“Venderam a minha vaga de agendamento” em Leiria, denuncia imigrante e SEF investiga inspetor

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FOTO: SEF ©

Manuel Matola

A brasileira Sandra Silva esperou dois anos e meio para se legalizar junto ao SEF, mas no dia em que chegou às instalações do serviço migratório teve uma notícia inesperada: a de que venderam a sua vaga de agendamento.

“Tendo em vista o esclarecimento da situação reportada, relativa a uma alegada venda de vagas de agendamento, a Direção Nacional do Serviço de Estrangeiros e Fronteiras determinou a imediata averiguação interna, conduzida pelo Gabinete de Inspeção, para análise do episódio veiculado pela denúncia”, disse o SEF em nota enviada ao jornal É@GORA que relata a seguir os contornos de um episódio que envolve um inspetor do SEF em Leiria.

No dia 21 de maio passado, Sandra Silva caminhou uma hora e meia da aldeia de Memória, em Leiria, em direção ao SEF, porque não havia autocarros naquele período de confinamento rigoroso, mas chegou à hora marcada na fila de espera para ser atendida pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteira.

Até aquela hora, Sandra Silva garante ao jornal É@GORA que para si “tudo estava normal”, contudo, cedo se apercebeu que nunca chegava a sua vez de ser chamada.

A imigrante reclamou junto do segurança que controla as entradas dos imigrantes para regularização e não tardou em receber uma informação desconcertante: o seu nome não constava da lista das pessoas que seriam atendidas naquele dia, mesmo tendo feito agendamento automático na plataforma SAPA para as 8:20.

“No dia do atendimento no SEF, tirei a minha senha, fiquei aguardando a minha vez. Depois de tanto esperar cheguei à janela e perguntei ao segurança: por que não me chamam, já deu 8:20”, ao que respondeu: “eu não sei, dê-me o seu passaporte. Só saberemos quando o inspetor chegar, pois ele poderá falar consigo”.

Assim que o inspetor do SEF a recebeu, num misto de ansiedade e prantos, Sandra Silva começou a ver o sonho de mais de dois anos de espera “todo desabando”.

“Eu estava desesperada”, conta ao jornal É@GORA, lembrando que o inspetor ainda a consolou afirmando: “não fique desesperada, pois pode fazer nova manifestação”.

Sandra continuo em lágrimas, embora ainda convencida de que se tratava de um simples equívoco que, de seguida, se iria resolver. Mas a conversa que se seguiu tornou a situação da imigrante mais intrigante, pois “o inspetor Nuno” disse perentoriamente:

“Você fez sua manifestação num dia e no outro cancelou, ou você deu a sua senha para alguma pessoa e essa pessoa cancelou (o seu agendamento). Eu disse que não, não passei a minha senha para ninguém. Ele afirmava que sim, que eu coloquei (um) senhor na minha vaga. Eu dizia que não”, conta em declarações ao jornal É@GORA resumindo um extenso relato que há dias partilhou nas redes sociais onde o caso está a criar revolta entre os imigrantes que lembram os “esquemas de corrupção” que ditam os atrasos no agendamento no SEF, o que forçou os estrangeiros em Portugal a manifestarem nas ruas de Lisboa e do Porto no passado dia 11 de julho.

A discórdia entre Sandra Silva e o inspetor do SEF permaneceu, tal como prosseguiu também a troca de acusações e desmentidos que a pouco e pouco amainou remetendo-os a uma conversa cordial.

Restabelecida do choro, Sandra Silva lembrou-se que, antes quando estava lá fora, viu um senhor a chegar mais ou menos às 8:20, a hora exata do seu agendamento.

“Era um homem (imigrante) que calculo que ficou com a minha vaga. Chegou no exato momento (em que eu devia ser atendida). Não chamaram o nome dele nem nada, ele entrou e foi atendido”, diz.

A seguir, na conversa, o inspetor Nuno virou-se para a imigrante e afirmou categoricamente: “Colocaram um homem na sua vaga” e voltou a acusar a imigrante de ter fornecido a sua senha a alguém.

O tom de voz de Sandra Silva voltou a mudar. “Respondi: não dei a minha senha para ninguém. Eu sempre altero a minha senha. Sempre sou rigorosa quanto a isso. Insistiu: no outro dia às 10:00 você cancelou” o agendamento.

A imigrante fez um exercício mental para tentar perceber se teria dado um passo em falso no ato de agendamento automático, mas na aldeia de Memória, em Leiria, onde sempre residiu, tinha um trabalho que não permitia que àquela hora pudesse ter entrado para a plataforma do SEF, através do telemóvel, pelo que voltou a responder de forma segura sobre os passos certos que sempre deu.

O dia em que terá sido cancelado o agendamento calha com uma altura em que “eu estava a trabalhar no 3º piso e passei uma semana trabalhando num local onde não se podia andar com telemóvel. Era impossível”, diz ao jornal É@GORA Sandra Silva, cuidadora de idosos, prosseguindo o relato da conversa que manteve com o inspetor Nuno.

“Ai ele fingiu que ligou para alguém e a seguir disse: a má notícia que eu tenho para te dar é que não se sabe quando é que o SEF vai abrir vaga. Fiquei desesperada e só chorava”, conta.

O inspetor volta a consolar a imigrante: “Ainda me deu um lenço” e, a seguir disse: “não se preocupe, você está regularizada no país”.

Quando tudo parecia voltar ao normal na conversa que tiveram, com Sandra a lembrar-lhe que tudo o que queria era resolver o simples processo da legalização para concorrer a uma vaga num lar de idosos, e o inspetor a fornecer o seu contacto de telefone fixo direto, há nova mudança de tom No contacto que ambos estabelecem posteriormente.

“No outro dia, eu liguei para o número que ele me deu e perguntou-me: como é que tem o meu número. Expliquei que eu era a mulher que estava ai naquele dia desolada. Outro dia fui para o SEF para apresentar o livro de reclamação (por conselho que me deram). Fui lá, falei com ele e virou-se para mim e perguntou: por que você não arruma um casamento com um português? Rapidamente você consegue seu cartão de cidadão através do reagrupamento familiar. Eu disse: se eu quisesse já teria feito isso. Sempre trabalhei aqui e pago os impostos e tudo que tem ser pago. Eu quero andar com as minhas próprias pernas e não queria andar com as pernas de ninguém”, conta a imigrante.
Dias depois, Sandra Silva recebeu na sua caixa de correio uma carta do SEF informando-lhe que era culpada pela situação que descreveu no livro de reclamações daquele serviço porque teria sido a própria imigrante a passar a alguém a sua senha de acesso da plataforma SAPA, onde se faz o agendamento automático.

“Eu consultei o advogado de umas pessoas com quem eu morava e ele claramente disse-me: eu não vou tomar o seu dinheiro e vou dizer em poucas palavras: a sua vaga foi vendida. A única solução é entrar na fila de novo. Aí morreu o meu sonho: o curso que eu queria fazer, o meu diploma que eu tinha passado para Lisboa” e todos os planos, afirmou a brasileira que é técnica de enfermagem de formação mas trabalha como assistente de idosos em Portugal.
“Entrei simplesmente em depressão porque o meu mundo acabou”, pelo que até hoje Sandra Silva nem sequer voltou a entrar para o site do SEF para novamente tentar uma vaga “porque nunca se consegue”.

Sandra Silva é neste momento uma imigrante em situação irregular, dois anos e meio depois de entrado em Portugal e ter apresentado uma manifestação de interesse junto do SEF.

Em contacto com o jornal É@GORA através do contacto telefónico fornecido pela imigrante, o inspetor do SEF em Leiria predispôs-se a reagir às acusações, mas, disse: “Se tiver autorização” da Direção Nacional do SEF que, entretanto, segundo uma nota enviada à nossa redação pelo gabinete de imprensa do Serviço de Estrangeiros e Fronteira, “determinou a imediata averiguação interna” para analisar o episódio denunciado pela imigrante brasileira. (MM)

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