Ricardo Quaresma acusa deputado André Ventura de “populismo racista” após discurso contra ciganos

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Futebolista Ricardo Quaresma. Foto privada

Manuel Matola

O internacional português Ricardo Quaresma acusou o deputado André Ventura de “populismo racista”, após o líder do Chega, partido da extrema direita e anti-imigração, ter considerado “fundamental” instituir um “plano de confinamento específico para a comunidade cigana”, por suspostamente criar “um sério problema de segurança pública” em Portugal.

No último sábado, perto de 200 pessoas na Figueira da Foz organizaram uma manifestação de protestos contra alegada inação que as autoridades locais têm tido perante atos de vandalismo realizados por uma família de etnia cigana, que, desde 2018, é indiciada de provocar estragos.

“Os manifestantes adiantaram que os danos têm sido provocados, por exemplo, em viaturas, que têm aparecido com os pneus furados”, segundo escreveu o jornal I, o primeiro a divulgar um comentário do líder do Chega sobre o caso.

Citado pela publicação, o parlamentar disse que o que aconteceu no fim de semana naquela região do distrito de Coimbra só dava razão ao discurso do Chega em relação aos ciganos, pelo que o seu partido “compreende bem o estado de alma da população da Figueira da Foz”.

Por isso, André Ventura assegurou que iria contactar o PSD, o CDS e a Iniciativa Liberal (partidos da Direita) para uma discussão sobre o tema, a fim de se “apresentar uma proposta comum no Parlamento já esta semana” que vise o confinamento daquela população de etnia cigana, a mesma a que pertence o futebolista Ricardo Quaresma.

Reagindo, o jogador da seleção portuguesa referiu, num texto publicado na sua página de Facebook na noite de terça-feira, que “o populismo racista do André Ventura apenas serve para virar homens contra homens em nome de uma ambição pelo poder que a história já provou ser um caminho de perdição para a humanidade”.

“Triste de quem se ajoelha só para ficar bem na fotografia, para enganar os outros e parecer um homem de bem aos olhos do povo”, escreveu Ricardo Quaresma no início de um longo texto em que repudia as declarações do líder do Chega.

O atleta referiu que “a seleção nacional de futebol é de todas as cores, pretos, brancos e até ciganos”.

“Em todos bate no coração a vontade de dar a glória ao país e no momento de levantar os braços e celebrar um golo acredito que nenhum português celebre menos porque o jogador é preto, branco ou cigano”, disse.

Lembrando que “como homem, cigano e jogador de futebol” já participou “em várias campanhas de apelo contra o racismo”, o internacional português, de 36 anos, atualmente ao serviço do Kasimpasa, na Turquia, disse acreditar na igualdade entre as pessoas.

“Eu sou cigano. Cigano como todos os outros ciganos e sou português como todos os outros portugueses e não sou nem mais nem menos por isso. Como homem, cigano e jogador de futebol já participei em várias campanhas de apelo contra o racismo, não porque parece bem mas porque acredito que somos todos iguais e todos merecemos na vida as mesmas oportunidades independentemente do berço em que nascemos”, disse Quaresma apelando três vezes para que a sociedade mantenha “olhos abertos” aos discursos populistas.

“Olhos abertos amigos, o populismo diz sempre que é simples marcar golo mas na verdade marcar um golo exige muita tática e técnica. Olhos abertos amigos, o racismo apenas serve para criar guerras entre os homens em que apenas quem as provoca é que ganha algo com isso. Olhos abertos amigos, a nossa vida é demasiado preciosa para ouvirmos vozes de burros…isto se queremos chegar ao céu”, escreveu o futebolista.

Contra-ataque

Deputado André Ventura. Foto: Chega ©
Após a publicação do texto, o líder daquele partido da extrema direita e anti-imigração contra-atacou descrevendo como “lamentável que um jogador da seleção nacional se envolva em política”.

“Espero que as autoridades do futebol não deixem que isto se torne o novo normal”, afirmou o deputado do Chega, citado pelo jornal Correio da Manhã.

Em março, o Ministério Público garantiu ao jornal É@GORA que estava a investigar André Ventura, depois deste ter proposto que a deputada luso-guineense Joacine Katar Moreira fosse “devolvida ao seu país de origem”, afirmações que suscitaram 59 queixas apresentadas à Comissão para a Igualdade e Contra a Discriminação Racial (CICDR).

Reagindo, o deputado André Ventura apelou para que a Procuradoria Geral da República arquivasse “rapidamente” o processo que pesa sobre si por considerar tratar-se de “perseguição política”. (MM)

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