Transtornos Alimentares em tempos de Covid-19

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Quando o alimento é o único remédio

Dra. Michele Miranda de Almeida
Consultora Nutricional
O que são os “Transtornos” ou as chamadas “Perturbações Alimentares”?
Significam um conjunto de distúrbios que têm como denominador comum uma preocupação intensa com o peso corporal, que produz comportamentos alimentares anómalos, com prejuízo para a saúde, incluem emoções, atitudes e comportamentos excessivos em tudo o que se refere ao peso e à comida. São, desta forma, perturbações de natureza emocional e física que podem colocar a vida em risco.
Encontram-se inúmeros tipos de perturbações alimentares, entretanto, os três tipos principais são: anorexia nervosa, bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar periódica.

Acontecem com mais frequência no género feminino, com representatividade de 90% dos casos. A sua prevalência é baixa, com variação de 0,5% a 4,2%. Ainda assim, são avaliadas como uma das perturbações mais comuns entre mulheres jovens. Todavia, o género masculino é igualmente vulnerável. Aproximadamente, 25% dos casos de anorexia na fase da pré-adolescência acometem os rapazes.

São várias as causas, apesar de ser túrbida, a reduzida autoestima ou forte insatisfação com a aparência física são características de personalidade que foram identificadas com predisposição ao desenvolvimento de perturbações alimentares. Ainda, os doentes com anorexia apresentam tendência a serem perfeccionistas e os com bulimia geralmente são impulsivos.
A influência da sociedade e dos grupos próximos como família e amigos parecem ser muito importantes. Considerações negativas sistemáticas e repetitivas sobre o corpo de uma pessoa, a participação em atividades físicas onde se destaca muito a imagem corporal, o envolvimento em situações traumáticas, também são razões que podem estimular uma perturbação alimentar. Algumas vezes, até um momento feliz, como o parto, pode provocar um transtorno alimentar, dado a mudança na imagem corporal. Após o transtorno estar estabelecido há uma tendência de perpetuar-se, sob a forma de círculos viciosos em que se come demais e depois se elimina o excesso ingerido, sendo estes comportamentos uma forma de fuga aos problemas diários.
Ainda que não se conheça a sua causa precisa, estas perturbações são complicadas e influenciadas por diversos fatores de natureza genética, biológica, psicológica a ambiental. No entanto, cabe uma “advertência” para o risco de transtornos alimentares aparecerem ou se agravarem em meio à pandemia.
“O periódico médico The Lancet publicou recentemente uma revisão feita por cientistas do King’s College de Londres sobre o impacto psicológico da quarentena decorrente do coronavírus. Após se debruçar sobre 24 estudos, eles concluíram que a maioria das análises revela repercussões negativas como sintomas de stress pós-traumático, raiva e confusão.”

Os fatores fundamentais por trás do stress diante da pandemia, estão o medo da infecção, a duração da quarentena, perda financeira, estigma, frustração, tédio, suprimentos inadequados e informações contraditórias. As crianças e adolescentes parecem estar principalmente em maior risco de estresse pós-traumático.

Como a pandemia afeta as “Perturbações Alimentares”?

Pessoas com transtornos alimentares têm um alto risco de voltar a encarar o quadro ou ver sua gravidade complicar em uma situação de quarentena e carência de tratamento psicológico e psiquiátrico devido à pandemia.
As modificações emocionais provenientes do stress das circunstâncias atuais se retratam no comportamento alimentar. Estes comportamentos variam desde comer demasiadamente através do aumento da frequência da alimentação, como o “beliscar” ou ter compulsão alimentar até impor restrição calórica severa.

Indivíduos com perturbações alimentares e outras condições simultâneas, como depressão, transtorno obsessivo-compulsivo, transtorno pós-traumático e transtorno por uso de substâncias, somando-se a cisma, a preocupação e a ansiedade desencadeadas pela Covid-19 podem intensificar a severidade do distúrbio paralelo, o que interage negativamente com o próprio transtorno alimentar.

A sensação de não estar no controle e o medo tende a acentuar em pessoas com distúrbios alimentares, normalmente é administrado com um aumento de restrições alimentares ou outros comportamentos extremos de controlo do peso. Desta forma, agravando os quadros de anorexia nervosa, esse comportamento se revela numa frustrada tentativa de permanecer no comando da situação.

Cabe ressaltar que pessoas com distúrbio alimentar e baixo peso possuem um risco aumentado a desenvolver complicações médicas associadas à desnutrição. Apesar de não se ter dados a respeito ainda, é bem provável que elas se exponham a maiores complicações da infecção pelo coronavírus.

Existe ainda um outro lado: sabe-se que o stress da pandemia e quarentena ocupam um papel predominante na degeneração de hábitos alimentares anteriormente saudáveis, a despeito de se conviver com um transtorno ou não. Porém, para quem tem tal condição, o distanciamento social e as restrições do isolamento podem, efectivamente, manter ou piorar o problema.

Alguns motivos podem provocar esta degeneração de hábitos alimentares como: menor possibilidade de se exercitar, o que amplia o medo do ganho de peso ou propicia o acúmulo de gordura corporal, no ângulo oposto, o armazenamento de alimentos não perecíveis, o que leva a maior consumo de bolachas, salgadinhos, pratos congelados, refrigerantes e afins, um grande potencial gatilho para episódios de compulsão; restringimento do relacionamento com outras pessoas ou, na contramão, maior tensão devido ao convívio intenso com outras pessoas da casa; isolamento como factor para os assaltos à geladeira e “orgias alimentares”.

O stress exerce um impacto poderoso sobre o apetite. Durante o isolamento devido à Covid-19 o que está sendo ingerido pode ajudar ou piorar sua condução. Ficar em casa para muitas pessoas, é um convite a comer um pouco mais, este comportamento pode ser repetido com mais regularidade, pelo stress e ansiedade do momento, há probabilidade de haver episódios de compulsão alimentar. Para se encaixar nesta situação, se faz necessário, que uma pessoa coma uma quantidade muito grande de alimentos, em um curto intervalo de tempo. E que esse comportamento não seja esporádico.
Independentemente da pandemia, o stress crónico, está correlacionado a uma maior prioridade por alimentos ricos em energia, com alto teor de açúcar e gordura. “Um experimento da Universidade Yale, nos Estados Unidos, descobriu que, sob ameaça (stress), até gafanhotos, que em geral se alimentam de proteínas vegetais como gramíneas, passam a comer mais plantas açucaradas”. De tal maneira, para os insectos como para os seres humanos, açúcar significa combustível rápido para alimentar o corpo e estar preparado para situações de risco, traduzindo para a realidade existente, se torna de mais fácil entendimento, por que muitas pessoas dão preferências por pizzas, batatas fritas e chocolates na quarentena. Neste momento de apreensão, o indivíduo procura açúcar, carboidrato e gordura para suprir a energia, desta forma, estes alimentos funcionam também como uma espécie de tranquilizantes naturais. Entretanto, o que parece uma solução no curto prazo se transforma em problema ao longo prazo. Aumenta-se o risco do aparecimento de várias doenças, como: obesidade, diabetes e doenças cardiovasculares, ao mesmo tempo que propicia crises de ansiedade e depressão.

O cérebro funciona bombeando um coquetel de hormonas como adrenalina e cortisol para a corrente sanguínea. Decorre do mesmo modo, a liberação de glicose estocada no fígado e nos músculos. Isto é, o combustível é queimado. Quanto maior o uso da glicose pelo corpo em reacção ao stress, mais acentuado será o apetite após a situação extenuante. E o ciclo se prolonga. Grande quantidade de cortisol a circular sucede na paixão por alimentos gordurosos e açucarados e esse desejo propicia depois culpa e mais stress.

A pandemia pelo novo coronavírus é muito grave do ponto de vista da saúde física e mental, pois coloca muitas pessoas em situação de alarme ativo 24 horas por dia. Contudo, o corpo humano não foi planeado para viver em stress crónico, nem sequer para utilizar os alimentos como alívio.

“Cabe destacar: É imprescindível cuidar da mente e das refeições para interromper esse círculo vicioso”.

FOTO: SNS
 A seguir algumas recomendações baseadas em ciência, para que o stress não consiga abalar de forma negativa a alimentação. É preciso fazer escolhas alimentares mais saudáveis para frear esse tipo de atitude.

 O propósito é incorporar “Conceitos do Mindful Eating”, a prática de uma alimentação consciente inclui, evitar alimentar-se enquanto desempenha outras atividades, zelando das refeições como uma atividade singular e com valor próprio. Sentar-se, comer tranquilamente e mastigar algumas vezes antes de engolir, apreciando texturas, aromas e sabores, o que é bem-vindo inclusive para a digestão e o corpo processar a sensação de saciedade (o que evitará exageros).

Privilegie alimentos nutritivos: um organismo nutrido de forma correcta, é mais resistente contra o stress e quedas na imunidade. Dê preferência a alimentos ricos em fibras e grãos integrais, são responsáveis por aumentar saciedade, são digeridos mais lentamente e ajudam a estabilizar os níveis de glicose no sangue. Priorize o consumo de fontes de ômega-3, gordura que protege o coração e nos defende da depressão leve, como: peixes, sementes e oleaginosas.

Atenção ao tamanho das porções: o indivíduo em casa, tende a ser mais prático, comer e beber diretamente nas embalagens. Não obstante, a prática de não medir e visualizar os alimentos conduz-se a aumentar a quantidade ingerida, o que proporciona o stress e o ganho de peso. Recomenda-se fazer as refeições em um prato. Estudos revelam que o uso de pratos menores leva-se a comer menos.

Repagine a reserva alimentar: investigações mostram que cercar-se de alimentos saudáveis aumenta a perspectiva de comer de forma adequada. Quando alguém está stressado, o apetite se concentra no que está à sua frente. Por esta razão, substitua as reservas de guloseimas e “junk food” por escolhas mais nutritivas e equilibradas (frutas, castanhas etc.)

Afastar-se do “comer emocional”: se faz necessário, desvincular o alívio das tensões com o conforto da alimentação. Ao invés de, descontar o stress na comida, procure minorar com outras atividades mais diligentes e saudáveis. Passeie com o cachorro, jogue um pouco com as crianças, converse virtualmente com um amigo, leia um livro, faça um curso online, ouça uma música relaxante, tome um banho quente…

Pratique o autocuidado: além da nutrição adequada, a boa saúde se fundamenta na manutenção de padrões de sono adequados e exercícios físicos regulares. Importante respeitar os horários regulares de sono (no mínimo 8 horas por noite) e ajustar uma rotina de atividade física ao ambiente doméstico.

Procure ajuda profissional: sendo percebida a dificuldade em normalizar os padrões alimentares ou a incapacidade de administrar o stress, o tratamento deve ser iniciado o mais precocemente possível, quando mais tardio for, mais difícil será alcançar bons resultados. Desta forma, esta terapêutica deve envolver uma equipa multidisciplinar (médico, psicólogo, nutricionista e/ou outros profissionais de saúde), de forma presencial ou remota para detetar e tratar os problemas físicos associados às perturbações alimentares e nutricionistas para desenhar o melhor plano alimentar em cada caso

“Em períodos como este, lembre-se de que a esperança existe ao lado do desespero. E ela é igualmente acessível”. (X)

Data da última revisão: 17 de Junho de 2020
Fontes consultadas:
Website oficial do Hospital CUF
Website oficial da Associação Brasileira de Psiquiatria
Website oficial https://saude.abril.com.br/
National Eating Disorders Association, 2014
American Psychological Association, 2015
American Psychiatric Association, 2014

Referências:
Prisco, APK e col., Prevalência de transtornos alimentares em trabalhadores urbanos de município do Nordeste do Brasil, Ciênc. saúde coletiva [online]. 2013, (18, 4): 1109-1118

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