Papa: “Não podemos fechar os olhos” à realidade dos migrantes, que é “um escândalo social da Humanidade”

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FOTO: Vatican ©

Manuel Matola

O Papa Francisco pediu hoje “uma oração por todos os migrantes” que têm sido também vítimas de “circunstâncias adversas, sejam elas políticas, históricas ou pessoais”, decorrentes, sobretudo, da “arrogância e da violência dos poderosos”, e lembrou o “migrante perseguido e corajoso” que foi São José e o que “aconteceu com Jesus” aquando da fuga da Sagrada Família para o Egito.

Numa mensagem proferida na audiência geral, Francisco falou da realidade da migração atual a nível mundial que considerou “um escândalo social da Humanidade” ao qual “não podemos fechar os olhos”.

E recordou um relato bíblico sobre São José que nos deixa uma lição: “a vida sempre nos reserva contrariedades e, à vista delas, podemos sentir-nos ameaçados, amedrontados, mas não é tirando fora o pior de nós mesmos – como fez Herodes – que podemos superar tais momentos, mas comportando-nos como José que reage ao medo com a coragem de se abandonar confiadamente à Providência de Deus”.

O Santo Padre acredita que “é necessária uma oração por todos os migrantes, todos os perseguidos e todos aqueles que são vítimas de circunstâncias adversas, sejam elas políticas, históricas ou pessoais”.

A mensagem do Papa Francisco é proferida numa altura em que o mundo contabiliza um total de 82,4 milhões de pessoas deslocadas à força, entre refugiados, requerentes de asilo, pessoas internamente deslocadas e outras pessoas deslocadas não cobertas pelo mandato do ACNUR. Este número exclui, entretanto, outras categorias de pessoas, como repatriados e os apátridas não deslocados.

FOTO: UNHCR/Elizabeth Marie Stuart ©
A esse propósito, Francisco propõe: “Pensemos em tantas vítimas da guerra que querem fugir de sua pátria, mas não podem”.

A nível de Portugal, os bispos católicos portugueses lançaram também um alerta para a necessidade de acolhimento de imigrantes, especialmente numa altura em que a pandemia e a pobreza criam incertezas e já são conhecidas as necessidades de um dos grupos mais afetados pela situação: os migrantes.

O administrador apostólico de Braga, Jorge Ortiga – que a partir de fevereiro será substituído à frente da arquidiocese por José Cordeiro, atual bispo de Bragança-Miranda – apelou à construção de um mundo “mais irmão e solidário”, face às consequências da pandemia, onde “tudo resulte da vontade de viver a caridade intensamente, não de um modo teórico, mas com gestos”.

Nuno Brás, bispo do Funchal, também deseja ver solidariedade com os mais necessitados, num tempo afetado pelo impacto da pandemia de covid-19 e apela a que os católicos madeirenses vão ao encontro de Jesus “onde Ele se deixa hoje encontrar: a Igreja, a missa, a Sagrada Escritura, os irmãos que (…) partilham a vida, o (…) próximo – os pobres, os doentes, aqueles que precisam” de ajuda.

Também o responsável pela diocese de Vila Real, bispo António Augusto Azevedo, aproveitou a sua mensagem de Natal para mostrar a sua “solidariedade” aos que estão em situação de carência, pobreza ou desemprego.

Ao mesmo tempo, deixou uma mensagem “de esperança” aos migrantes, os que partiram da diocese para outras zonas do país ou do estrangeiro e os que, de outros países, procuram em Vila Real melhores condições de vida.
Já o bispo o Algarve, com os migrantes e refugiados na mente, apelou à construção de “pontes no acolhimento de quem é diferente”.

“Celebrar o Natal deve constituir para todos uma oportunidade para assumir a decisão de abater toda a espécie de muros, unir margens, comunicar, construir pontes, estabelecer uma relação com quem é diferente de nós, pela língua, cultura, religião… acolher e partilhar realidades novas, construir a fraternidade em todas as direções”, escreveu Manuel Quintas, na sua mensagem.

No texto, o prelado que lidera uma diocese onde, ao longo dos últimos meses, se verificaram alguns casos de chegada de imigrantes ilegais em embarcações precárias oriundos do norte de África, lembrou que famílias inteiras procuram “um lugar onde viver em paz”, arriscando a vida, e pede acolhimento para os que “fogem da guerra e da fome” ou têm de deixar a sua própria terra “por causa de discriminações, perseguições, pobreza e degradação ambiental”.

“Sem encontro e abertura a todos, em especial aos mais humildes, não poderemos encontrar Jesus”, escreveu por sua vez António Moiteiro, bispo de Aveiro, na sua mensagem para a quadra natalícia, apontando alguns desafios com que a Igreja se encontra confrontada: “o acolhimento aos que pensam de modo diferente e aos que andam afastados; a atenção redobrada a todas as situações que ferem a dignidade do ser humano, a começar pelos mais débeis e frágeis”.

O prelado lembrou no seu texto “quem procure um salário mais justo para sustento da própria família; quem procure uma habitação condigna; quem procure reconstruir vidas; quem anseie por um mundo mais harmonioso e ecológico”.

Em Bragança-Miranda, o atual bispo e futuro arcebispo de Braga, José Cordeiro, sublinhou que “uma vida sem gratidão é uma vida triste, que ignora a beleza do dom”, defendendo que “a alegria do Evangelho”, é o caminho “para ultrapassar as tensões mais duras e abrir as portas da cultura do encontro e da fraternidade universal”.

Também o bispo do Porto, Manuel Linda, foi claro na sua mensagem, ao exortar os cristãos da diocese a que, na sua vida, mostrem “o recolhimento, a harmonia, a ternura e a hospitalidade”. (MM e Lusa)

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