Sines “está preparado para receber” imigrantes “de todo o mundo” – autarca Nuno Mascarenhas

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Nuno Mascarenhas, presidente do município de Sines. FOTO: JC

Numa altura em que o custo de vida nas cidades capitais portuguesas aumenta vertiginosamente, Sines está preparado para receber pessoas de todo o mundo, vindas de África, Ásia ou das Américas. A garantia é expressa por Nuno Mascarenhas, presidente do município situado no litoral alentejano, em Portugal.

O autarca afirma que o concelho não sofre a pressão que têm Lisboa e arredores, o que facilita o processo de integração dos imigrantes. Mascarenhas falou ao Jornal É@GORA dias antes do fim do Festival Músicas do Mundo de Sines (FMM), cujo impacto na economia local será superior a três milhões de euros.

Micaela C. nasceu em Portugal. A lisboeta é filha de pai cabo-verdiano e mãe moçambicana. Trocou Lisboa por Sines, cidade do distrito de Setúbal onde vive há cerca de quatro anos. Abriu aqui um café por ser uma área de negócios que sempre gostou, mas também porque encontrou essa oportunidade aqui no concelho.

Quando cá chegou sentiu que “as pessoas eram muito acolhedoras” como em Cabo Verde. “Nada a ver com Lisboa”, afirma. “Acho que aqui não tenho razão de queixa”.

Também não têm razões de queixa os cabo-verdianos, brasileiros ou franceses e ingleses que se instalaram no concelho.
Muitos destes imigrantes passam pelo café, situado perto do Centro de Artes de Sines. “Eles são bem-vindos”, garante quando abordada pelo Jornal É@GORA, enquanto dentro do pequeno estabelecimento um grupo de três jovens dançava ao ritmo de música africana.

O que mais agrada a nossa entrevistada é o sorriso e o convívio entre as pessoas, sobretudo nesta altura em que a cidade acolhe mais uma edição do Festival Músicas do Mundo (FMM). Os “Tabanka Djaz”, da Guiné-Bissau, que dão um concerto nesta última semana, são a sua preferência, não tanto em comparação com “Os Tubarões”, de Cabo Verde. “Por isso” – diz com os olhos bem abertos –, “há pessoas que vêm de todo o lado, de Lisboa, do Porto, do Algarve, só para ouvir” a banda guineense.

Micaela qualifica “atrativa” a realização do festival também para quem faz negócios na área da restauração e hotelaria. Nesta altura, o que mais se procura no seu café todos os dias é a cachupa e o grogue, respetivamente prato e bebida tradicionais da terra de sua mãe.

“O festival traz consigo milhares de pessoas”

Com produção e direção de Carlos Seixas, o festival foi desde a primeira hora abraçado pela Câmara Municipal de Sines (CMS). O evento, já com 23 anos de existência, “tem um impacto tremendo na vida de Sines e dos concelhos limítrofes”, como afirma o presidente da autarquia, Nuno Mascarenhas, cujo mandato vai até 2025.

O impacto é notório também na vida das populações, sobretudo do ponto de vista económico, principalmente no pequeno comércio e na hotelaria. “O festival traz consigo milhares de pessoas à região, para além de continuar a ser um grande promotor da marca Sines”, afirma o edil, licenciado em Economia.

De acordo com as últimas estimativas da CMS, o impacto destes dias do FMM Sines na economia local será superior a três milhões de euros. Contribui para isso um terço dos concertos oferecidos por músicos oriundos dos países africanos, alguns deles imigrantes que escolheram viver na região, situada no litoral alentejano.

De referir que cerca de dez por cento da população de Sines é de origem africana, fãs do festival. A comunidade é já expressiva, existindo um bairro onde se instalou nos anos 60 grande parte de cidadãos cabo-verdianos que vieram trabalhar no setor das pescas.

O concelho não sofre, entretanto, a pressão que têm regiões como Lisboa e arredores, o que facilita o processo de integração das comunidades imigrantes. “Sim, não tem esse problema na dimensão que, se calhar, Lisboa tem”, reconhece o autarca.

Entretanto, lembra. “Temos aqui o concelho de Odemira, que tem tido alguns problemas nos últimos anos, fruto da vinda de muitas pessoas estrangeiras para trabalhar na agricultura. Mas isso é um caso pontual que, obviamente, as entidades estão a tentar resolver”.
Explica que, desde a construção do Porto de Sines, nos anos 60/70 do século passado, o concelho habituou-se a receber bem os estrangeiros. “Essas pessoas fazem parte da nossa comunidade e estão perfeitamente integradas”, assegura.

Portugal não deve fechar as portas

“Aliás, são uma grande força que movimenta todas estas coletividades e associativismo”, adianta. Daí que – assume – Sines está preparado para receber pessoas de todo o mundo, vindas de África, Ásia ou das Américas. O presidente da CMS lembra que “receber bem” faz parte “da nossa natureza”, integrando aqueles que precisam de melhores condições de vida, tal como aconteceu no passado com muitos portugueses que emigraram para outros países com esse mesmo objetivo.

“Toda essa comunidade, para além daqueles que nos visitam, acaba por ter aqui um papel muito importante” na vida do concelho, insiste Nuno Mascarenhas, admitindo que Portugal não deve fechar as portas porque precisa de mais mão-de-obra. “Mas precisamos também de perceber que para receber pessoas de outros países temos que ter condições para o efeito”. Defende, por isso, mecanismos de articulação entre o Estado português e as autarquias de forma a se criar condições para receber os trabalhadores estrangeiros, de modo a que também se possam sentir confortáveis quando vêm para um país diferente.

O autarca recorda, por outro lado, os projetos de integração que desenvolve com as associações de imigrantes de Sines e de Santiago do Cacém. Por exemplo, recentemente, com a guerra na Ucrânia, a CMS disponibilizou alojamento para acolher mais de três dezenas de pessoas desse país do leste europeu.
A instituição está envolvida em muitas outras atividades, que visam minimizar as dificuldades dos que chegam ao concelho em busca de uma vida melhor.

A par disso, desenvolve acordos de geminação com cidades africanas de língua portuguesa, a exemplo da parceria com Santa Cruz (Cabo Verde) e Pemba (Moçambique), estando em fase de conclusão o processo com Fortaleza (Brasil), fruto do investimento feito no cabo submarino.

“Estamos a trabalhar com várias entidades no intuito de fortalecer estas relações”, garante, tendo anunciado também o interesse em avançar, entre outros, com um acordo de geminação com o município de São Filipe, em Cabo Verde.

Sustentabilidade financeira e ambiental do FMM

Banda Kin’Gongolo Kiniata, da R. D. Congo
Na edição deste ano do FMM Sines, mais de um terço dos 42 concertos são também de bandas e artistas de origem africana, dando força à diversidade do festival, onde têm a possibilidade de mostrar as suas produções. Entre os músicos, de referir o caso de Lass, do Senegal, que, tendo resistido à emigração, acabou por fazê-lo, em 2008, estabelecendo-se na região de Lyon (França), onde não foram fáceis os primeiros anos como imigrante.
Entre outras, o FMM Sines também trouxe para o público a banda Kin’Gongolo Kiniata, da R. D. Congo, que canta temas de esperança e de perseverança, recheadas de mensagens de encorajamento para a sua geração. Alusão também ao Tinariwen (Povo Tuarege, do Mali), que, através das suas canções, cantam as causas do seu povo, misturando ritmos tradicionais da África Ocidental com blues, folk e rock. Desde o início dos anos 2000 que o grupo conhece sucesso global.

Esta diversidade ainda não satisfaz Micaela C. Ela quer ver o festival a acontecer todos os anos, mas aberto a mais culturas para conhecimento do público português de outras realidades. Nuno Mascarenhas garante que, pela sua natureza de serviço público, o festival deve manter-se nos próximos anos e considera “pedra fundamental” a figura do produtor Carlos Seixas, que esteve na sua génese.

“Naturalmente que há aspetos a melhorar”, admite, não só no plano ambiental como também em relação à própria sustentabilidade financeira do festival. (JC)

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