Portugal: Há mais ativistas que se autoexilaram do Brasil por temer perseguição, diz deputada

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A deputada do Rio de Janeiro, Renata Souza, diz haver ativistas “que se autoexilaram do Brasil” por temer perseguição, admitindo que a diáspora em Portugal possa ser alvo do “protocolo de segurança” do atual governador daquela cidade brasileira assente na ideia de “mirar e atirar na cabecinha” dos defensores dos direitos humanos, especialmente, negros nas favelas.

Falando ao jornal É@GORA, Renata Souza, que é a primeira mulher negra a presidir a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, garantiu ter encontrando em Portugal “muitas pessoas que estão intimidadas” e que “dizem que saíram do Brasil antes que piore a situação de perseguição”.

“Hoje, em Portugal, parece-me que há muitas pessoas chegando porque se intimidaram e se autoexilaram do Brasil porque têm medo do que pode acontecer com elas. Hoje a gente já encontra muitas pessoas aqui em Portugal que dizem que saíram do Brasil antes que piore a situação de perseguição. Isso é uma situação muito séria porque a gente já tem deputados exilados. É o caso do Jean Wyllys que teve a sua família ameaçada. Então, depois do assassinato de Marielle Franco, as pessoas não estão pagando para ver”, disse a deputada estadual do Partido Socialismo e Liberdade (Psol).

Face às ameaças de morte e às campanhas difamatórias de que era alvo no Brasil, o ex-deputado federal brasileiro, Jean Wyllys, decidiu exilar-se em Portugal, por considerar que o seu país era preconceituoso e alimentado pelo conservadorismo da Igreja, mas de imediato desistiu da ideia de viver em Lisboa.

E por causa do medo que tem sido usado como instrumento dessa política governamental de “mirar e atirar na cabecinha”, sobretudo dos ativistas, “Jean Wyllys está por aí. Está na Europa”, embora poucos saibam dizer em que país, “porque, por questão de segurança, ele não diz”, afirma em declarações ao jornal É@GORA a deputada brasileira, que foi assessora política de Marielle Franco, a política, feminista e defensora dos direitos humanos assassinada recentemente no Rio de Janeiro.

Recentemente, Renata Souza fez um périplo por alguns países da Europa, incluindo Portugal e Suíça, onde apresentou na cidade de Genebra queixa à relatora especial sobre execuções sumárias, extrajudiciais e arbitrárias das Nações Unidas, Agnes Callamarb, sobre as perseguições a ativistas de direitos humanos brasileiros e falou do caso de assassínio de Marielle Franco, a socióloga brasileira cujo nome será atribuído a uma rua em Lisboa.

“Em três meses do atual governo recém-eleito, a letalidade policial aumentou em 30% se comparado aos anos anteriores. Ou seja, isso já demonstra que esse projeto de política pública de segurança é muito letal. O governador do Rio de Janeiro disse que o único protocolo de segurança deles é mirar e atirar na cabecinha, ou seja, é um protocolo assassino de atuação. Por isso, a gente tem muito preocupação contra isso, por isso o informe foi feito para ONU e Organização de Estados Americanos porque se trata de crime contra a Humanidade”, disse Renata Souza.

Na sequência da queixa apresentada pela deputada Renata Souza, o Brasil tem até 20 de agosto para responder a um pedido de esclarecimento das Nações Unidas, que solicitou ao governo brasileiro a versão dos factos narrados no relatório sobre a situação da segurança pública especialmente no Rio de Janeiro, disse a parlamentar.

Além da ONU, a deputada e ativista fez chegar a carta também à Organização de Estados Americanos para que ambas instituições exijam que o Brasil se pronuncie sobre as acusações que são feitas no mesmo documento.

Questionada pelo jornal É@GORA se há perigo para a diáspora brasileira em Portugal face a todas essas situações que estão a acontecer no Brasil, a deputada Renata Souza respondeu afirmativamente.

“Sem dúvida nenhuma, porque as pessoas não se sentem seguras no Brasil diante de um governo que é racista, que utiliza métodos desumanos de coação e de ameaças e opressão”, disse a chefe da Comissão de Defesa dos Direitos Humanos e Cidadania na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, lamentando não saber qual será o fim da insegurança que se assiste naquele país latino americano.

“A gente não sabe (como vai terminar), porque esse é o governo do impossível, tal como eles próprios dizem, porque aquilo que a gente achava que era impossível acontecer, está acontecendo: eles estão a retirar todos os investimentos em universidades, que demonstram o tamanho da nossa soberania, está retirando direitos mais básicos como a quotas, por exemplo, para a população negra”, afirmou.

“Enfim, é um governo do retrocesso dos direitos fundamentais das mulheres, da população LGBT. Então, a gente não sabe onde pode parar, porque é um governo que você não tem condições de analisar o grau de autoritarismo que ele tem”, acrescentou Renata Souza, que num passado recente foi alvo de um processo de cassação de mandato movido por deputados do Partido Social Cristão, de Wilson Witzel, atual governador do Rio de Janeiro.

Num vídeo divulgado nas redes sociais, Renata Souza, que é jornalista, denunciou uma ação do governador do Rio de Janeiro, que aparece numa imagem em Angra dos Reis fazendo-se transportar num helicóptero da Coordenação de Recursos Especiais da Polícia Civil na companhia de atiradores de elite que, do alto, disparam contra moradores das favelas.

Durante a sua estadia em Portugal, Renata Souza encontrou-se com a comunidade brasileira, na Casa do Brasil em Lisboa, numa reunião em que “a tónica da conversa” era “basicamente um diagnóstico sobre a situação” no Rio de Janeiro e também “se colocou muita disposição” para que haja “ajuda mútua em caso de acirramento destas situações” naquela cidade, bem como no resto do Brasil. (MM)

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