Quo vadis África: nem sequer uma vacina contra a Covid-19?

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FOTO: Getty Images

João Muteteca Nauege, Docente da Universidade Lueji A´Nkonde
Em 2019, há quase dois anos, o mundo foi apanhado de surpresa, nascia, assim, uma estirpe viral em Whuan, na China, que viria a ser baptizada com o nome de COVID-19. A sua letalidade foi comprovada, os moldes de propagação qualificaram-na como uma Pandemia sem precedentes. A COVID-19 veio desafiar as grandes farmacêuticas, as grandes potências mundiais, as Universidades, numa só palavra tem estado a desafiar os homosapiens, pondo à prova a RESILIÊNCIA HUMANA. Os manuais de Ciências Sociais, com particular destaque aos de História, durante muito tempo, nos ensinaram que o nosso continente é o BERÇO da HUMANIDADE! Mas do simples berçário não passa mesmo, infelizmente.

Feliz ou infelizmente, a COVD-19 afecta todos, os graúdos, os miúdos e até os quase inexistentes, os “sem-voz” compostos por países pobres, muitos deles em África. Porém, os grandes são sempre grandes, por uma simples razão, não aceitam tornar-se pequenos, tudo fazem para mostrar a sua grandiosidade face ao vírus SARS COV-2. Os grandes só o são porque desde muito cedo notaram que continuariam a sê-lo, se investissem no capital humano. No HOMEM, ou seja, no HOMOSAPIENS para que este continuasse a estudar, a descobrir, a inventar, a inovar, a redescobrir-se em face dos imprevistos que a natureza nos coloca. No quesito de investir no conhecimento, a África parou no tempo e no espaço. Se o faz não é da forma mais série, salvo raras excepções, no cômputo faz-se muito pouco em relação ao investimento no capital humano.

A África, segundo nos consta, foi um dos continentes que teve os primeiros centros de saber, referimo-nos às universidades, por exemplo, a universidade de Fez, Marrocos em 859; a de Alzahar, Egipto em 988; a de Tombuctu no séc. XII, Sankoré, em quase plena idade média. Afinal, a África nunca esteve tão mal assim, como às vezes a visão eurocêntrica nos faz crer. No que respeita às universidades quanto à sua génese, diga-se de passagem, fizemos referência à perspectiva afrocêntrica das universidades.

O que então falta à África? RECURSOS, ou seja, DINHEIROS? Não, não mesmo. Falta a aposta na formação do homem, no capital humano, no investimento sério em Economia do Conhecimento, sublinhe-se, Economia do Conhecimento; numa era em que sem conhecimento até o dinheiro é impotente. Falta a aposta em formar quadros e dar-lhes ferramentas para trabalharem, em congregar sinergias para o bem comum. Os bons quadros que a África forma nas mais distintas universidades do Mundo não são incentivados a voltar ao continente, quando o fazem pouco tempo depois se vêem a braços com a falta de condições para pôr em prática o seu Know how, sentem-se desmotivados e acabam por abandonar o BERÇO da HUAMANIDADE em busca de melhores condições noutras latitudes, numa só palavra, assistimos à fuga de Cérebros africanos.

Será que a África prefere a exodependência, ou para ser mais claro, prefere a eurodependência?

África, ninguém pensa por ti, melhor que tu? Africanos, ninguém fará por vós melhor que vós! Não vamos dar receitas nesta nossa reflexão, mas é o momento de os líderes africanos, já senis, com escassez de reflexos, em vez de digladiarem contra os jovens que querem pensar a África RENOVADA, que se vire para si em busca de soluções, apostarem no homem, no conhecimento, na inovação, numa só palavra na CIÊNCIA, que a deixem SOMAR e SEGUIR (como tem sido a nossa divisa), que invistam nas universidades, nos centros de investigação, que os dinheiros de África guardados em paraísos fiscais sejam investidos em África, só e só para o bem comum, o africano também precisa de viver a prosperidade e não só viver de quimeras ou ouvir falar da prosperidade.

Há quem pense que a eurodepência é a nossa sina! Não, não sou afropessimista, mas andando assim, ou melhor, estagnando assim, por que não estamos a andar, a nosso ver, algum dia, diremos aos mais novos que nós africanos não nascemos para PENSAR GRANDE!

Alguém nos sabe dizer por que que a iniciativa do fitoterápico (famosa bebida) de Madagáscar não vincou? Tornou-se em vergonha continental? Sim, agora é vergonha africana. A COVID—Organics. A solução proposta por malgaxes não teve pernas para andar por falta de apoios, quer da OMS, quer dos estados africanos que só querem importar da Europa. O jovem presidente malgaxe veio a terreiro soltar as suas lamúrias, quase esteve de costas voltadas com a OMS.

Porque que os presumíveis gigantes africanos (NIGÉRIA, EGIPTO, ÁFRICA DOS SUL, só para citar estes) não se associaram a Madagáscar para o apoio necessário? Se levassem a sério a bebida malgaxe (levando-a aos laboratórios de ponta), procurando parcerias e continuassem a investir recursos para uma solução quiçá à africana não resultaria? Ali, o afropessimismo tomou conta dos líderes africanos, a OMS pediu cautelas, em outras palavras, desaconselhou, desencorajou, não apoiou. Os líderes africanos continuaram no casulo, deram a entender que nada se faz em África!

Nenhuma vacina contra a COVID-19? O que fazem as universidades africanas? O que fazem os cientistas africanos e onde estão? São perguntas que não se calam. A caluda das universidades de África, mete medo, como sói dizer-se. É verdade, mete mesmo medo, porque ainda nenhuma universidade, centro de investigação ou farmacêutica do continente berço desenvolveu um protótipo de vacina contra COVID-19, volvidos quase dois anos. As notícias que nos chegam dão conta de farmacêuticas como SPUTINIK V- Rússia, PFIZER- sedeada nos Estados Unidos e a de Oxford, Reino Unido, têm desenvolvido pesquisas mais animadoras em torno da vacina contra a COVID-19. De quem é a culpa? Já sabemos a resposta, ela não morre solteira.

Quo vadis África?
É ainda uma pergunta que se impõe, recuperámo-la da expressão latina, original: quo vadis, domine? Onde vais, senhor? (Pergunta de São Pedro, que acabava de sair da prisão, a Jesus Cristo, que lhe aparece).

Aos líderes africanos pedimos mais seriedade e humanismo, que pensem no colectivo e não nas suas ambições infindáveis.

A diáspora africana, por todos os cantos do planeta, é chamada a congregar sinergias para trazer as boas práticas que absorveu onde está ou esteve, a vir para dar solavancos ao crescimento e desenvolvimento do continente- chamado Berço da humanidade. (X)

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