Psicóloga brasileira cria projeto global de assistência gratuita às vítimas da Covid-19

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A mentora da iniciativa é imigrante em Espanha de onde já atendeu mais de 50 pessoas a nível mundial

Elisabeth Almeida, correspondente em São Paulo

O brasileiro André Soncin fugiu da pandemia em Portugal e hoje enfrenta a maior crise sanitária no seu país de origem, o Brasil, de onde é natural a psicóloga clínica Iara Souza, imigrante em Espanha, que lançou um projeto inusitado de assistência gratuita online a qualquer brasileiro a nível mundial para ultrapassar os traumas causados pela Covid-19.

Segundo artigos disponibilizados pela OMS, a necessidade de se dar mais atenção à saúde mental torna-se prioridade. Há mais de um ano de pandemia, países como o Brasil têm registado a cada dia maior número de mortos, permanecendo assim no topo do ranking dos países mais afetados pela Covid-19. Além dos números inquestionáveis, a população passa diariamente por situações de estresse, resultante do longo período de confinamento em casa; a ansiedade gerada diante do desemprego; o aumento astronómico no preço de bens básicos alimentares e o medo de contrair a doença.

Pensando nisso, a psicóloga Iara Souza, atualmente imigrante em Espanha, criou em fevereiro deste ano o @saudemental_legal, onde atende de forma gratuita pessoas que sofreram ou sofrem com as consequências causadas pela pandemia.

“Eu trabalho para o Instagram de graça, em contrapartida, eu crio um nicho de pessoas que acreditam no meu trabalho e tiveram em mim a confiança de conversar sobre seus problemas”, conta Iara Souza em entrevista ao jornal É@GORA.

No seu trabalho de atendimento, a que tecnicamente apelida de “escuta de plantão psicológico emergencial” para acolher qualquer dúvida no momento de dor, Iara Souza testemunhou de tudo um pouco do que se passa nos quatro cantos do mundo em época pandémica.

“Acompanhei casos de estupro, abusos domésticos, morte de parentes próximos e até mesmo casos graves de ansiedade, causados pelo medo de contrair o novo coronavírus e de insegurança diante do futuro. Há muitas pessoas sem perspetiva alguma para o período pós pandemia”, relata.

As conversas são realizadas pelo Instagram @saudemental_legal, onde a terapeuta já atendeu mais de 50 pessoas do mundo todo e afirma a importância dessa troca de experiências em sua vida pessoal.

Psicóloga Iara Souza
“Apesar do tempo que levei para que as pessoas começassem a confiar e desabafar comigo, hoje consigo acompanhar um número bom de pessoas e a meta é aumentar cada vez mais, já que eu amo o meu trabalho”, diz.
Há um ganho mútuo nesse processo, reconhece.

“O mais interessante nisso tudo é que toda vez que eu falo com alguém com algum problema, eu curo algum problema em mim. Eu sou psicóloga, mas como psicóloga também tenho problemas e por isso a importância dessa troca”, explicou a médica, que teve também seu momento de depressão durante a pandemia.

“O processo de migração também foi bem complicado, pois a partir do momento que você migra, você não é mais psicóloga, você é indigente, é ninguém. Então comecei a trabalhar com telemarketing ou aquilo que você tem possibilidade, mas com a pandemia eu fui desligada do meu antigo emprego e quase entrei em depressão”, disse.

Nas conversas realizadas pelo Instagram @saudemental_legal, onde a terapeuta ouve seus seguidores, Iara Souza usa de técnicas para que o próprio interlocutor chegue a uma conclusão do que será a melhor opção a se fazer dentro do problema abordado por ele. Tal comunicação, assinala, não pode ser chamada de sessão de terapia, já que esta requer uma maior frequência e aprofundamento dos casos.

“É importante frisar que não é terapia o que fazemos, pois o processo psicoterapêutico é muito complexo e continuo. Não se cura uma dor, uma ferida, um machucado físico em um dia, não é mesmo? Uma dor emocional tampouco se cura em um dia… o que fazemos no @saudemental_legal é uma escuta de plantão psicológico emergencial para acolher aquela dúvida, aquele momento de dor” explicou a terapeuta.

A diferença entre plantão e psicoterapia é medida, basicamente, pela continuidade e aprofundamento dos temas abordados, enquanto a psicoterapia requer uma maior assiduidade, pois o plantão psicológico é muitas vezes oferecido por alunos do último ano da graduação, onde a comunidade abrangida pela universidade tem profissionais capacitados para conversar e expressar seus sentimentos, sua dor.

“É isso o que faço no @saudemental_legal: ouço sem julgamentos quem muitas vezes acredita não ter com quem desabafar. A pessoa manda um áudio e explica a sua situação, a sua dúvida e a direcionamos de forma que em uma conversa, com o que ela mesmo está dizendo, ela amplia o olhar” contou a terapeuta e criadora do projeto.

Em busca de parceiros

Num primeiro momento, Iara Souza contou com a ajuda de uma colega de profissão, a também terapeuta Tatiana Feliciano que, entrentato, não pôde continuar no projeto. Desde então, Iara Souza percebeu que a busca por parcerias se tornou necessária para ouvir e ajudar um número maior de pessoas.

Hoje, Iara Souza diz-se disponível para trabalhar com quem tiver graduação em psicologia e quiser ajudar no projeto levada a cabo no instagram @saudemental_legal.

“Não importa quanto tempo esteja formada e nem a ramificação escolhida. A abordagem não importa, mas a pessoa tem que querer escutar e ajudar o outro com uma palavra, uma conversa que possa ser esclarecedora, pois quando estamos no problema, quando estamos em dor não enxergamos nada à nossa volta e não temos uma visão do todo”, refere, acrescentando.

“E quando conversamos com alguém e essa pessoa nos mostra outras possibilidades através da sua própria fala a pessoa vai achando soluções ou outras possibilidades”, como a que o brasileiro André Soncin, que liderou o grupo de brasileiros que saíram de Portugal após a eclosão da primeira vaga da Covid-19. (EA)

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