Sinfonia para uma tarde no Éden

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Miguel Luís (Jurista e cronista)
A voz do meu pai rodeada de espinhos para o meu primo depois de encontrar, em flagrante delito, o malandro com uma miúda,

quem engravidar não pense que vai trazer a mulher aqui.

Eu ainda muito novo, mas sem nenhuma dúvida de que a sentença também era válida para mim, porque desde aquele dia a mesma frase a dançar embriagada de seriedade na voz do meu pai e dali em diante ele para todos nós,

para mim não há enteado, não há sobrinho. Todos são filhos da casa e o tratamento é igual.

O céu da cidade muito bipolar hoje. Ora nublado e a deitar água cá para baixo, ora azul como o paraíso nas fotos daquelas revistas das Testemunhas de Jeová. Já agora sempre achei muita piada àquelas revistas, muita luz e cor nas fotos. A sério, sempre achei muita piada àquelas revistas, não pelo que vem lá escrito, porque para falar sério nunca me meti a ler, mas as fotos sempre me meteram muita piada. Um homem com a mão no dorso de um leão, como que a afagá-lo; ali ao lado crianças a brincarem na relva; uma mesa cheia de frutas, um rio com água limpinha e, para fechar, um desfile de pássaros no céu. Nenhum deles a chorar, ou faminto, apenas sorrisos húmidos estendidos na corda da eternidade como as fotos da nossa infância coladas na parede de casa. O paraíso deve ser mesmo uma coisa de jeito.

Não sei a que se deve esta toda conversa, mas a verdade é que eu sempre admirei o meu pai e há bocadinho, entre a estação de metro até ao escritório, deu-me uma saudade dele e liguei-lhe. Não sei se ele sabe, mas eu sempre admirei o meu pai. Quando criança, ele sempre me tratou por “chefe”; desde o dia da licenciatura, muitas vezes trata-me por “senhor doutor”, mas hoje, ai hoje, meu Deus, ele para mim

filho!

A verdade é que eu sempre admirei o meu pai. Quando criança queria ser como ele; ter colados na minha cara os mesmos óculos que ele; ter ao meio da cabeça a mesma ilha que lhe nasceu quando os cabelos começaram a cair-lhe; viajar para Europa como ele tinha feito nos 80 quando foi trabalhar para a antiga RDA; conduzir o carro como ele conduz; ter uma esposa linda e honesta como ele tem; ser um mar de honestidade e a ajudar os outros como ele; ter uma voz firme e respeitável como a dele; ser inteligente como ele e até ser sportinguista como ele. De modo que a minha alma engorda sempre que alguém para mim

tu és muito parecido com o teu pai!

Sei que estou muito metido a parvo neste dia em que o céu da cidade está muito bipolar, mas a verdade é que sempre admirei o meu pai e acabei de falar com ele. A minha mãe sempre conta-me com um ar de sofrimento fingido que quando eu ainda vivia no ventre dela, o meu pai não a deixava sossegar,

se ele não for parecido comigo não é meu filho!

Depois de três anos longe de casa, no mês passado estive com o meu pai. E, Deus que me testemunhe, ele continua a mesma pessoa batalhadora, simples, honesta e respeitável pela qual me apaixonei desde que me conheço por gente. Não frequentou nenhuma faculdade, não é nenhum doutor, nunca apareceu na televisão, mas eu sempre admirei o meu pai e eu era capaz de lhe dar um abraço agora. (X)

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