Pensar o livro

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João Muteteca Nauege, Docente da Universidade Lueji A´Nkonde
O mês de Abril é o único que reserva o dia 23 como sendo o dedicado ao livro, a data ainda passa despercebida entre os países cujo nível de literacia é baixo, entre esses países a que me refiro, com muito pesar, encontra-se o nosso, Angola, que o Censo de 2014 nos permite dizer que o índice de analfabetismo continua ainda elevado, depois da pesada herança de cerca de 85% da população ter sido deixada analfabeta pelo colonizador após a independência em 1975.

Posso dizer que a esses que não sabem ler nem escrever, a quem se lhes nega o direito ao livro e à liberdade, por mais que não se percebam, o livro lhes faz falta. O livro faz muita falta à liberdade.
Dei um golpe de vista a alguns sinónimos de livro, entre os tantos, chamaram-me atenção os seguintes: solto, liberto, desprendo, libero, folhoso, quer dizer, quem maneja e compreende o teor de um livro está propenso a ter liberdade, ou seja, é livre.

Com o livro, seja de que natureza for, logra-se polir o pensamento, desperta-se a sociedade, activa-se a liberdade, a democracia e a participação plena dos cidadãos na vida da comunidade. O livro torna os homens cultos, promove o pensamento e a acção, é o livro fonte de conhecimento, numa só palavra.
Voltando à vaca fria, como sói dizer-se, quis o destino que grandes vultos da literatura mundial escolhessem partir para outra dimensão num mesmo dia, o célebre dia 23 de Abril. Estes vultos da literatura mundial são Inca Garcilaso de la Vega, Miguel Cervantes e William Shakespeare, no longínquo ano de 1916. Por essa razão, a UNESCO no seu XXVIII Congresso em 1995 passou a dedicar o dia 23 de Abril ao livro e aos Direitos autorais.
Por Angola, quase nada se disse, nada se comemorou, as escolas, as academias e as universidades, também, pouco ou quase nada fizeram.

É justo perguntar o seguinte:

(i)Será que não se conhece esta data? A quem cabe divulgar uma data solene como o 23 de Abril, que consagra um bem precioso como o livro?
(ii) O que as escolas, as academias e as universidades fazem em prol do livro?
(iii)Existe uma política de promoção do livro e consequentemente da leitura?
(iv)Sem o livro se combate a impunidade, a corrupção, a bajulação e outros cancros sociais de que padece a sociedade angolana?
(v)Existe uma política nacional do livro em Angola? Se existe é exequível?

Estas e outras perguntas se respondidas, podem ajudar-nos a ver que o livro está longe de ocupar o lugar de destaque que merece em Angola. Não nos esqueçamos que a moralização da sociedade passa pela promoção do livro, com o livro se faz a promoção da literacia, com a promoção da literacia se promove o bem-estar social.

Ora bem, uma política nacional do livro encarregar-se-ia a promover o livro, a leitura e a escrita. Estaria ao serviço de regulação de disposições para permitir maior interacção entre a sociedade civil organizada, promover o acesso aos livros no mercado e promover o respeito pelas diferenças sociais e culturais. A Política do Livro permitiria, grosso modo, fazer com que todos os dias se dedicassem ao livro e não só o 23 de Abril.

A importância que for dada ao livro terá, efectivamente, repercussão na leitura e na escrita dos alunos, impulsionando a formação de leitores competentes, ou melhor, o estímulo ao gosto pela leitura pode e deve começar nos lares, mas à escola cabe um papel hegemónico para o estímulo à leitura e a devida valorização do livro, pois papel que só a escola poderia desempenhar bem se os seus professores tivessem simpatia pela leitura, não pela leitura esforçada, refiro-me à leitura espontânea que se adquire após um longo estágio de avanços, recuos, e verdadeira paixão pelo livro, podendo ser graças aos estímulos que os professores leitores nos tenham legado.

A falta de uma Política do Livro e de um Plano Nacional da Leitura deixa as nossas escolas mais pobres. Os nossos leitores, diga-se de passagem, são muito poucos, andam de braços cruzados por falta de uma Política do Livro e um Plano Nacional da leitura para a devida promoção.

Nunca é tarde, é importante que os planos de leitura saiam dos armários ministeriais (Ministério da Cultura e da Educação), sejam efectivos, com os quais se possa valorizar o livro, se formem leitores competentes, cidadãos conscientes dos seus direitos e deveres, verdadeiros promotores da liberdade, fruto do livro e da leitura.

Não seria pedir muito, enquanto cidadão deste país que os Ministérios da Cultura e da Educação pudessem envidar esforços para a definição da Política do Livro e a implementação de um Plano Nacional da Leitura, porque se lê cada vez menos, para não dizer que não se lê, estimula-se cada vez menos o gosto pelo livro, como resultado, tem-se cada vez menos leitores competentes.

Aos professores e às escolas o apelo fica, para que não se possam eximir das suas responsabilidades de contribuir, de modo claro, para o estímulo do gosto pelo livro, pela leitura e a formação de leitores críticos e competentes.
A diáspora angolana é chamada a contribuir com as suas ideias para se definir uma Política do Livro e o Plano Nacional da Leitura com vista a se elevar os níveis de literacia em Angola. (X)

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