Um ilustrador precisa de um coach de desenvolvimento espiritual? Sim, porque “tudo se conecta” – Rúben

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A escritora portuguesa Marisa Pedrosa, coach de desenvolvimento espiritual, e o artista plástico moçambicano Rúben Zacarias ©

Manuel Matola

Para os leitores mais atentos do Jornal É@GORA, o nome Rúben Zacarias pode parecer familiar. Talvez pelo facto de ser o responsável pelas ilustrações do livro “Na Rota Das 7 Luas”, que foi alvo da entrevista divulgada há dias nesta publicação que ecoa a voz da imigração em Portugal. Hoje, o moçambicano Rúben e a portuguesa Marisa Pedrosa são protagonistas numa conversa-balanço da exposição ‘Sonhos de um Camaleão’, fruto de cruzamento de dois campos distintos da natureza: a arte e a espiritualidade. “Eu sou escritora, o Rúben é artista plástico e nós sabemos que a arte convida as pessoas a essa elevação”, diz ao jornal É@GORA a escritora, editora e coach de desenvolvimento espiritual. Os dois artistas analisam o percurso feito até aos dias de hoje, os trabalhos realizados até ao momento e a produtividade em contra-ciclo durante a pandemia.

Em que dias decorreu a exposição?

Marisa (M): Decorreu dia 31 de julho e 1 de agosto.
Rúben (R): A exposição foi intitulada ‘Sonhos de um Camaleão’. Era uma exposição que carregava uma série de valores estéticos, sociais e morais que eu tenho vivido. Como a questão do feminismo, da conservação ambiental, desenvolvimento espiritual e outras vertentes de linguagens.

Em termos de quadros, quantos é que foram expostos?

R: Estiveram expostos 15 quadros e cerca de 35 ilustrações em diversos dias, porque a exposição foi em dois dias. A exposição foi na Tane Timor, uma organização que trabalha na defesa de causas timorenses, e tivemos uma média de 70 pessoas nesses dois dias. E não foram só os meus trabalhos. Também estavam representados trabalhos da Reserva do Niassa que tem um grupo de artesãos, Kushirika, que trabalham com mensagens que têm a ver com a conservação ambiental. Então também levei as peças deles que são feitas de reciclagem, chinelos, mantas, entre outros.

Isto são vivências de Moçambique ou de cá?

(R): Foram universais. Algumas mais de Moçambique, como o feminismo e o ativismo social da conservação ambiental. Mas existe uma outra parte ligada ao lado de cá. Mesmo estando em Moçambique fiz com a Marisa um trabalho de desenvolvimento espiritual.
(M): Na exposição, para além dos quatros do Rúben, estavam t-shirts de uma linha de roupa que ele criou. São t-shirts com os quadros dele impressos. Também estavam baralhos de cartas com os arquétipos que ele tem feito como empreendedor e artista plástico. Em cada baralho do Rúben eu faço guiões para que a pessoa possa ter a experiência que pretende: guiões para a pessoa trabalhar o marketing digital, ou o seu autoconhecimento.

Há quanto tempo está a decorrer este trabalho e como o Rúben começou?

R: Eu começo a pintar de forma autónoma em 2010, mas em 2009 foi quando fiz o curso de desenho, pintura e artesanato do Binda, na cidade de Quelimane [centro de Moçambique].

A partir dai, como é que chega a esta internacionalização dos temas?

R: A internacionalização chega com muitos descobrimentos porque a minha pintura tem a particularidade de não passar, simplesmente, a questão estética. Na minha jornada eu fui bebendo de diversas fontes. Da minha mãe, da minha avó, dos meus amigos, dos livros que li. Isso foi-me abrindo outras perspetivas. Mas comecei a internacionalização nos Leigos [Voluntários] Dehonianos que estavam em Alto Molocué. Os leigos viram os meus trabalhos e foram os primeiros a exporem os meus trabalhos aqui, em 2012. Dai fui trabalhando com os Voluntários do Corpo da Paz que foram fazendo exposições noutros sítios, como os Estados Unidos, Japão, República Checa. E foi assim até chegar aqui.

Estamos a falar do início de 2010, com que idade o Rúben começa?

R: Comecei a pintar com 15 anos.

Voltando à exposição e à temática que aborda. Esta ligação entre a natureza e os problemas globais e a questão da espiritualidade é algo intrínseco ou é algo que se está a desenvolver a pouco e pouco por causa da consciência que as pessoas vão tendo?

R: É algo intrínseco, mas quando conheci a Marisa ela fazia o trabalho de forma mais ampla através dos workshops que tem feito de liderança pessoal, há muito mais tempo e muito mais experiência. Ela percebeu que eu tinha esta capacidade de interiorizar, ver as coisas de uma maneira diferente. E propôs-me esta parceria de trabalharmos juntos. Foi ai que eu mergulhei no desenvolvimento espiritual e liderança.
M: Também importa dizer relativamente ao trabalho de liderança e desenvolvimento espiritual que eu e o Rúben fizemos uma formação em arquétipos durante um ano. Então, cada um de nós, começou a desenvolver um trabalho de desenvolvimento espiritual dirigido a grupos diferentes. O Rúben, jornadas de integração viradas para homens, a jornada do herói alquimista. Eu virada para um grupo feminino nas suas várias dimensões. Depois como tenho um grupo no Facebook [que usamos como] uma plataforma de divulgação do que nós fazemos. Relativamente à conservação também importa dizer que o Rúben tem pintado murais na cidade e já foi convidado por duas Reservas de Conservação, nomeadamente, da Gorongosa e do Niassa, para pintar murais dentro da Reserva. Isso depois faz com que no dia-a-dia promova a conservação e uma relação saudável Homem-Animal, mas depois também é convidado para os sítios que vinculam esses valores para poder deixar a sua obra como inspiração.

O trabalho que está a ser feito, está a ser replicado do ponto de vista de ensinamento a outras pessoas ou é apenas no seio da vossa instituição. Há mais pessoas que estejam a ser ensinadas?

M: Não, não estamos a replicar o trabalho que fazemos. O que acontece é que à medida que o Rúben vai ganhando mais espaço como artista plástico, formador ou ilustrador de livros de literatura infantil, e eu como palestrante e como líder o que acontece é que vamos englobando outras pessoas nestas dinâmicas de trabalho. Ou seja, aparecem mais pessoas a editar; o Rúben é convidado para pintar mais murais, mas não no sentido de estarmos a passar isto a outras pessoas como formação.

Relativamente à questão de espiritualidade, Marisa, os dias de hoje merecem mais atenção à espiritualidade do que apenas as questões climáticas e outros problemas globais que temos estado a assistir?

M: Eu penso que isso é uma questão ´matrioscada`. Quando nós temos um desenvolvimento alicerçado e espiritual somos sensíveis ao todo. À conservação do planeta, à empatia como tratamos o outro, os valores que passamos na nossa relação amorosa, à honestidade com que fazemos o negócio. Eu acredito que, principalmente, nesta altura da Covid-19 em que as pessoas sentiram medo, ansiedade e estão a ser confrontadas com a morte, o desenvolvimento espiritual é a âncora que nos pode manter estáveis, equilibrados, serenos perante as adversidades. Dai eu e o Rúben trabalharmos tanto essa dimensão. Eu sou escritora, o Rúben é artista plástico e nós sabemos que a arte convida as pessoas a essa elevação. Mas com o desenvolvimento espiritual nós queremos despertar recursos e ferramentas para que quando as pessoas forem confrontadas com uma série de situações difíceis tenham mais recursos internos para estarem serenas na situação.

O Rúben vai a Moçambique. O que é que tem presente em termos de planos para o trabalho que foi feito aqui e que vai continuar a fazer. Como é que vão articular o vosso trabalho?

M: Continuamos a trabalhar à distância através do zoom.
R: Tenho a certeza que num futuro não tão distante estarei de volta porque tive muitos convites de diversas instituições e escolas primárias: Amarante, Braga, Sintra e outras, para que pudesse fazer diversos trabalhos. Não temos datas, mas brevemente estarei cá não só para trabalhar como artista, como também com o desenvolvimento espiritual e quando é presencial tem outro peso, obviamente.

Do ponto de vista do retorno daquilo que vocês têm estado a fazer, qual é o alcance que conseguem ter, ou seja, aquilo que é feedback das pessoas com quem têm trabalhado?

M: O feedback é ótimo. O Rúben tem tido cada vez mais convites de pessoas que querem trabalhar com ele nas mais variadas dimensões, em Portugal. Quando o Rúben criou as t-shirts, vendeu-as a pessoas que estavam no Brasil, Estados Unidos. Há uma dispersão do impacto, mas fundamentalmente estamos a falar de Portugal.

As t-shirts que o Rúben faz são inspiradas em alguma coisa de Moçambique?

R: As t-shirts são impressões das pinturas que faço em tela. As minhas pinturas são sobre Moçambique, África, a mulher, o desenvolvimento espiritual, coexistência. Essas diversas linguagens plásticas que tenho adotado são as mesmas que são estampadas ou impressas nas t-shirts. Ou seja, é uma maneira que encontrei de facilitar as pessoas que não conseguem comprar o quadro poderem comprar uma pintura com a mesma qualidade. E com a vantagem de vestirem a obra de arte.

Há algum plano para fazer as pinturas em outros trajes para além das t-shirts?

R: Sim, esperemos que seja o passo a seguir. Mas, para além das t-shirts também estão nos cadernos e acabaram quase todos no primeiro dia da exposição. Tem tido muito escoamento e depois quem sabe fazer em garrafas de vinho.
M: Também pode haver um salto para os lenços porque é um objeto muito forte e que o Rúben costuma mencionar nas entrevistas.

Face aos problemas globais que temos hoje, é possível ser-se um artista sem tocar a parte espiritual e a da natureza?

R: Sim, eu acho que é possível. Existem muitos artistas que fazem isso. Que pintam sobre a tecnologia e diversas temáticas. Mas para mim a arte é um todo, tudo se conecta. Uma arte que está enraizada no desenvolvimento espiritual, porque é a nossa essência, é uma arte universal. Os valores que são retratados e passados, são valores universais que uma arte suportada por questões tecnológicas ou académicas. Depois ficamos a boiar na superficialidade das coisas. Essa é a parte da espiritualidade. A espiritualidade, para mim, é a presença completa de tudo o que nós sentimos e a interpretação mais atenta das coisas que fazemos é a arte. Será esse sentir completo e curado que será transmitido de forma poética.

O que é que as edições Matrioskas têm apontado para o ano de 2021?

M: As edições Matrioskas têm trabalhado imenso durante a Covid-19. As pessoas tinham muitos livros na gaveta e começaram a escrever. Neste momento estão na calha muitos livros de literatura infantil, alguns dos quais vão ser ilustrados pelo Rúben Zacarias. Eu própria que sou escritora e editora vou escrever para crianças. Se as edições Matrioskas continuarem ao ritmo que tiveram durante o confinamento diria que estão num ponto que estão imparáveis. Com o confinamento, as pessoas tiveram muita vontade de publicar. De fazer coisas. Como editora desejo que os livros sejam em papel, que possamos ter muitos exemplos de áudio livros, que na minha opinião vão ser o futuro. As pessoas querem estar a conduzir, a cozinhar, carregar no play e ouvirem o livro. Espero que tenhamos muitos livros nesse suporte e mesmo que tenham ilustrações, que os possamos transformar em ficheiros com imagem e som. No fundo é perpetuar estes valores que o Rúben dizia. A estética, a ética de ser algo sempre profundo alicerçado numa espiritualidade e no facto de sermos todos um. No final nós queremos todos ser humanos e estar plenos na nossa vida. (MM)

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