Papa envia mensagem aos imigrantes e refugiados em tempo de “medo, incerteza e dificuldades”

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Manuel Matola

O Papa Francisco antecipou hoje a mensagem alusiva ao Dia Mundial do Imigrante e do Refugiado, dois grupos populacionais cujas vidas comparou-as com a de Jesus Cristo que, forçado a fugir do Rei Herodes, no Egito, experimentou, “juntamente com seus pais, a dramática condição de deslocado e refugiado marcada por medo, incerteza e dificuldades”.

Numa nota divulgada pela Santa Sé por ocasião da efeméride que se assinala a 27 de setembro, o Sumo Pontífice lembra o esforço que os imigrantes e refugiados empreendem enquanto deslocados na vida em que “em cada um deles, está presente Jesus, forçado – como no tempo de Herodes – a fugir para Se salvar”.

“Infelizmente, nos nossos dias, há milhões de famílias que se podem reconhecer nesta triste realidade. Quase todos os dias, a televisão e os jornais dão notícias de refugiados que fogem da fome, da guerra e doutros perigos graves, em busca de segurança e duma vida digna para si e para as suas famílias”, diz o Papa Francisco, recorrendo à sua Oração de Angelus datada de 2013.

Por isso, defende o chefe da Igreja Católica, na mensagem a que o jornal É@GORA teve acesso, “é preciso conhecer para compreender” pois “o conhecimento é um passo necessário para a compreensão do outro”.

E exemplificando, a seguir, com questões do quotidiano, diz:

“Frequentemente, quando falamos de migrantes e deslocados, limitamo-nos à questão do seu número. Mas não se trata de números; trata-se de pessoas! Se as encontrarmos, chegaremos a conhecê-las. E conhecendo as suas histórias, conseguiremos compreender. Poderemos compreender, por exemplo, que a precariedade, que estamos dolorosamente a experimentar por causa da pandemia, é um elemento constante na vida dos deslocados”, considera.

O líder religioso aponta quatro formas de contribuir para a melhoria da condição das famílias que migram.

“É necessário aproximar-se para servir. Parece óbvio, mas muitas vezes não o é”, disse o Papa Francisco que repetidas vezes aponta para textos bíblicos para ilustrar a situação dos imigrantes tal como o de “um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele [do homem espancado e deixado meio-morto] e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele (Lc 10, 3334)”.

Para o Sumo Pontífice, “os receios e os preconceitos – tantos preconceitos – mantêm-nos afastados dos outros e, muitas vezes, impedem de «nos aproximarmos» deles para os servir com amor. Abeirar-se do próximo frequentemente significa estar dispostos a correr riscos, como muitos médicos e enfermeiros nos ensinaram nos últimos meses. Aproximar-se para servir vai além do puro sentido do dever; o maior exemplo disto, deixou-no-lo Jesus, quando lavou os pés dos seus discípulos: tirou o manto, ajoelhou-Se e pôs mãos ao humilde serviço (cf. Jo 13, 1-15)”.

Segundo o líder da Igreja Católica, “para reconciliar-se é preciso escutar. No-lo ensina o próprio Deus que quis escutar o gemido da humanidade com ouvidos humanos, enviando o seu Filho ao mundo: «Tanto amou Deus o mundo, que lhe entregou o seu Filho Unigénito, (…) para que o mundo seja salvo por Ele» ( Jo 3, 16.17). O amor, que reconcilia e salva, começa pela escuta. No mundo de hoje, multiplicam-se as mensagens, mas vai-se perdendo a atitude de escutar. É somente através da escuta humilde e atenta que podemos chegar verdadeiramente a reconciliar-nos. Durante semanas neste ano de 2020, reinou o silêncio nas nossas ruas; um silêncio dramático e inquietante, mas que nos deu ocasião para ouvir o clamor dos mais vulneráveis, dos deslocados e do nosso planeta gravemente enfermo. E, escutando, temos a oportunidade de nos reconciliar com o próximo, com tantas pessoas descartadas, connosco e com Deus, que nunca Se cansa de nos oferecer a sua misericórdia”.

E diz mais: “Para crescer é necessário partilhar. A primeira comunidade cristã teve, na partilha, um dos seus elementos basilares: «A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma. Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum» ( At 4, 32). Deus não queria que os recursos do nosso planeta beneficiassem apenas alguns. Não, o Senhor não queria isso! Devemos aprender a partilhar para crescermos juntos, sem deixar ninguém de fora. A pandemia veio-nos recordar que estamos todos no mesmo barco. O facto de nos depararmos com preocupações e temores comuns demonstrou-nos mais uma vez que ninguém se salva sozinho. Para crescer verdadeiramente, devemos crescer juntos, partilhando o que temos, como aquele rapazito que ofereceu a Jesus cinco pães de cevada e dois peixes (cf. Jo 6, 1-15); e foram suficientes para cinco mil pessoas…”

Recorrendo à Meditação que fez na Praça de São Pedro no início da pandemia de Covid-19, o Papa Francisco recorda que “é preciso coenvolver para promover”, assinalando que, “efetivamente, assim procedeu Jesus com a mulher samaritana (cf. Jo 4, 1-30). O Senhor aproxima-Se, escuta-a, fala-lhe ao coração, para então a guiar até à verdade e torná-la anunciadora da boa nova: «Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz! Não será Ele o Messias?» (4, 29). Por vezes, o ímpeto de servir os outros impede-nos de ver a sua riqueza íntima.

Por isso, frisa: “Se queremos verdadeiramente promover as pessoas a quem oferecemos ajuda, devemos coenvolvê-las e torná-las protagonistas da sua promoção. A pandemia recordou-nos como é essencial a corresponsabilidade, pois só foi possível enfrentar a crise com a contribuição de todos, mesmo de categorias frequentemente subestimadas. Devemos «encontrar a coragem de abrir espaços onde todos possam sentir-se chamados e permitir novas formas de hospitalidade, de fraternidade e de solidariedade»”.

Na mensagem dirigida aos milhares de imigrantes e refugiados espalhados pelo mundo, o Sumo Pontífice termina com uma oração a inspirada no exemplo de São José, particularmente quando foi forçado a fugir para o Egito a fim de salvar o Menino Jesus, mas antes de discorrer a oração apela para a necessidade de o mundo “colaborar para construir”.

“Isto mesmo recomenda o apóstolo Paulo à comunidade de Corinto”, diz Papa Francisco lembrando as palavras daquele que foi um dos mais influentes escritores do cristianismo primitivo, cujas obras compõem parte significativa do Novo Testamento:

«Peço-vos, irmãos, em nome de Nosso Senhor Jesus Cristo, que estejais todos de acordo e que não haja divisões entre vós; permanecei unidos num mesmo espírito e num mesmo pensamento» ( 1 Cor 1, 10). A construção do Reino de Deus é um compromisso comum a todos os cristãos e, para isso, é necessário que aprendamos a colaborar, sem nos deixarmos tentar por invejas, discórdias e divisões. No contexto atual, não posso deixar de reiterar que «este não é tempo para egoísmos, pois o desafio que enfrentamos nos une a todos e não faz distinção de pessoas», cita o Papa Francisco a mensagem que havia usado na oração Urbi et Orbi em abril último.

E concluindo a mensagem a que intitulou “Forçados, como Jesus Cristo, a fugir. Acolher, proteger, promover e integrar os deslocados internos”, o Papa defende: “Para salvaguardar a Casa Comum e torná-la cada vez mais parecida com o plano original de Deus, devemos empenhar-nos em garantir a cooperação internacional, a solidariedade global e o compromisso local, sem deixar ninguém de fora”. (MM)

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