Por Bruno Candé, três Jacarandás em Lisboa

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Ulika Paixão Franco
Por esta crónica vos conto como Lisboa consegue, mesmo nas fronteiras, ser o centro, e de como tu ó cidade, fazes com que em ti se cruzem Bissau que viu seus troncos caírem e uma angolana que sem ter memória dos braços do pai, se sente irmã mais velha de uma menina lisboeta chamada Beatriz, a quem oferece estas linhas por homenagem ao artista que foi seu pai, um actor, e recorda, uma e mais uma vez, a importância que têm os nomes. E, pois, que se em vida ele ditou-o, em morte perpectuou: «Eu tinha tudo para dar errado, mas sou o Bruno Candé».

Desde 1997, 1998, que se cruzam na minha vida actores e actrizes negros, afro-descendentes, luso-africanos ou como se diz agora, e mal, racializados, com o sonho de vestir o teatro de personagens a cores.

Devo ao António Tomás, actualmente Professor de Antropologia na Universidade de Joanesburgo, este encontro com o teatro enquanto exercício de múltiplas identidades. Era no bar da Reitoria da Universidade Católica de Lisboa onde, eu a estudar Filosofia (e a sonhar ser jornalista), e ele a estudar Comunicação Social (e a sonhar ser pensador) que nos encontrávamos nos intervalos entre as disciplinas de tronco comum.

Naqueles últimos anos da década de 90 quem nos iluminava a sede de sabedoria era Dom Policarpo, a capelania estava entregue a Tolentino Mendonça e o bar da Reitoria aos alunos aplicados que se dividiam entre um café no bar do R/CH e o 2.º Andar da biblioteca. Era por aí que o Tomás, que respondia por Toy em Luanda e pelo apelido em Lisboa, já naquela altura um promissor intelectual, se dedicava a escrever peças de teatro para serem representadas pelo primeiro colectivo que juntava artistas de palco negros que, no pequeno auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa, se tornaram pioneiros de outros tantos colectivos que se lhes seguirem e seguem até hoje, com o ideal de um teatro onde as personagens se constroem e vivem através de um exercício do corpo conjugado com o intelecto e não com a derme. Foi dele a autoria de duas peças que reuniram um grupo de actores que hoje são referência e a quem, por ordem alfabética, faço referência: Ângelo Torres, Daniel Martinho e Miguel Hurst. Foram estes senhores – peca-me a memória se Miguel Sermão pertencia ao grupo ou não, fazendo, do naquela altura penso que era trio, quarteto – que naquela altura fundaram o Museu do Pau Preto (finais dos anos 90), grupo nado e depois abandonado, em plena Lisboa intelectual e burguesa. Uma das peças, a última se não me engano, intitulava-se “Cabral” e contava a história de Amílcar Cabral, político brilhante nascido na Guiné-Bissau que, anos tardios ao final dos anos 90 haveria de fazer de António Tomás um dos seus biógrafos em morte.

Mas adiante, que Lisboa são detalhes e se nos lembramos deles a cada esquina… Pois estava eu num raríssimo serão de televisão ligada quando o pivot do Jornal da Noite entra pela sala a anunciar a morte de um homem que se apresentou pelo nome Bruno Candé, que depois vim a saber ser também Marques, apelido reserva do pai, um português caucasiano do Alentejo –os disparates em que estas coisas das etnias nos fazem cair, como se fosse possível a um alentejano ser caucasiano. Mas adiante, que há uma avenida para recontar muito além destas esquinas.

Bruno Candé era o homem prostrado no chão, morto por assassinato com 4 balas: a primeira atingiu-o sentado num banco na Avenida de Moscavide, as outras três, atingiram-no já prostrado, caído no chão, em pleno sábado soalheiro, 30 minutos depois da hora do almoço, numa zona comercial na alçada de pelo menos um café, uma ourivesaria, uma garrafeira e de dezenas de transeuntes assustados com os disparos a que voavam soltos de uma Walter PP (Polizei Pistole) de calibre 7,65, roubada à PSP na década de 90, que por 6 vezes estremecerem os sons da cidade.

E se isto fosse uma crónica criminal, prosseguiria assim, com a indicação de quem matou quem, onde, quando, porquê e como.

Mas não o é. É uma homenagem a um homem com o sonho de, pelo teatro, contar histórias onde tudo o que se vê não é a cor. São os sentimentos dos gestos, as expressões dos silêncios, a elevação das palavras, os suspiros do enredo, o horizonte das encenações, a nobreza dos olhares sem direcção como aquele a que nos prende o retrato de Bruno Candé, em auto-retracto, a confrontar o tempo com o passado e o infinito com o para sempre.

Candé esteve, inteiro. no teatro do seu xará de Bruno Schiappa, ensinado nas paredes do lisboeta grand chapiteau da Mademoiselle Ricou, enraizando-se do Castelo até ao Tejo, cravado no peito por amores desracializados num mundo com duração e etiquetas: “felizes, ainda que nunca para sempre”.

Jovem, a construir sonhos no topo de uma Lisboa que é romana, que é do mundo, que é um teatro aberto a uma circunavegação pela alma do próprio Bruno Candé, ao leme de uma orquestra maior, a opus mundi onde Marques é Bruno, primeiro nome das suas próprias notas tocadas na cadência dessa grande pauta que é a vida de um actor, que foi a vida desse senhor Bruno, que se vestiu com o riso ingénuo do clown e se travestiu num corpo de homem gerado por essas mulheres da Guiné e dos seus tantos fidjus na da fuga em Zona Não Vigiada.

– Cadi, Olga, Carla, Betty, Fátima, Andreia…
– Mónica, Mónica, Inês…
– Beatriz.

Esta última tem três anos. E se para todas estas mulheres, e os seus nomes, serve de homenagem esta que não pode nunca ser uma crónica criminal – porque tem vidas que só o teatro sabe interpretar e tornar-nos a todos, brancos caucasianos, negros mestiços, nipónicos asiáticos, hindus orientais, seres humanos iguais – é com vida de Beatriz que estas palavras querem que nós nos importemos. E eu vejo-me nela como Narciso se vê ao espelho. Escrevo-lhe estas palavras para lhe assegurar que a última homenagem a seu pai é ela, Beatriz, filha de Bruno Candé.

É a ela a quem a primeira bala tirará o colo do pai no regresso da escola.

É a ela a quem a segunda bala tirará o riso orgulhoso do pai no dia da sua graduação.

É a ela a quem a terceira bala tirará o ombro do pai no dia em que a meninice a fizer perder-se de amores por um amor errado.

É a ela a quem a quarta bala tirará o braço do pai a caminho dos altares em que se brinda à vida.

É a ela a quem a quinta bala não tirará a dureza de uma vida sem pai.

E se por ela nada mais for feito, então que nos levantemos em nome dela, Beatriz Candé Marques, para salvaguardar que o Estado não permita que a sexta bala seja mais uma bala perdida a atingir a vida daquelas crianças a quem uma indemnização de 120 mil euros não bastará para criar, alimentar, vestir, calçar, educar, formar, ensinar a dançar e preparar três crianças amanhã cidadãos a – junto a um banco e em cada uma ruas onde possam tombar homens ou mulheres negros, brancos, mestiços, hindus ou nipónicos, héteros, homos, bi, trans, sexuais ou assexuados, de direita, esquerda, liberais, socialistas, comunistas ou social-democratas, cristãos, católicos, muçulmanos, judeus, protestantes, cépticos, agnósticos ou ateus – plantarem, cada um, o seu jacarandá em Lisboa. Por todos. (X)

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