Rui Rio e a negação pública de um racismo que prometeu combater em Programa Eleitoral

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FOTO: SuInformação

Manuel Matola

O presidente do Partido Social Democrata, Rui Rio, considera que “não há racismo na sociedade portuguesa”, mas na página 103 do seu Programa Eleitoral para as Legislativas 2019, o maior partido da oposição em Portugal inscreveu que, em caso de vitória, iria orientar a sua ação política no sentido de “combater a discriminação racial com novas práticas preventivas e repressivas”.

A garantia deixada pelo PSD, num único parágrafo que não pormenoriza a forma como pretendia combater o fenómeno do racismo em Portugal, consta do manifesto eleitoral com que o então candidato do PSD ao cargo de primeiro-ministro se apresentou aos eleitores portugueses às legislativas de 6 de outubro do ano passado.

Quando no dia 6 de setembro, na Alfândega do Porto, o presidente do principal partido português da oposição
apresentou o seu programa político para as Legislativas 2019, a promessa feita no documento oficial do PSD de Rui Rio visando o combate à discriminação racial foi colocada no capítulo referente aos imigrantes e refugiados.

No manifesto, o líder do PSD prometia também, em caso de se tornar chefe de governo, “implementar uma campanha de sensibilização junto da população geral para os benefícios da imigração e contributos dos imigrantes para a sociedade portuguesa, desmitificando as perceções associadas ao fenómeno”.

No mesmo programa político, o dirigente dos sociais democratas pretendia igualmente “promover a recolha de dados sobre a acessibilidade e utilização dos serviços de saúde pela população imigrante” em Portugal, para obter um “conhecimento efetivo desta realidade”.

Mas na semana em que Portugal e o mundo assistiram a manifestações contra o racismo, o agora deputado e líder da bancada do Partido Social Democrata tem diferentes “perceções associadas ao fenómeno” que atinge, sobretudo, os imigrantes e refugiados, e diz que não vê razões para autorizar uma manifestação ligada ao racismo, um crime que o governo português, entretanto, reconhece existir na sociedade portuguesa.

Há dias, Rui Rio criticou não só a realização de uma manifestação por ter sido levada a cabo durante a crise pandêmica resultante da Covid-19, como acusou os organizadores do evento que juntou milhares de pessoas em Lisboa num protesto à morte de George Floyd em Minneapolis (EUA) de pertencerem a uma corrente idiológica.

“Foi promovido por forças de esquerda, apesar de todos sermos contra o racismo. Ainda entendo na América onde aquilo aconteceu, agora aqui em Portugal, mas a que propósito? Ainda ficamos é racistas com tanta manifestação antirracista, não noto isso na sociedade portuguesa, não há racismo na sociedade portuguesa”,
disse Rui Rio.

Foram várias as reações, a começar pela do comentador político Pedro Marques Lopes.

“Ao contrário do que o líder do PSD pensa, somos um país onde o racismo está tão profundamente entranhado que nem nos apercebemos da violência com que o exercemos. Se Rui Rio não sabe de tudo isto ou anda muito distraído ou não conhece a comunidade em que vive”, escreveu Pedro Marques Lopes.

Num texto de opinião publicado este sábado no Diário de Notícias, intitulado “Rui Rio e o racismo”, Pedro Marques Lopes considerou que o que o líder do PSD “diz não é só errado a vários níveis, é grave”.

“Em primeiro lugar, Rio cai num erro que não pode mesmo cair e que tão caro tem ficado ao centro-direita: o de entregar o combate ao racismo e a muitas outras discriminações sociais à esquerda. Dizer que ´somos todos contra o racismo` e entregar a promoção de manifestações contra à esquerda é entregar a bandeira. Isto não é novo – espanta é que Rio caia nisto -, o centro-direita tem deixado que valores que também sempre foram os seus tenham sido apropriados pela esquerda”, considera o analista.

E alerta: “Ultimamente, a estupidez tem atingido níveis estratosféricos quando vemos alguns intelectuais orgânicos da direita afirmar que basta a esquerda defender o que quer que seja para ser obrigatório defender o oposto” até porque “isto tem consequências graves para uma paranóia perigosa que está a atacar o mundo, uma espécie de revisionismo histórico histérico que derruba estátuas, censura filmes e peças de teatro e lança livros para um novo índex”.

Segundo Pedro Marques Lopes, “o centro-direita pôs-se tanto fora dos combates públicos contra o racismo e permitiu, por ação ou omissão, ver-se confundida com gente pouco recomendável que perdeu boa parte do capital político para lutar contra esta loucura que confunde o combate ao racismo com um arrasar da história que apenas vai trazer mais radicalismo e nada vai acrescentar à luta pela igualdade”.

Já a deputada socialista Isabel Moreira publucou um comentário no Facebook no qual acusou Rui Rio de forma direta: “não conhece o país”.

E numa alusão a um relatório que contou com o trabalho também de parlamentares do PSD, que envolveu associações da sociedade civil, especialistas na matéria e visitas a bairros racializados, Isabel Moreira considerou que o discurso sobre negação ao racismo foi proferido por Rui Rio não como cidadão, mas “dito pelo presidente do Partido que aprovou o relatório elaborado feito no ano passado sobre o racismo e a xenofobia em Portugal”.

A deputada do Partido Socialista apontou, no entanto, a força política do documento.
É “um relatório que aponta dados inegáveis de racismo interpessoal, institucional e estrutural” na sociedade portuguesa, refere Isabel Moreira, acrescentando de forma irónica.

“E quer ser primeiro-ministro. Acha que falar de racismo aumenta o racismo. Acha que manifestarmos – nos contra o racismo aumenta o racismo. Talvez também ache que falar de sexismo aumenta o sexismo. Talvez ache que se nos calarmos o mundo amanhã acorda perfeito”.

Entretanto, a semana foi repleta de vários episódios que contrariam a narrativa de Rui Rio, nomeadamente, “os atos de xenofobia e de racismo expressos nos muros externos vandalizados do Centro de Acolhimento para Refugiados na Bobadela”, segundo denunciou em nota o Conselho Português para os Refugiados.

A ocorrência durante a madrugada de sexta-feira levaram o Conselho Português para os Refugiados a manifestar “sua preocupação”, repudiando “veementemente qualquer atitude de violência e de ódio na sociedade portuguesa”.

E tal como em várias partes do globo, em Portugal alguns símbolos ligados à figuras associadas à prática da escravatura estão a ser algo de contestação por parte de grupos sociais que se opõem ao racismo. (MM)

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