Portugal homenageia Bruno Candé, morto por idoso cujo nome permanece “oculto”

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Manuel Matola

Centenas de pessoas fizeram-se hoje às ruas da Lisboa, Coimbra, Porto e Braga para homenagear Bruno Candé, mas foi na capital portuguesa onde “o racismo matou de novo” que familiares e amigos aplaudirem o ator durante cinco minutos antes de lembrarem que Portugal trava uma verdadeira luta que é de todos: a forma como se olha para a cor da pele.

O Largo De São Domingos, no centro de Lisboa, foi palco do tributo ao ator português, de origem guineense, onde familiares, amigos e colegas se juntaram para “exigir justiça” por quem foi baleado à luz do dia em várias zonas do corpo por outro homem de 76 anos, que vai aguardar julgamento em prisão preventiva, mas cujo nome nunca foi revelado propositadamente.

“O assassino de Candé não se escondeu quando apertou o gatilho. Fê-lo, aliás, num dia de sol e na praça pública de modo a ser visto e reconhecido. De modo a ser premiado? (questiono-me).Então porque não sabemos de quem se trata? Porque é que é protegido? Quem o protege?”, questionou a deputada Joacine Katar Moreira no Facebook.

Enquanto num dos dístico exibidos no Largo De São Domingos lembra que “o racismo é uma herança colonial”, nas redes sociais a batalha que se trava nos últimos dias visa deixar um legado aos três filhos do ator: o nome do homem de 76 anos que tirou a vida ao jovem de 39 após jurar que possuir uma arma que tanto matou na guerra do ultramar como voltou a disparar quatro tiros no sábado sobre Bruno Candé, em Moscavide.

“Também estranho estarem a proteger a sua identidade, a história da sua vida. As vítimas (em contexto de violência doméstica acontece o mesmo) são sempre expostas”, diz uma internauta que busca resposta perante um crime que divide a sociedade portuguesa voltando a suscitar um debate sem fim e que vem de longe.

E há quem mais pessoas que questionam a razão dessa “cortina de fumaça” que “protege o assassino”, que já na manhã de segunda-feira, ao ser ouvido no Tribunal de Loures (distrito de Lisboa), optou pelo silêncio face ao que aconteceu no sábado em Moscavide, concelho de Loures.

O país e as redes sociais estão ao rubro com o tema que nunca foi consensual em Portugal, pois tal como há exatamente um mês as ruas portuguesas testemunharam duas manifestações de diferentes grupos que gritaram que ´Portugal (não) é racista`, agora o debate decorre virtualmente entre quem é pela negação de que no território português ´o racismo (não) existe`.

Em contraponto aos que denunciam o racismo, está o deputado único do Chega, André Ventura, que esta sexta-feira convidou o presidente do PSD, Rui Rio, que não acredita na existência do fenómeno na sociedade portuguesa, para participar na “contramanifestação” de direita que convocou para domingo, na baixa lisboeta, a partir das 17:30.

As mais de 300 pessoas que homenagearam, ao final da tarde de hoje, em Lisboa, o ator Bruno Candé, que morreu baleado no último sábado, exigiram medidas proativas para combater o racismo, um problema que, dizem, “vem de há muitos séculos”.

“Sinceramente, acho que isto [a homenagem a Bruno Candé e a manifestação contra o racismo] não vai mudar nada. A mentalidade das pessoas racistas é que tem de mudar, mas é uma bonita homenagem que estamos a fazer ao Bruno e à família dele”, disse à agência Lusa Aminata Gebate, de 19 anos.

A homenagem ao ator, que tinha 39 anos, começou com cinco minutos de aplausos. As mais de 300 pessoas que se concentraram no Largo de São Domingos, em Lisboa, aplaudiram voltadas para uma das varandas laterais do Teatro Nacional D. Maria II, onde foi colocada uma enorme faixa com o rosto de Bruno Candé.

Alguns ‘smartphones’ ao alto registaram o momento, enquanto outros transmitiam a homenagem em direto através das redes sociais.

Depois dos aplausos, um semicírculo formou-se no meio da multidão. No centro estavam as irmãs de Bruno Candé, acompanhadas por outros familiares e amigos, que vestiam camisolas com o rosto do ator.

Em uníssono, os manifestantes entoaram várias palavras de ordem, como, por exemplo “justiça, justiça, justiça pelo Bruno Candé”.

Várias pessoas empunhavam cartazes onde era possível ler, por exemplo, “Bruno Candé ninguém te esqueceu! Portugal escuta nosso silêncio!” ou “racismo é burrice coletiva sem explicação”.

Uma manifestante fazia esvoaçar uma bandeira de Portugal onde estava escrito “o racismo não está a piorar, está a ser filmado”.

E nem os decisores políticos ficaram de fora deste protesto.

Um cartaz empunhado por um manifestante exigia ao Presidente da República “uma resposta proativa e não reativa, como tem sido há 45 anos”, enquanto outro era direcionada para os deputados na Assembleia da República, acusados várias vezes de inação durante o protesto: “Racismo é crime, tanto na rua, como no parlamento.”

A manifestação de hoje é necessária para “acabar com um problema que já vem de há muitos séculos”, sublinhou Joana Sabino, de 18 anos.

A opinião de Joana é partilhada por Mauro Barros, que espera que o homicídio de Bruno Candé “sirva de exemplo” e seja o último crime de origem racial. Contudo, o manifestante de 20 anos mostrou-se pouco confiante.

“Sabemos que isto vai voltar a acontecer, só não sei se será este ano, se mais tarde”, explicou.

Já Martinho Fonseca, também de 20 anos, mostrou que se debruçou sobre o assunto e apontou para a alteração “dos planos educativos” como forma de acabar, de uma vez por todas, com o racismo.

O Governo tem de utilizar a Educação “para mudar mentalidades”, vincou o manifestante, uma vez que “muitas pessoas crescem, em casa, com mentalidades que não são as melhores”, alimentadas pelo pensamento “do antigamente”.

Referindo-se ao período dos Descobrimentos, Martinho Fonseca considerou que a História de Portugal é “grande e muito rica”, mas durante essa mesma História “foram cometidos muitos erros”.

“Não podemos voltar atrás, mas podemos reconhecer que aconteceram [erros] e que têm peso atualmente”, prosseguiu.

“Eu próprio, sendo branco, já ouvi muita coisa com a qual não concordo, mas não posso aceitar isso. Todos temos de ter um papel ativo nesta mudança”, explicitou.

E do papel que todas as pessoas para combater o racismo foi também aquilo que mais se entoou durante a manifestação, porque o racismo “é uma luta de todos” e este flagelo só poderá ser vencido “por todos”, gritou um dos manifestantes com um megafone.

Bruno Candé iniciou o seu percurso no grupo de teatro da Casa Pia, ainda na adolescência, tendo posteriormente frequentado o curso de formação teatral do Chapitô, onde chegou em 1995 e participou em vários espetáculos, dirigidos pelo encenador Bruno Schiappa.(MM e Lusa)

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