“Tenho claramente uma agenda antirracista” – Beatriz Dias

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Beatriz Dias numero 3 do BE Bloco de Esquerda para as eleicoes legislativas 2019


É um dos rostos da comunidade afrodescendente que dá a cara nas eleições legislativas que têm lugar em Portugal no dia 6 de outubro. Defende intransigentemente os direitos dos negros na sociedade portuguesa. A agenda de Beatriz Gomes Dias, que concorre pelo Bloco de Esquerda (BE), com Catarina Martins à cabeça, é “claramente” contra as desigualdades. Se for eleita, afirma, promete lutar na Assembleia da República pela igualdade de direitos, pelos direitos dos imigrantes, entre os quais das mulheres negras que prestam serviço como domésticas, cuidadoras familiares e amas.

A jovem portuguesa nascida em Dakar (Senegal) no ano de 1971, filha de pais guineenses, surge discretamente na política como ativista anti-racista. Há doze anos que é militante do Bloco de Esquerda, depois de uma curta passagem pelo Partido Social Revolucionário (PSR).

Sempre foi votante que acompanhava todo o percurso do BE ao longo do tempo. Beatriz Gomes Dias participou como simpatizante na campanha de defesa da interrupção voluntária da gravidez e decidiu nessa altura oficializar a sua relação com o partido hoje dirigido por Catarina Martins.

Esta professora do ensino básico e secundário, licenciada em Biologia pela Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra, ocupa a terceira posição na lista dos candidatos do BE por Lisboa que desafiam um lugar a deputado nas eleições legislativas do dia 6 de outubro.

O centro da campanha eleitoral, iniciada oficialmente no domingo, que faz em nome do seu partido é “claramente uma agenda antirracista, com a ambição de transformar a vida das pessoas”. Tem em agenda medidas concretas, a começar pela alteração da lei da nacionalidade, sem depender das condições dos pais.

“Queremos que seja atribuída a nacionalidade originária àqueles que nasceram entre 1981 e 2006” e que ficaram no limbo jurídico porque, nessa altura, houve uma alteração da lei da nacionalidade, refere.

“Essas pessoas ficaram como estrangeiras no seu próprio país e não puderam tratar da nacionalidade por vários constrangimentos legais mas também sociais a que elas estavam sujeitas”, lamenta, sublinhando que isto irá transformar a vida de milhares de jovens negros em Portugal.

“Ter a nacionalidade permite candidatar-se ao emprego público. Ter a nacionalidade para um jovem desportista permite-lhe ser integrado nas equipas e não fazer parte daquele número de estrangeiros que as equipas podem ter. Ter a nacionalidade permite candidatar-se a bolsas”, exemplifica.


“É preciso diversificar a representação”

Candidata Beatriz Dias ocupa terceira posição na lista do Bloco de Esquerda

Uma das fundadoras e dirigente da DJASS – Associação dos Afrodescendentes, Beatriz Dias também defende a revisão dos manuais escolares de modo a alterar a visão eurocêntrica neles existentes. Ensinar a História deve incluir o seu avesso, afirma, concordando que a história dos antepassados negros não deve ser ocultada.

A reformulação dos manuais escolares é imperiosa. “Os materiais escolares são pensados para um estudante branco e não inclui outros estudantes”, contextualiza.

“Portanto, um estudante negro, afrodescendente, da comunidade cigana, indiana e chinesa que estude em Portugal não se encontra representado nos manuais escolares. Todas as personagens principais são jovens estudantes brancos”. E colmata: “é preciso diversificar a representação”.

Além disso, considera que é preciso pensar na escola e olhar para as taxas de retenção que afetam principalmente jovens oriundos das comunidades racializadas (afrodescendentes e ciganas).

Estas são três vezes mais retidas quando estão no ensino básico, no primeiro ciclo, e duas vezes mais no segundo e no terceiro ciclos. E, quando acabam este percurso escolar e passam para o ensino secundário, os jovens das referidas comunidades são encaminhados mais para as vias profissionalizantes.

“Nós precisamos de ter medidas que combatam este viés no percurso escolar, que está a ser criado, através de políticas públicas que consigam oferecer uma maior equidade na escola”, aconselha a professora de Biologia.

Combater o racismo institucional

Ela quer que sejam implementadas medidas de ação afirmativa, nomeadamente de políticas públicas de combate à discriminação racial e à desigualdade. A candidata do BE é a favor de quotas para o acesso ao ensino superior e ao emprego público.

“Portanto, esta é uma ferramenta política importante para combater a desigualdade”, sustenta, também preocupada com as questões da precariedade laboral.

Diz que os negros encontram-se representados maioritariamente nas profissões menos valorizadas, nas quais os salários são mais baixos, “sujeitos a uma exploração muito mais intensa do que os outros trabalhadores”. Esta é uma das manifestações de racismo institucional.

Ela aconselha a que se olhe para esta realidade, de modo a perceber por que razão há mais negros nestes trabalhos de modo a se criar políticas públicas de correção de tais desigualdades. Pede, neste caso, a regulamentação de algumas carreiras laborais nas quais estão maioritariamente representadas mulheres negras portuguesas e imigrantes, nomeadamente dos serviços domésticos, as cuidadoras familiares e as amas.

Beatriz Dias é ainda a favor do direito de voto para os imigrantes. É preciso alterar a lei da imigração de modo a se acolher algumas das diretrizes e modificações que ocorreram nos últimos anos na sociedade portuguesa.

Considera que é igualmente importante a inclusão da pergunta sobre os dados étnico-raciais nos Censos de 2021.

“Não desistimos para conseguir que esta pergunta seja incluída”, afirma, apesar do parecer negativo do Instituto Nacional de Estatísticas.

O programa eleitoral do BE engloba uma agenda multissetorial, com inquietações nas áreas do trabalho, da educação, saúde e habitação, incluindo o direito à memória e à História.

“São estas as medidas que vou apresentar ao longo da campanha e serão essas as que irão orientar a minha atuação caso eu seja eleita”, reafirma. (X)

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