PR Marcelo apela para “prevenção pedagógica contra o ódio, a intolerância, a xenofobia e o racismo”

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Foto: Presidência da República ©

O Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, alertou ao Corpo Diplomático acreditado em Portugal para “nunca esquecer a prevenção pedagógica contra o ódio, a intolerância, a xenofobia e o racismo” numa altura em que paira um clima de tensão racial no país.

Num discurso proferido no fim de semana, na habitual cerimónia de apresentação de cumprimentos de Ano Novo, Marcelo Rebelo de Sousa lembrou “o exemplo do Papa Francisco, no combate à pobreza, no sentido de serviço, no respeito pelos outros, sobretudo os mais frágeis e indefesos, e na preocupação com as periferias marginalizadas da vida” e defendeu uma CPLP “mais forte e aberta” face aos desafios globais.

Dado o teor da mensagem deixada numa altura em que aumenta a crispação social em Portugal, o jornal É@GORA decidiu publicar integralmente o discurso do chefe de Estado português, Marcelo Rebelo de Sousa:

“Senhor Núncio Apostólico, Excelência Reverendíssima,

Agradeço, penhorado, as palavras de Vossa Excelência Reverendíssima, recordando a mensagem de Ano Novo de Sua Santidade o Papa Francisco sobre a Paz como caminho de esperança, de reconciliação e de conversão ecológica, e, em especial, o exemplo do Papa Francisco, no combate à pobreza, no sentido de serviço, no respeito pelos outros, sobretudo os mais frágeis e indefesos, e na preocupação com as periferias marginalizadas da vida.

Excelências,

Que o ano de 2020 tenha começado de modo propício e seja cumulado de prosperidade para Vossas Excelências, para os Vossos Chefes de Estado e para os Vossos Estados é o voto amigo de Portugal e dos Portugueses.

Disse bem, voto amigo de Portugal e dos Portugueses, porque a amizade é o sentimento que, desde sempre, assinala a nossa posição no mundo – plataforma entre culturas, civilizações, continentes e oceanos.

Fraternais com os nossos irmãos de língua, História e Futuro. Fiéis aos nossos aliados. Leais para com os nossos Parceiros. Amigos de todos quantos se empenhem na construção de um Mundo mais pacífico, mais justo, mais respeitador dos direitos humanos, mais atento ao desafio climático, mais dialogante, mais tolerante, mais atento às lições de há um século, no preciso momento em que se evocam 75 anos do fim da 2ª Guerra e da revelação universal de muitas das suas atrocidades e 70 anos sobre a criação das Nações Unidas.

Fomos e somos assim. E não tencionamos mudar de vida.

E, por isso, apoiamos as organizações internacionais e cultivamos o Direito Internacional, queremos uma CPLP mais forte e aberta, uma União Europeia mais decidida, mais presente no mundo, mais próxima dos europeus, acolhemos com alívio o acordo com o Reino Unido como o melhor dos menos bons caminhos, acompanhamos António Guterres nos seus apelos ambientais, ganhamos fôlego com o bom senso nas relações comerciais entre os grandes do mundo, ansiamos por mais entendimento sobre migrações e refugiados, apoiamos maior ligação entre Europa e África e sensibilizamos a União Europeia e a Aliança Atlântica para o Mediterrâneo e o Atlântico Sul, sem nunca esquecer o Báltico e o Leste, desejamos boas notícias na vida dos povos latino americanos e nunca, mas nunca, esquecemos ou deixamos de apoiar os nossos compatriotas que vão vivendo, e por vezes, com apertos de coração maiores e mais longos, as vicissitudes do dia-a-dia, como, por exemplo, na Venezuela, estamos sempre cientes das relações que importa manter e desenvolver com paragens mais próximas, como aquelas que nos rodeiam, ou mais longínquas como as Índicas ou Pacíficas, nomeadamente a Índia e o Japão. Repetindo, incansavelmente, nas situações mais críticas, três ditames do bom senso – atenção, preocupação e contenção.

Umas vezes estamos presentes com as nossas notáveis Forças Nacionais Destacadas em missões de paz, de estabilização, de luta antiterrorista. Noutras, agimos com a nossa presença económica, ou social, ou educativa e cultural. Noutras, com a nossa intermediação política.

Sempre com a nossa inexcedível diplomacia. E, mais ainda, com a melhor de todas as presenças – a de milhões de portuguesas e portugueses, espalhados por quase 180 Estados do mundo, partilhando uma língua com mais de 360 milhões de falantes e que, dia após dia, são os heróis da melhor das diplomacias – a diplomacia da amizade pelos outros e com os outros.

Excelências,

Fomos assim. Somos assim.

Nós, que temos quase 900 anos de História. Que nascemos quase com a mesma dimensão física com que vivemos hoje. Que atravessámos Oceanos, chegámos mais longe e primeiro do que muitos outros, dividimos o mundo com o nosso vizinho em Tordesilhas, criámos um Império, e, antes do Império e para além do Império, ficámos para sempre uma Nação universal, que só é plenamente realizada na inclusão de todos e em todos.

Nós que vivemos em Democracia há mais de quarenta anos, com um sistema político estabilizado, finanças que vão conhecer um excedente nominal, aposta na dívida pública a descer, no emprego a crescer, no digital, nas energias renováveis e no turismo a inovar, em alianças a aprofundar, parcerias a multiplicar, irmandades a estreitar. Sempre procurando combater os flagelos da pobreza ou das desigualdades ou da falta de coesão territorial, que atrasam o crescimento, mas, sobretudo, desumanizam o desenvolvimento.

Nunca podendo esquecer a prevenção pedagógica contra o ódio, a intolerância, a xenofobia, o racismo. Relembrando os 500 anos sobre a Circum-navegação, obra de gente corajosa de dois Estados vizinhos e de tronco histórico comum.

Recebendo a relevante Conferência dos Oceanos das Nações Unidas, em parceria com o Quénia. Fazendo de Lisboa Capital Verde da Europa.

Preparando a Presidência Europeia de 2021 e a Jornada Mundial da Juventude de 2022.

Celebrando 200 anos da nossa Revolução Liberal, que antecedeu de muito pouco essa original independência do nosso irmão Brasil, proclamada pelo primeiro Imperador, que era Filho do Rei de Portugal, e que ele próprio foi ao mesmo tempo Rei de Portugal e Imperador do Brasil e que nasceu e morreu no mesmo quarto, não muito longe deste Palácio da Ajuda, no Palácio de Queluz.

Excelências,

É este Portugal, que, no essencial, não muda. Muito antigo e muito novo. Muito sabedor e muito curioso. Muito saudoso e muito alegre.

Muito discreto e muito acolhedor. Muito pessimista e muito sonhador e aventureiro. Muito individualista e muito solidário.

É este Portugal que vos recebe de braços abertos. Para que, uma vez entre nós recebidos vos seja possível ficarem a ser, para sempre, é esse o nosso desejo, tão portugueses como nós somos!” (X)

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