Portugal: Imigrantes angolanos recolhem 30 toneladas de donativos para acudir milhares de vítimas da seca no Cunene

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Jorge Madeira

Depois de um intenso trabalho realizado em tempo recorde, entre os meses de Agosto e Setembro, o navio com o contentor de 30 toneladas do donativo composto por roupa, calçado, material escolar e livros, recolhido pelos imigrantes angolanos em Portugal, organizados em agremiações religiosas, deverá atracar no Porto do Namibe na primeira semana de outubro, passando por São Tomé e Príncipe.

O ato de apresentação da doação aconteceu na última quarta-feira, em Sacavém, na capital portuguesa, numa atividade que juntou membros de associações angolanas em Portugal, da imprensa e contou igualmente com a presença de responsáveis do Consulado Geral de Angola, em Lisboa, com destaque para o Cônsul Narciso do Espírito Santo Júnior.

Em declarações ao Jornal É@GORA, o vice-cônsul para as comunidades, Mário Silva, afirmou que lançado o repto, o sucesso da campanha de recolha de donativos para ajudar as vítimas da seca no Cunene pode também servir como uma mola impulsionadora para os demais imigrantes angolanos espalhados pela diáspora e imbuídos do espírito de partilha e solidariedade.

“No quadro desse repto que foi lançado, as associações conseguiram com bom tom recolher (donativos doados também por cidadãos) de alguns países como a Venezuela, Portugal e o Brasil. E podemos constatar aqui no armazém que conseguimos ter material para levar à província do Cunene, num contentor de 40 pés”, disse vice-cônsul para as comunidades.

Esse ato solidário “dá a entender que há uma harmonia entre a nossa comunidade. Foram solidários e dá-nos uma grande satisfação poder fazer parte humildemente deste gesto solidário. Do pouco que nós temos e se pudermos abraçar e ajudar aqueles que muito mais precisam, penso que é positivo e gostaria que também dessem a mesma força àquela comunidade e àquelas associações que lá estão nesses países com a finalidade de ajudar as populações angolanas carenciadas”, considerou Mário Silva.

Para além das associações de angolanos em Portugal foi fundamental o papel da igreja durante todo o processo de mobilização e recolha de donativos, disse ao jornal É@GORA o Presidente do Fórum das Igrejas Angolanas em Portugal, Américo Matos, destacando igualmente o facto de, mesmo na condição de imigrantes, a comunidade angolana residente no território português não se ter esquecido daqueles que ficaram na terra de origem e que hoje passam por dificuldades por conta de uma calamidade natural: a seca na província do Cunene.

“Nós aceitamos o desafio que nos foi colocado numa altura dessas de dificuldades e nos alegramos porque houve uma resposta, independentemente de corrermos porque o tempo não ajudou também. Mas creio que houve uma boa resposta por parte das associações e igrejas que abraçaram e o resultado está aí. Às vezes, o cheiro da terra vem. Não podemos esquecer isso porque há memórias e a nossa mente é muito forte, porque nos faz lembrar determinadas coisas mesmo não podendo estar lá, até porque as imagens e tudo aquilo que nós vimos também vêm ajudar a fortalecer esse sentimento de poder ajudar ao outro”, disse Américo Matos.

De resto esse é um sentimento que na opinião de Carlos Gonçalves, membro da comissão organizadora para a recolha de donativos, foi demonstrado não só pela comunidade residente em Lisboa, como pelos angolanos que estão espalhados por diversas localidades de Portugal.

“Nós temos aqui reações de angolanos desde o Algarve ao Alentejo com um apoio substancial. E também do Porto, Leiria e depois a grande Lisboa, onde está concentrada a maior parte das associações angolanas: Setúbal, Almada, Linha de Sintra, a zona de Odivelas e houve aqui todo um engajamento das associações representadas, os jovens, os mais velhos, as crianças, todos mobilizados e identificados com a causa. Isso em termos associativos pode representar uma viragem no comportamento das associações angolanas aqui, que começam a ter noção do valor da diáspora e da contribuição que a diáspora pode dar a essa fase que o país atravessa”, frisou.

Há dias, as Nações Unidas apelaram as autoridades angolanas para “mobilizar de uma forma acelerada os recursos” para acudir as vítimas da seca em três províncias de Angola, onde, segundo a ONU, já há pessoas a morrer em consequência das alterações climáticas.

“De acordo com a última avaliação feita pelo Ministério da Agricultura, temos as comunidades avaliadas nas três províncias do Cunene, Huíla e Namibe em fase 3 ou 4 do IPCC (Painel Intergovernamental sobre as Alterações Climáticas), que quer dizer que morrem 0,5 por 10.000 pessoas por dia devido à mudança climática no país”, afirmou o coordenador residente das Nações Unidas em Angola, Paolo Baladelli, na abertura do primeiro Diálogo Nacional sobre o Fundo Verde para o Clima (GCF, na sigla inglesa).

Para Paolo Baladelli, a situação de seca severa em Cunene deve constituir preocupação das autoridades angolanas, aliás, “esta é uma das tantas razões imperativas para mobilizar de uma forma acelerada” os recursos e “focar de uma forma muito atenta sobre a mitigação e adaptação da mudança climática”.

Recentemente, um movimento similar de apoio às vítimas da seca no Cunene juntou no mesmo palco, em Lisboa, 16 artistas de países lusófonos, numa iniciativa do músico angolano Vlado Coast, que é natural da província do Cunene.

Um dos rostos que se associou a essa campanha, denominada “SOS-Cunene”, foi a modelo angolana, residente nos Estados Unidos da América, Maria Borges, que, a partir da capital portuguesa, fez um depoimento para chamar atenção do mundo sobre a grave situação porque passam milhares de famílias naquela província do sul de Angola. (X)

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