“Still-Life”: Uma homenagem de todas as mulheres que são filhas a todos os homens que são pais  

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FOTO: Margarida Dias ©

Ulika Paixão Franco
No final de Março deste ano projectei um espaço de diálogo e desconfinamento solidário com recurso às redes sociais, particularmente ao Instagram. Resultado da necessidade da partilha deste espaço esboçado em Março funcionou de abrigo a um processo de reconstrução pessoal colectivamente partilhada. Um pensar, falar, comunicar, dialogar, estar, ligar, agir, activar que dê lugar a um idealizar o recomeço da minha trajectória de evolução a partir das palavras e dos seus significados.

As primeiras conversas foram gravadas num perfil de Instagram privado, mas a partir de Abril as conversas acabaram por migrar para um perfil de Instagram aberto acessível em @agencia.upf, onde são transmitidas em Live, nesta Rede Social, as conversas semanais que giram à volta de vários temas. 

O confinamento em Portugal e o isolamento social foram mais pedras nesta minha mochila que carrego desde o dia 1 da minha vida. Às pedras somaram-se mais pedras a ocupar o lugar da dor desta filha que não sente o chão de Luanda desde 2018. Angola que tantas vezes serviu para me salvar tornou-se ainda mais distante no dia 13 de Março de 2020, data em que foi decretado o primeiro confinamento geral em Portugal, Lisboa.

Anualmente, sempre que o calendário marca 09 de Abril, ano em que o meu pai Adelino António dos Santos (Betinho) nasceu, sinto a dor de um Maio que se aproxima, que nunca sai do calendário. E por isso em Abril fui pensando mais um Maio de pedras, de lágrimas, de luto. E aquele dia 24 de Novembro de 2018 no Hotel Ritz em Lisboa, diante do Presidente da República da terra que viu nascer todos os meus, passou como uma sequência de um filme onde eu não queria estar, somente ouvir, um pedido de desculpa.

44 anos versados sobre o 27 de Maio em Angola, comecei esta semana numa homenagem a todos os homens que são pais.
 
No meu luto pedi ajuda a um dos meus mestres, o cidadão de Portugal e do Mundo Mendo Castro Henriques, professor na Universidade Católica Portuguesa de Lisboa, para me guiar neste meu silêncio que dói, falar comigo, ser uma voz a dizer-me que o Humano existe, a ajudar-me a compreender o que ia na cabeça do meu pai. Juntos planeámos a semana para, partindo de um perfil aberto no Instagram, analisar o pensamento Marxista e Comunista, compreender melhor o universo do socialismo utópico que tomou conta do pensamento e acção política dos jovens que, com o meu pai Betinho, em 1977 protagonizaram com sangue o 27 de Maio em Angola.

A conversa ficou dividida em duas partes, na 2.ª feira passada, dia 24 de Maio, às 21H30 na rubrica ReCriar Ibidem Idem Item Etc, espaço completamente dedicado à História do Pensamento e à Cultura, a viagem faz-se pelo pensamento Marxista e Comunista. Da União Soviética à descolonização, o Professor Mendo Castro Henriques foi a minha bengala numa revisão da importância dos escritos de Marx na Europa e no Mundo.

Numa segunda parte, integrada na rubrica ReActivar Activistas por um Melhor Mundo Possível, a ter lugar 5.ª feira, 27 de Maio, às 21H30, a tematização da importância do Marxismo e do Comunismo irá conduzir-me a mim, e a todos os que comigo viajam apoiando-me nas paragens em que a mochila se torna mais pesada, no universo de Leopold Sédar Senghor, no socialismo utópico de Nito Alves, esclarecendo a importância dos escritos de Marx no Pensamento Independentista dos Países Africanos.
 
Para o último dia da semana, 6.ª feira, dia 28 de Maio, reservei um lugar para pousar o meu coração a ReVer O Olhar das Imagens de Margarida Dias, prestigiada fotógrafa que conta no seu curriculum com cerca de duas dezenas de exposições individuais e outras mais colectivas, estando representada em colecções públicas e privadas, quer no estrangeiro quer em Portugal.

Falei com ela e combinámos que juntas revisitaríamos “Still Life”, uma colecção de fotografias de naturezas mortas que ela dedicou ao seu falecido pai e que eu lhe pedi emprestadas para dedicar ao meu pai. No fundo, desde Abril que sabia que Maio serviria de homenagem por todas as mulheres que são filhas a todos os homens que são seus pais.

Hoje, 26 de Maio, estava junto à televisão quando fui avisada de que o Presidente da República deste país que é a nossa terra se preparava para, num discurso ao país, pedir desculpas públicas a todos os familiares das vítimas do 27 de Maio.

Depois de ouvir o discurso fui procurá-lo no sítio online da Presidência da República de Angola. E lá estavam escritas as palavras ditas:

«Completam-se amanhã 44 anos desde os trágicos acontecimentos que enlutaram o país aos 27 de Maio de 1977, num momento em que se passavam apenas dois anos da proclamação da Independência Nacional, pela qual tanto lutámos. 

(…)

Caros compatriotas 

Não é hora de nos apontarmos o dedo procurando os culpados; importa que cada um assuma as suas responsabilidades na parte que lhe cabe. 

É assim que, imbuídos deste espírito, viemos junto das vítimas dos conflitos e dos angolanos no geral, pedir humildemente, em nome do Estado angolano, as nossas desculpas públicas e o  perdão, pelo grande mal que foram as execuções sumárias naquela altura e naquelas  circunstâncias. (…)» 

Amanhã, dia 27 de Maio, às 21H30 estarei a secar as lágrimas que jorram por dentro com o meu Mestre e Professor Mendo Castro Henriques.

Hoje, 26 de Maio, depois de ouvir, depois de ler, ando às voltas com a mochila, com as pedras, com o coração. Entre os nomes e os grupos de homens e mulheres que tombaram em 77 não encontrei a maçaneta que abre a porta do lugar onde repousa as ossadas do meu pai.

E agora?! Mais sozinha do que nunca peguei no telefone para falar com uma outra amiga, uma irmã de luto como eu. E depois a outra amiga, uma advogada, para lhe pedir que me represente, para lhe pedir que me ajude e que por mim interceda para garantir a dignidade das ossadas do meu pai. Sinto-me como um pássaro a quem abriram a gaiola após 44 anos e que com a soma das décadas nunca soube o segredo de voar.

E agora o que é que eu faço, se nestes 44 anos na gaiola não aprendi a voar? E agora meu pai, como é que vou ao teu encontro? Ao encontro das tuas ossadas para recuperar o tanto de ti, agarrar-te a mim e voar contigo em direcção a Malange para, naquela ponte sobre as águas do Rio Kwanza depositar os teus restos mortais e fazer as pazes, apaziguar as dores, largar as pedras e a mochila no nosso rio de lágrimas pintadas a sangue, no rio das nossas penas, nas águas em que nunca, eu tua filha e tu meu pai, nos banhámos juntos.

E as lágrimas de novo, tanto tempo dado ao tempo e continuo tão longe de te puder finalmente abraçar, apertar-te contra o meu coração e orar. Como farei eu, como viajar até ti e unir-me em nós, no nosso grande amor, intemporal, incondicional, o amor de uma filha por um pai.

Nesta altura lembrei-me do teu poema “África”, esse poema que no cárcere te afagava com o cheiro da nossa terra, para te responder com um outro poema escrito por mim: “Europa”, esta gaiola onde repousei tudo o que nunca consegui que os teus ombros amparassem. E é desta gaiola que agora aberta, eu, teu beija-mim, não sei como irei voar até ti.

Se tenho palavras para responder ao pedido público de desculpas do Homem, do Filho, do Pai, do Marido, do Irmão, do Tio, do Chefe de Estado, do Comandante, do General João Lourenço? Tenho. As minhas e as deles nos dois poemas que se seguem. No fim, leia-se sempre o “muito obrigada”. E que ao lê-lo se sonhe com o dia em que as asas de um pequeno pássaro se abram num abraço que se não chegar… Meu Deus, se eu não chegar?! Que cheguem estas lágrimas com mais de 4 décadas por afagar.

Muito obrigada!

 

E aquele até sempre de todos os dias.

 

ÁFRICA

 

Qual louçania

Num pensar ensosso

Estendal de insípidas aflições

De martírios

De feitiços malogrados

Nas cadeias miseráveis de escravidão

 

África carpindo

Manancial de gritos confrangidos

Entre as pedras escorre o sangue

O suor

As lágrimas

O Nilo passa

O vento voa

Tradições esquecidas

De heróis indómitos no sigilo

 

África

 

Qual vida mundana

Perante forças enraizadas

Nutridas de ódios seculares

De corações indivisos

 

Ó esperança de novos dias

De África em ressurreição

 

Kolkota (Adelino António dos Santos – Betinho),

in Poemas dos Campos da Morte (1976)

Cadeia de São Nicolau, Novembro de 1973

 

EUROPA

 

Do velho Continente nada trago de novo.

Como ele, deixei-me envelhecer.

– Pai, está na hora de me deixares

    voltar para casa.

 

Sozinha (Ulika Gisela da Paixão Franco dos Santos – Katika)

Lisboa, Portugal, Abril de 2019

 

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