre estas matérias.

Numa democracia convencional “é normal que se abra a televisão e se veja apresentadores negros”

“O futuro está na mudança de mentalidade”, concorda. “Vamos acreditar que as coisas vão correr pelo melhor”, diz esperançado.
Para ele, a tal representatividade tem que ser transversal a todas as áreas da vida em sociedade. “Não é só na política, não é só na música; [deve acontecer] em todo o lado”, aconselha. “É normal que se abra a televisão e se veja apresentadores negros. Acho que é perfeitamente normal que se vejam anúncios e haja negros” numa democracia convencional, sugere.

No entanto, questionamos o músico: Acha que estas temáticas vão surgir naturalmente retratadas durante a campanha eleitoral com uma forte participação e envolvimento dos negros no debate público ou ainda será notório o divórcio com a política?

Boss AC considera que este não é um problema exclusivamente inerente à comunidade africana. “Acho que há um certo divórcio entre a classe política e os eleitores”, opina. “Porque as pessoas já não acreditam nos políticos. E, então, acabam por se desinteressar”, acrescenta. “Às vezes, as pessoas nem sabem o que é que os políticos estão a defender ou o que é que eles prometem”, argumenta.

Há neste sentido um problema de cidadania. Os eleitores devem ter a consciência de que constituem um fator de mudança. “Nós somos a mudança, a nossa opinião e o nosso voto contam”. E é preciso, na hora de votar, “estar lá e dizer: presente”, recomenda.

Boss AC atuou no último fim de semana na 6ª Edição do Festival de Verão “Sol da Caparica”, considerado por ele como um daqueles palcos memoráveis. “Há dias em que tudo corre bem e este foi um desses dias”, afirmou o músico, para quem “estava tudo perfeito”, desde o som, a banda, o local e o público. “Tudo maravilhoso”. Disse ainda que este é um daqueles concertos que vai guardar com muito carinho no seu coração. “E temperado com uma boa cachupinha das Ilhas”, rematou. (X)

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