Pastor evangélico Ronaldo Pereira, o candidato imigrante que pretende combater o Chega em Camarate

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Ronaldo Pereira, candidato à presidência da Junta de Freguesia de Camarate

Manuel Matola

Aos 51 anos, o pastor evangélico Ronaldo Pereira acredita que se tornará no primeiro imigrante luso-brasileiro a presidir a Junta de Freguesia de Camarate, Unhos e Apelação, onde “nunca houve registo de uma candidatura de um cidadão estrangeiro”, pelo que promete implementar na presidência um gabinete de apoio ao imigrante no concelho de Loures, onde o Chega, partido anti-imigração, é seu maior opositor.

“O projeto é implementar um gabinete de apoio ao imigrante. Mas esse gabinete não é assistencialista. Esse gabinete é para combater três questões: a discriminação, a xenofobia e o racismo”, diz Ronaldo Pereira ao jornal É@GORA sobre “a ideia de criar dois gabinetes que seriam institucionalizados”, e que, esclarece de seguida, “não serão entregues à gestão pública”.

Há uma razão. É “para não se tornar politizado e não ter vícios. Ou seja, a Junta de Freguesia vai abraçar essa causa, que é grave. O gabinete da Mulher visa dar apoio à questão da violência doméstica contra a mulher. E também incluir nesse gabinete um apoio psicológico e jurídico”, justifica.

A poucas semanas de começar a corrida para as eleições autárquicas nas quais prevê fazer história com a lista do Nós Cidadãos, Ronaldo Pereira esclarece porque razão considera que o futuro gabinete vai ter primar por um trabalho diferente do que está a ser feito por outras associações pro-imigrantes em Portugal.

“Ambos os gabinetes serão institucionalizados. Esses gabinetes não serão entregues para associação nenhuma porque corre-se o risco de ser viciado e de ser politizado. É o problema que estamos a enfrentar agora. O PS está a pôr nas listas líderes associativos [das agremiações pró-imigrantes]. Está jogando sujo. Os líderes de associações podem pertencer, a lei não proíbe. Mas nem tudo é permitido pela lei. Não quer dizer que seja ético porque entramos no campo do conflito de interesses”, considera o candidato do Nós Cidadãos acrescentando que “as associações defendem interesses de um grupo de cidadãos”, quando estes “não representam uma sociedade como um todo, mas representam um grupo de indivíduos em particular”.

Por isso, garante: “Mas nós defendemos uma democracia iniciativa e quem tem de fazer isso são as autarquias e o poder público. A diferença central dos gabinetes é que não serão institucionalizados. A ideia é estes gabinetes fazerem parte da pasta da Junta de Freguesia. O que seria normal era a Junta de Freguesia trabalhar em parceria com associações, é diferente. Não é entregar isso na mão de uma associação. No gabinete de racismo vamos trabalhar com políticas públicas de índice pedagógico e de apoio jurídico. Há crimes que envolvem injúria racial que têm de ser levados para o tribunal. Esse gabinete vai trabalhar com essas questões. E também temos a discriminação económica e social”.

Para além do que acaba de apontar, Ronaldo Pereira elenca outros projetos concretos.

“Em relação à limpeza urbana, defendemos alguns tópicos. Há um projeto, ´Patrulha nos Bairros`, em que a ideia é criar um patrulhamento comunitário virado para a limpeza urbana que é um caos. Seria um patrulhamento realizado durante 24 horas na freguesia com, pelo menos, 2 viaturas no terreno. A visão central é erradicar a problemática da questão do lixo. Vamos aplicar um monitoramento. Vamos fazer aquilo que a Câmara Municipal não faz. Vamos abraçar esse projeto porque está dentro das competências da Junta de Freguesia. É uma monitorização das áreas mais vulneráveis ao despejo do lixo irregular. Dentro desse lixo irregular há algumas especificidades. Posso sintetizar em monitorizar, fiscalizar e combater. Um dos alvos desse projeto é combater o despejo irregular de lixo e demolição de obras”, adianta.

A decisão de candidatura surgiu em 2018, muito antes da eclosão da pandemia, quando o teólogo tentou aproximar-se de partidos dos dois campos ideológicos – à Direita e à Esquerda -, tendo tido dificuldades de aceitação, dado que “desse ponto de vista” o pastor é “uma pessoa que puxa mais para a direita mais liberal”.

União das Freguesias de-Camarate, Apelação e unhos. FOTO: José Godinho
“No início fui muito bombardeado. Para registar a candidatura fui três vezes ao Tribunal. O problema não é ganhar as eleições, é conseguir pessoas para te apoiarem. O CDS não conseguiu formar lista em Camarate. A nossa candidatura é histórica porque está a quebrar um paradigma. E temos estrangeiros na lista, a começar por mim. Na história de Camarate nunca houve um candidato negro, mulato. Quando iniciei o projeto, utilizei uma certa inteligência. Se eu formasse uma lista agora, eu já estava morto”, afirma Ronaldo Pereira que se queixa de tratamento discricionário mesmo da imprensa local.

“Tentei falar com um jornal aqui de Camarate, mas eles estavam a dizer que não estava na altura, mas eu via (publicados) artigos do Bloco de Esquerda, PS, PSD. Se dependesse dessas pessoas não tínhamos formado a lista. Mas graças a Deus com muita luta e muita paciência, a nossa candidatura é oficial e [nas eleições autárquicas] no dia 26 se setembro vai aparecer essa alternativa Nós Cidadãos”, conta.

No concelho de Loures, o Nós Cidadãos só tem duas candidaturas, mas o candidato Ronaldo Pereira garante que a sua e que “vai ficar registada nos anéis da história da política aqui” e “mais ainda” quando vencer as eleições, visto estar a receber apoio até de gente anónima.

“As camisolas foram doadas por um senhor. É uma candidatura do povo”, exemplifica comparando com “os outros partidos estão no silêncio. O Presidente da Junta de Freguesia, Renato Alves, só faz diretos na página dele [redes sociais] para não se expor ao escrutínio público porque o PS e o PCP estão em queda”.

Embora o ativista social “não se qualifique como “extremamente conservador”, até porque acha “muito perigoso ser extremista”, garante que aquilo que professa em termos de crença e valores não o permite deixar-se influenciar num cargo político.

“Por exemplo, eu digo que a sociedade civil deve fazer parte dos conselhos populares. Dentro da lógica de compreensão do seu percurso, da sua idade e formação”, defende.

Quando questionado pelo jornal É@GORA sobre qual a centralidade dos assuntos ligados à Covid-19 na sua candidatura e na forma como olha para o futuro, visto que agora está ao serviço da área da saúde e se está a viver o momento de incerteza, Ronaldo Pereira, mestre em Teologia, responde: “Eu sou favorável ao uso da máscara e defendo a obrigatoriedade da vacina. Acho que a vacina devia ser obrigatória porque estamos num contexto de pandemia”.

Mas em relação à vacinação das crianças, tem um entendimento mais reservado, embora seja favorável.

“Não é só a questão das próprias crianças, que eu sou favorável. Mas a primeira e última palavra têm de ser da ciência. É aí que está a questão. A ciência não pode ser politizada. Se as crianças estão a ser contaminadas e se a ciência consegue detetar que existe esse tipo de situações e que a vacina pode promover algo tipo de imunização, sou favorável”, diz.

À pergunta se esta é a oportunidade de um imigrante chegar ao poder dentro dessa união de freguesias que se chama Camarate, Unhos e Apelação, afirma: “Sim, mas para eles é o pior que pode acontecer” pois comentam que “esse homem é perigoso, é populista”, só que, considera, “graças a Deus é a candidatura mais conhecida”.

Concluindo, Rolando Pereira denuncia: “Há um clima de terror tão grande nessa freguesia que as pessoas chegam ao pé de mim escondidas e dizem: ´Eu não posso falar muito, mas voto na sua lista`. As eleições desta freguesia serão das mais concorridas e aguerridas do país. São sete partidos, eu e o Chega somos estreantes, e os restantes são os tradicionais. Estou a concorrer contra quatro ex-candidatos que já são experientes”. (MM)

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