PROV(oc)A(ção) Pública: Racismo institucionalizado

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Fotoperformance: Quadro branco. Foto: Paulo Pinto ©

Por Dori Nigro*

Em 2014 a Universidade de Coimbra foi invadida por mensagens racistas, sexistas e xenófobas, escritas nas carteiras e casas de banho. Tal prova pública de racismo e violência contra grupos sociais não foi investigada da forma que deveria ser. Não houve política de enfrentamento e penalização. Passou-se tinta branca por cima das mensagens. Enquanto negamos o racismo, violentamente ele avança infetando as estruturas sociais.

O Racismo é um vírus que precisa ser combatido constantemente. Os sintomas afetam pessoas racializadas. Como se combate? Primeiramente reconhecendo que há. E que há privilégios que beneficiam umas pessoas em detrimento de outras.

Em 2019, na condição de aluno desta mesma Universidade, sofri racismo de um funcionário. Estava entrando no Colégio dos Artes com sacos e malas de materiais, para uma performance que apresentaria mais tarde com uma colega do curso. Ao subir as escadas que dava acesso à Capela da Faculdade de Arquitetura, um funcionário arrogantemente perguntou-me o que fazia ali. A forma como aquele senhor olhou-me e questionou-me revelava que aquele espaço não era para pessoas como eu.

Desconfiado, ele chamou outra funcionária para investigar o que estava dentro de nossos sacos e malas. Eu e minha colega estávamos a preparar a performance que apresentaríamos na Capela, como resultado de nossas pesquisas de tese. Enquanto ensaiávamos, sob olhares vigilantes, fomos interrompidos pela funcionária que veio averiguar o que tínhamos nas bolsas e malas. A forma desconfiada como aquela senhora fixou o olhar sobre nossas bolsas nos colocou na condição de marginais, tamanho o constrangimento.

Infelizmente essa é uma das situações que enfrentamos no cotidiano. Nós, pessoas negras, sofremos constantemente o impacto da contaminação de atitudes racistas nas relações e instituições sociais. Essa é uma luta que já nascemos predestinados a travar. Não há como escapar ou ignorar.

Provocado por essas vivências racistas e de negação da existência dele, reescrevi e fotografei em quadro branco, de aviso, as frases escritas nas carteiras e casas de banho da Universidade.

Registros da performance PROV(oc)A(ção) Pública. Foto 1: João Pádua. Foto 2: Jani Nummela. Foto 3: Lucas Reis

Em outra fase da minha investigação criei a performance intitulada PROV(oc)A(ção) Pública que foi apresentada em espaços culturais de Coimbra, Porto e Gaia a partir de depoimentos de pessoas negras de Portugal.

Entrevistei pessoas negras no Porto, Coimbra e Lisboa que, corajosamente, relataram episódios de racismo que sofreram. Enquanto pessoa negra não há como deixar de identificar-me e ver-me nesses relatos.

Enquanto pessoa negra a viver em Portugal também percebo meu corpo sendo discriminado, agredido, objetificado e exotificado por diversas instituições e pessoas. Assumi em mim os riscos de revelar o que negam e apagam. Essas frases são parte de mim. Vejo-me nelas porque meu corpo está implicado nesses olhares e projeções. Sou o Outro que é violentado por estruturas opressoras. Sou o moreno, o mulato, o pardo, o mestiço. O alvo escuro. Desenegrecem minha pele, embraquecem a minha alma.

Tornando-me claro, lanço luzes sobre o racismo de cada dia. Clareando-me talvez me faça compreender, refletindo as dores de tantas cores na inocência, ignorância e ingenuidade dos que dormem sobre uma história branca e sobre seus ecos de esquecimento, fissuras e invasões. (X)
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Modelo brasileiro, doutorando em Arte Contemporânea pela Universidade de Coimbra

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