Vitalina Varela, a imigrante do ano

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A atriz Vitalina Varela e o cineasta português Pedro Costa. Foto: URS FLUEELER ©

Manuel Matola

A nossa figura do ano é Vitalina Varela, a atriz cabo-verdiana de origens humildes, cujo nome passou a ser mundialmente reconhecido em 2019 por uma razão que é nitidamente diferente da de milhares de imigrantes que partiram em busca de um sonho e se depararam com inúmeras tragédias no país de acolhimento.

O infortúnio da Vitalina Varela tem origem e um roteiro singulares.

A atriz viveu a maior fatalidade quando ainda estava no seu país Natal – Cabo Verde -, mas foi em Portugal que a tragédia teve efeitos reais, após tomar conhecimento de toda a verdade que ocorreu e ter a noção exata do que representava a sucessão de coisas negativas que a imigração, afinal, lhe reservava.

Depois de mais de 25 anos à espera do seu bilhete de avião para ir ter com o marido, Joaquim, que imigrou para Portugal em busca de melhores condições de vida, Vitalina chegou “atrasada” ao país onde desejava viver ao lado do homem que escolheu como companheiro para o resto da vida. Em 2013, Joaquim teve um final trágico: acabou por morrer e sepultado na ausência da mulher que só chegou às terras lusas três dias depois do funeral, assim que teve conhecimento da fatídica notícia.

Nem por isso Vitalina esmoreceu. Apesar dos avisos sobre a dura realidade que é a imigração e de incertezas face ao medo natural que se instala nessas ocasiões, a cabo-verdiana arregaçou as mangas, demonstrou coragem e resiliência, e, por fim, decidiu permanecer em Portugal.

Sem uma preparação prévia sobre o verdadeiro risco que se corre num país desconhecido, Vitalina soube adaptar-se aos embates diários que a vida escolheu para si enquanto imigrante em Portugal, vencendo-os paulatinamente.

E ao longo de um percurso que fez sempre no anonimato, chegou-lhe o inesperado reconhecimento de um mundo que lhe era completamente alheio: o da sétima arte. Foi lá que destacados cineastas ouviram pela primeira vez o nome Vitalina Varela quando anunciado nos mais importantes palcos de festivais de cinemas habitualmente reservados a estrelas de Hollywood.

Em 2019, Vitalina Varela conquistou o Prémio de Melhor Atriz do Festival de Locarno na Suíça, após tornar-se protagonista de um filme com o seu nome, no qual a atriz interpreta a si própria ao narrar parcialmente sua história de vida.

Nessa longa-metragem avaliada por um júri ao mais alto nível, o cineasta português Pedro Costa, que produziu a película “Vitalina Varela”, ganhou o prémio máximo do Festival da cidade helvética de Locarno: o Leopardo de Ouro.

Mas a realidade narrada por Vitalina Varela não se esgota à sucessão lógica das imagens exibidas ao longo do ano nas várias telas cinematográficas portuguesas, europeias e americanas e reconhecidas nos principais festivais de cinema do mundo.

Vitalina representa a capacidade de resistência à dor sentida por qualquer um que decide imigrar mesmo sem rumo certo.

Vitalina é o prolongamento da mulher e do homem humildes que participam na luta diária que todo imigrante indocumentado trava por longos anos e, quiçá, a vida inteira.

Vitalina é o espelho da força que a mãe e o pai imigrantes empreendem diariamente na ausência dos filhos que são apátridas desde o momento em que nascem num território que não os reconhece como seus cidadãos.

Vitalina é a resposta à solidão da mulher e do homem que não sabe por onde (re)começar quando pela primeira vez lhe é imposto o verdadeiro significado da palavra imigração fora do seu crioulo e de outras línguas estrangeiras, incluindo as variantes do português.

Vitalina é a voz interior que ordena o próprio imigrante a continuar incessantemente a luta até que lhe seja reconhecido o direito humano à mobilidade.

Vitalina é o símbolo da retidão daquele imigrante que mesmo diante dos holofotes que a colocam na mesma dimensão de figuras de Hollywood continua com o olhar fixo sobre os valores que se impõe para se saber respeitar o outro desconhecido.

Vitalina é a continuação da ética pela vida em busca da prosperidade, uma luta que foi sua no ano que agora finda e continuará a ser para além das próximas décadas que chegarão depois de 2020.

Vitalina Varela é a figura do ano do jornal É@GORA. (MM)

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