“Vejo a Esquerda a avaliar o racismo de forma incorreta. É um fenómeno económico” – Vítor Ramalho

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Secretário-Geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA)

Manuel Matola

O advogado luso-angolano Vítor Ramalho, uma das figuras mais influentes da política no espaço lusófono, considera incorreta a forma como os partidos da Esquerda estão a avaliar o racismo em Portugal.

“O racismo tem uma razão de ser económica”, diz o secretário geral da União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa (UCCLA) em entrevista ao Jornal É@GORA, sobre um fenómeno “relativamente novo na dimensão que está a ter”, que deve ser combatido, mas… “não pode ser tratado dessa maneira”.

Acompanhe a segunda parte da conversa com Vítor Ramalho, que fala sobre o futuro da UCCLA, da CPLP e do populismo, um tema cada vez mais fraturante que desde a última semana tem dividido as próprias organizações e os coletivos antirracistas e antifascistas em termos de abordagem. Acompanhe:

O Estado português tem noção da verdadeira dimensão dos atos de populismo protagonizado pela extrema direita que se assiste nos últimos dias?
Eu acho que devia ter a consciência disso. Não tenho a certeza se tem. É um fenómeno, em Portugal, relativamente novo na dimensão que está a ter, sendo que o populismo se alimenta dos seus contrários. Vou dar um exemplo claro: o racismo que é uma realidade. Eu vejo a Esquerda a avaliar o racismo de uma forma incorreta. O racismo tem uma razão de ser económica. Se eu num prédio da classe média alta tiver várias pessoas de origem média que vivam aí, a diferença que nós todos fazemos uns dos outros é quase inexistente em termos de respeito e reconhecimento. Mas se eu estiver num bairro degradado, pobre, marginal, portanto, nesse sentido, e lá viverem pessoas de várias etnias, a reação que eu tenho perante o bairro é igual para todos. Eu faço pouca distinção. Portanto, o combate a esse fenómeno do racismo, tal como o Marx dizia – lê-se pouco o Marx – é um fenómeno económico. Portanto, a luta contra o racismo tem que ser a luta contra a pobreza: a luta contra a eliminação de bairros degradados, a luta pela dignidade da economia, da dignidade do trabalho, da valorização do trabalho e não o contrário. Não significa isso que não haja expressões de massas em que este fenómeno não está presente. Exemplo: um jogo de futebol. Sob calor da emotividade, porque aquilo é irracional, quer dizer, eu desejar que o meu clube ganhe de qualquer maneira, é uma coisa pouco racional. É como a fé pela fé. Tenho fé pelo meu clube. Pronto, quero que aquele clube ganhe. E se eu por ventura pegar no calor das massas (não devemos fazer isso, e é super criticável, até é crime) começar a insultar as pessoas pela cor da pele – alguém pode dizer-me que isso não tem a ver com economia, porque os jogadores até são economicamente da elite. É verdade, mas é reação das massas em função de um fervor. Como é que nasceu Hitler senão através da Psicologia coletiva do incentivo das massas através de objetivos completamente irracionais? Portanto, é essa lógica que está presente. Por isso, eu não sei se vai haver espaço para pedagogicamente nós dizermos que isso não pode ser tratado dessa maneira.Tem que ser tratado de outro, senão às tantas nós baralhamos tudo.

O caso das estátuas…
Quando vi a destruição da estátua do Padre António Vieira como se fosse um colonialista eu pensei: aquilo é coisa que (demonstra) que às vezes as massas reagem de qualquer maneira. Esse homem foi defensor dos índios no Brasil, das minorias. Foi um homem que escreveu sobre a escravatura. Foi um homem que pregou em Cabo Verde, no Brasil e aqui, mas mais no Brasil e em Cabo Verde sobre a defesa da igualdade. Quer dizer, às tantas, o populismo degenera também. Para lhe responder o seguinte: não sei se vai haver espaço face à situação social que vai ser criada no mundo para que esses fenómenos possam ser tratados de uma maneira que eu estou a dizer. Vai haver muita emotividade, muito calor sobre as coisas, vai haver muita resposta epidérmica.

“Portugal e outros países podiam dar um contributo maior em Cabo Delgado”

Qual é a discussão que está a ser feita ao nível da UCCLA e os seus membros do espaço lusófono sobre o pós-covid?
A minha preocupação desde que vim para a UCCLA tem dois objetivos: o primeiro, é valorizar o que foi a luta comum e todos os nossos povos pela dignidade e independência. Eu tive uma preocupação desde a primeira hora muito grande que foi de introduzir nos nossos países aquilo que estava esquecido: o papel dos jovens de todas as origens que vieram estudar para Portugal e que, a partir dos anos 60, acabaram, fruto da enorme generosidade que tinham, por criar na Casa dos Estudantes do Império uma solidariedade que conduziu que 140 desses jovens abandonassem tudo para irem solidarizar-se com os seus irmãos nos seus países de origem na luta pela independência. Eles eram da sociedade civil, mas tinham a força das ideias e estavam ao ritmo do seu tempo na luta e defesa das independências. Quando aqui cheguei acalentei sempre a necessidade de fazer valorizar o papel desses jovens na luta pela liberdade e pelas independências e da generosidade que tinham, para (serem modelo) aos jovens de hoje e dirigentes, até porque esses jovens não se moviam por dinheiro. Eles não roubavam. Eles queriam mesmo objetivos nobres da defesa dos seus concidadãos e da liberdade. E depois tiveram uma caraterística comum que era: como todos estavam sob a opressão, incluindo o povo português que às vezes se esquece que estava sob regime ditatorial, um dia que esse regime caísse – e eles contribuíram muito – as colónias passavam à independência e Portugal passava a ser um país livre, como sucedeu. Portanto, eu orgulho-me muito de ter denunciado, no bom sentido, o que foram esses jovens, e o papel que teve a Casa dos Estudantes do Império. Quando comecei a fazer isso aqui muita gente dizia que eu ia tocar numa coisa colonial, porque a Casa dos Estudantes do Império era colonial de facto. Mas não. Eles dentro da Casa “rebentaram” com a casa colonial e fizeram uma coisa lindíssima. Portanto, tive essa preocupação. E essa preocupação deu que nós publicássemos livros que eles editaram, que houvesse vários documentários sobre a Casa dos Estudantes do Império e que hoje toda a história dos nossos países para ser bem feita lá têm a Casa dos Estudantes do Império, que teve um papel pioneiro nisso. Portanto, era a sociedade civil a funcionar. Segunda preocupação que tenho tido, que esbarra com condicionalismos também das dificuldades económicos financeiras que cada um dos nossos países está a ter, é políticas de proximidade. Enquanto os Estados estão distantes – um Estado para dialogar com outro tem de ser com grande protocolo, em reuniões enfatizadas numa lógica diplomática – quando se trata de políticas de proximidade entre as Câmaras isso não existe ou existe pouco. Portanto, a preocupação que eu tenho e sempre tive é de fomentar essa política de proximidade através de espaços que são comuns, de debates aqui na UCCLA, publicações de livros, encorajamento de livros, criar plataformas sociais que possibilitem uma grande divulgação destas matérias (sobre) livros que foram publicados, o que nós estamos a fazer, o que as cidades estão a fazer, uma por uma, independentemente de ser UCCLA a desenvolver, porque isso é uma forma de aproximar o que a CPLP não pode fazer, porque a CPLP trata de Estados.

Esta estratégia vai manter-se ou haverá uma nova abordagem no pós-covid?
A seguir o pós-Covid, quando isso terminar, eu tenho uma ideia clara que resulta de começarmos a pensar como se faz o relançamento económico dos nossos países.

A chamada diplomacia económica
E tenciono, eventualmente, promover várias iniciativas nesse sentido. Nós já começamos embrionariamente uma: tivemos aqui um informe dos economistas das Cidades de Língua Portuguesa. Estávamos para fazer o segundo em Cabo Verde, infelizmente a Covid-19 impossibilitou-nos. Várias coisas que não podemos fazer vamos tentar fazer. Agora no dia 17 de setembro haverá uma iniciativa de um fórum económico. Estava para ter lugar a assembleia geral da UCCLA em Brasília. Também não pôde ter lugar. Era uma forma de aproximar os nossos povos através das Câmaras e governos provinciais, até porque o Brasil é um país com um peso negligenciável no mundo. Não apenas pela densidade populacional, mas também o que representa na América Latina. E é importante que nós vejamos os seguinte, como o terceiro papel: neste mundo global se nós fizermos uma consciência estratégica da importância dos nossos países e povos nós caminhamos muito mais para reforçar aquilo que nos une do que aquilo que nos divide. Todos os nossos países fazem fronteira com o mar. Mais de 90 por cento do comércio mundial de troca de bens é feito por via marítima. Isso é uma riqueza enorme. As Nações Unidas estão a discutir agora o alargamento da zona económica exclusiva. Nós, os países de língua oficial portuguesa, vamos ficar com a quarta zona económica exclusiva do mundo. Somos o (conjunto de países) que fala a primeira língua mais falada do Atlântico sul. Se nós tivéssemos ousadia estávamos a tratar de: primeiro, que a defesa do Atlântico sul tivesse o nosso contributo (CPLP), o que aproveitava a todos os nossos povos, particularmente, aos países do Atlântico sul, por exemplo, Moçambique. Isso daria para uma resposta conjunta ao Daesh (em Cabo Delgado), aos ataques que são feitos já no Golfo da Guiné e na zona da Somália. Temos meios. O Brasil tem das maiores frotas marítimas do mundo. Aliás, os nossos contributos não são negligenciáveis também. Por outro lado, isso vai representar com institucionalização, ou pode, do português ser uma língua oficial no mundo, nomeadamente nas Nações Unidas. Somos a quarta língua mais falada do mundo e por que não se fala o português nas Nações Unidas? E mais: temos a quarta zona arável do mundo com várias riquezas, e o que representa para todos nós é intraduzível. E o que isso significa? Significa a língua como fator económico de desenvolvimento. Nós temos que aprofundar essa questão da CPLP. Eu acredito que o facto de Angola ter no próximo quadriénio a presidência da CPLP possa dar um contributo grande. Contributo que tem que alargar à mobilidade dos nossos países. Evidentemente que não podemos abrir e toda gente circular. Isso não é pensável. Temos constrangimentos a nível da SADC e União Europeia, mas podemos perfeitamente estabelecer mecanismos que possibilitem que as pessoas da imprensa possam circular entre os nossos países, os empresários que tenham interesses noutros países de língua portuguesa que possam também fazer, os homens de cultura (até porque) a cultura dos nossos países é verdadeiramente impressionante à escala planetária. Na música, literatura… Eu não me admirava nada se um dia desses o Mia Couto fosse Prémio Nobel da Literatura. Ainda agora morreu o Waldemar Bastos que todos ouvem. As nossas músicas nasceram numa miscelânea do encontro de culturas que nós tivemos. Nós somos os únicos povos com uma mesma língua em que todos participam na estrutura que críamos, que é a CPLP. Mas ninguém tem isso. Por exemplo, os Estados Unidos da América não fazem parte da Commonwealth. A Espanha para estabelecer relações com a América Latina tem que fazer com a Comunidade Ibérico Americana. Nós temos uma riqueza que resultou da natureza do no nosso encontro de culturas e não estamos a aprofundar isso. Eu não compreendo, por exemplo, as dificuldades que se estão a viver em Cabo Delgado (norte de Moçambique), que os nossos povos e países não tenham uma resposta a dar. Isso tem a ver com todos: connosco e com o mundo.

Mas o que está a falhar?
Está a falhar a ausência de uma perceção estratégica relativamente a todos os nossos países sem exceção. É não perceberem o que se está a passar no mundo e a importância de nesse mundo global nós sermos uma potência de facto, se nos juntarmos. Mas juntarmos com estratégia, priorização e com convergência. Fazemos coisas bem feitas, mas depois…Por exemplo, o engenheiro António Guterres acabou por ser eleito secretário-geral das Nações Unidas por mérito próprio, como é evidente, até porque aquilo foi por concurso, mas há um esforço que cada um dos nossos países fez junto de quem manda no mundo. A mesma coisa quando Durão Barroso foi presidente da União Europeia. A mesma coisa também quando Nascimento Rodrigues foi administrador da Organização Internacional do Trabalho. Quer dizer, nós unimo-nos todos quando é para tratar da nomeação de um dos nossos, mas para além disso, nos objetivos que têm que se concretizados para além da política pura e dura, descuramos. Portugal e outros países podiam dar um contributo maior em Cabo Delgado, porque têm experiência de guerra, de guerrilha, experiência de Moçambique e porque falamos a mesma língua torna-se mais fácil. Evidentemente que se está a fazer alguma coisa com África do Sul, mas esse espaço é nosso (e) deve haver forma de nos ligarmos. (MM)

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