Um retrato da sina de Gabriela, a imigrante moçambicana tramada pela Covid-19

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Precidónio Silvério

A história de Gabriela Camacho, moçambicana, de 39 anos, é exemplo da sina da maioria de cidadãos e imigrantes espalhados pelo mundo que tiveram de ficar em terra desde o encerramento das fronteiras aéreas devido à pandemia da Covid-19.

Gabriela trabalha e é radicada na Alemanha, mas foi tramada pela Covid-19 em Moçambique quando ia oferecer uma casa à mãe.

Esteve em Maputo entre fevereiro e julho, para ver a família, especialmente, a sua mãe que se encontrava doente. A ideia era ficar alguns dias, mas a notícia de suspensão dos voos intercontinentais veio desfazer todo o seu roteiro.

Para voltar à Alemanha, ela teve Lisboa, capital portuguesa, como porta de entrada. Mas contou ao jornal É@GORA que inicialmente não queria ter feito esse trajeto. Teve que comprar outra passagem e, consequentemente, mudar do itinerário.

Gabriela Camacho
Em fevereiro, chegou a Maputo com uma passagem cuja trajetória foi de Alemanha-África do Sul-Moçambique. No regresso, a imigrante tinha de seguir a mesma rota, mas tal não mais aconteceu.

Gabriela já está na Alemanha, há duas semanas. Seguiu num dos últimos voos da companhia aérea portuguesa, TAP. Sem escolha, teve que comprar uma nova passagem e seguir o trajeto.

A moçambicana lembra-se das mazelas de retenção, sem saber quando a página iria virar. O estresse já se lhe percorria a alma.

“Tive que fazer uma nova passagem e ter que mudar da rota (…). Nem sei se ainda consigo recuperar o bilhete perdido. Cancelaram-me o voo por quatro vezes, isso para mim foi puxado e o feedback sobre novos voos era muito fraco”, conta Gabriela.

“A companhia da primeira rota nunca atendia minhas chamadas, nem os e-mails, regressar para casa ficava cada vez mais estressante com a falta de informação. Daí que me vi obrigada a ter que usar Lisboa para regressar a Alemanha”, lembra-se.

Um “stress” por uma causa melhor

Não foi somente a enfermidade que levou a nossa interlocutora para Maputo. Foi também uma causa, um sonho que Gabriela tinha por realizar para a sua mãe: o de ofertá-la uma casa. E cumpriu-se o desejo.

“O meu maior objetivo, o de ir a Moçambique, era oferecer uma casa à minha mãe. Ela vinha passando dificuldades. Para mim isso foi bom. E, com a inconveniência da epidemia, pude também ficar mais tempo com a minha família”, refere.

Mas rapidamente esclarece: “Não é uma mansão, mas é uma casa de família. Estou feliz em poder realizar um sonho meu e da minha mãe, dar à ela o seu canto. Por causa de covid-19, tive que ficar mais tempo, o suficiente para rever os amigos também”.

Regresso ao trabalho e a vida continua

Incertezas à parte. Com a nova rota (Maputo-Lisboa-Alemanha), Gabriela finalmente conseguiu viajar e já voltou à sua vida “normal”, pelo menos pessoal e profissional, até porque a estas alturas é um tanto controverso dizer que tudo corre bem.

Mesmo depois de muito tempo diga-se, despropositadamente, fora do trabalho, nada se lhe perdeu. Os patrões da Gabriela entenderam, tanto que a receberam efusivamente. Colegas de serviço também se ofereçam a bem recebê-la, quão grande é a prova de apreço a outrem, principalmente neste período.

“Retomei o meu trabalho nesta segunda-feira. Graças a Deus, não perdi emprego algum. Foi um óptimo welcome dos colegas e dos chefes. Estou feliz ainda por saber que estou bem. Quando cheguei, logo no aeroporto, passei por teste de detenção do vírus e deu negativo”, regozija-se Gabriela Camacho.

Com mais de 214 mil infeções, nem tudo está parado na Alemanha. As pessoas vão à rua, mas é preciso respeitar a etiqueta de prevenção, como o uso da máscara em locais públicos, desinfeção das mãos, distanciamento, entre outras medidas. Até porque o país está na lista de um dos melhores exemplos mundiais no combate à pandemia.

Seja por isso que Gabriela pode sair para o seu posto de trabalho, para fazer exercícios físicos, por exemplo.

“Continuo a minha rotina. Posso ficar com amigos, fazer o sport, mas isso é naquela base de todo o cuidado, a higienização necessária. A vida tem regras e a gente tem por isso que respeitar. Feliz estou por estar de volta, apesar de já sentir saudades”, contou.

Gabriela sabe que quando a nova pandemia passar, várias memórias vão ficar. As pessoas jamais se esquecerão de seus ente-queridos finados pelo flagelo de uma doença que ainda se desconhecem suas origens. Quem tiver recuperado, lembrar-se-á, dolorosamente, de dias e noites passados de gemidos da dor causada por um vírus letal.

Com a eclosão do novo coronavírus, quase tudo fechou, mesmo com um razoável desconfinamento, a luz parece estar ainda escura. Há uma aparente e gradual reabertura de fronteiras terrestres e aéreas, mas o mundo ainda continua cerrado.

De março à esta parte, os voos internacionais entre Portugal e Moçambique e outros países lusófonos estão suspensos.

As portas entre as nações só se estão abrir por meio de abrigos diplomáticos, tal é o caso dos recentes voos humanitários e de repatriamento que partem de e para Portugal.

Com estes voos, mais de 700 moçambicanos já saíram do sufoco de ficar retidos em Portugal onde são imigrantes. (PS)

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