Tóquio2020: “Se acreditares que consegues, vai” – Patrícia Mamona e os atletas lusos fruto da imigração

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FOTO: ANDREJ ISAKOVIC/GETTY

Manuel Matola

Aos 32 anos, Patrícia Mamona conquistou a medalha de prata no triplo salto dos Jogos Olímpicos Tóquio2020, onde vários atletas frutos da imigração em Portugal seguem o princípio lembrado hoje pela nova vice-campeã olímpica: “se acreditares mesmo que consegues, vai. Não desistas dos teus sonhos”.

Filha de pais angolanos, Patrícia Mamona tem um percurso marcado pela imigração que começou desde cedo: os pais saíram de Angola para Portugal e, mais tarde, para o Reino Unido. A atleta lançou-se à imigração quase duas décadas depois do seu nascimento a 21 de novembro de 1988 em Lisboa. Tinha 17 anos quando rumou para Carolina do Sul para tirar o curso de medicina, enquanto competia no circuito universitário da Universidade norte-americana de Clemson.

A partida deu-se cinco anos após o registo da falência do percurso migratório do pai em Portugal, que, mais tarde, teve que reunir os restantes membros da família no Reino Unido, antes de os britânicos abandonarem a União Europeia.

Mas, entre os filhos, apenas um não aderiu logo ao processo de reagrupamento familiar. Patrícia Mamona ficou em Portugal por causa do atletismo e para terminar os estudos. Quando ganhou uma bolsa aos 17 anos iniciou o seu próprio percurso migratório para sedimentar uma carreira que hoje deu o maior resultado desta luta individual: a conquista da segunda medalha olímpica de Portugal nestes Jogos de Tóquio.

Daí a sua reação à RTP: “Estou nas nuvens (…) Isto é estúpido, mas uma pessoa lembra-se de como começa” todo o processo, aliás, “disseram-me que era muito pequena, não tinha perfil de triplo salto e agora sou vice-campeã olímpica, tenho a segunda melhor marca do mundo. Estou a tentar ganhar consciência”.

Para a atleta, todo o esforço empreendido em quase duas décadas de treinos e lutas deve servir de inspiração para as demais pessoas, porque, acredita: “isto não é só talento, é trabalho. Se acreditares mesmo que consegues, vai” e “não desistas dos teus sonhos”, disse Patrícia Mamona entre lágrimas.

Portugal tem quase uma dezena de atletas que, fazendo fé ao lema seguido por Patrícia Mamona, conseguiram estar nos Jogos Olímpicos de Tóquio graças à luta pela integração em Portugal.

O atleta luso-cubano Pedro Pichardo, “o desertor cubano que escolheu Portugal”, segundo escreveu o DN, é um dos exemplos desta persistência que lhe permitiu ser hoje campeão da Europa ao conquistar a segunda medalha de ouro para Portugal nos Europeus de Atletismo de Pista Coberta, em Torun, Polónia. Saltou 17.30 metros.

“Ele nasceu para vencer e conquistar o lugar mais alto do pódio. Felizmente através do Benfica descobriu Portugal e a liberdade para o fazer. É reservado e grato! Focado e determinado”, disse Ana Oliveira do projeto Olímpico do Benfica, quando questionada pelo jornal para definir o atleta, que veio para Portugal como refugiado e “viu a sua naturalização demorar apenas alguns meses ao abrigo de um inicial estatuto de refugiado”.

O judoca Jorge Fonseca, que nasceu em São Tomé e Príncipe e é hoje português, tornou-se, em 2019, campeão do mundo na categoria de –100 kg. Este ano, 2021, é bicampeão mundial na mesma categoria e nos Jogos Olímpicos de Tóquio ainda conquistou a medalha de bronze também na categoria -100 kg. O seu processo de legalização foi fruto de luta da Associação Unidos Cavo Verde, localizado no Bairro Armador, na Amadora, concelho que alberga maioritariamente imigrantes.

Da lusofonia a outros espaços territoriais francófonos e anglófonos, nomeadamente a Nigéria, vários são os atletas imigrantes hoje naturalizados portugueses: a maior referência, também para Patrícia Mamona que hoje assumiu a responsabilidade de o substituir, é a que este domingo abandonará para sempre os Jogos Olímpicos: Nelson Évora, atleta português de origem cabo-verdiana, que é especialista em triplo salto, embora também pratique salto em comprimento. (MM)

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