Viúva de Agostinho Neto apela diáspora a seguir legado do marido, para ajudar a refundar o Estado angolano

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Maria Eugénia Neto, viúva de Agostinho Neto

A viúva de Agostinho Neto apelou à diáspora angolana em Portugal e aos imigrantes espalhados pelo mundo a seguirem o legado do fundador e primeiro presidente de Angola independente, para ajudarem a refundar o Estado angolano dando contribuições concretas, quer regressando a Angola, ou a partir dos países onde residem.

Questionada pelos jornalistas sobre qual deve ser o contributo da comunidade angolana no estrangeiro para a preservação do legado do fundador da então República Popular de Angola, Maria Eugénia Neto considerou ser importante que os angolanos na diáspora façam “um esforço de voltar” para o país, mas os que preferirem fica fora do território que ajam no sentido de “contribuírem também para a pátria”.

No entanto, recusou qualificar Agostinho Neto de imigrante enquanto esteve em Portugal, explicando que o seu marido optou por estudar na então Metrópole porque em Angola, na altura colónia portuguesa, “não havia” condições para se formar na área que pretendia seguir: a Medicina.

“Ele não foi imigrante, ele veio estudar porque lá não havia. Os que estão agora aqui são imigrantes, eles têm as razões deles (para cá estarem), mas não sei se não seria bom eles fazerem um esforço de voltar e se aqui (pretenderem ficar) contribuírem também para a pátria” angolana, afirmou aos jornalistas à margem das celebrações do ato central do Dia do Herói Nacional.

Desde a morte de Agostinho Neto, há 40 anos, esta é primeira vez que a viúva do fundador da nação angolana assinala a efeméride fora de Angola.

Nesta terça-feira, Maria Eugénia Neto esteve entre dezenas de cidadãos angolanos, portugueses e de outras nacionalidades, que se juntaram na embaixada angolana em Portugal para relembrar a vida e obra do fundador da República de Angola, tendo destacado o seu papel enquanto lutador pela independência daquele território da África Austral então detido por Portugal.

“Temos que ter homens como ele, (que lutam) contra o ódio, com o desejo de fraternidade do mundo como foi agora explícito nos poemas dele. Portanto, é dessas pessoas que nós precisamos: daquelas que amem o povo, os humildes. Que os humildes tenham o seu legado no mundo, não se sintam afastados, diminuídos. É preciso que nós façamos tudo para que o saber volte às massas, só o saber, não a riqueza”, disse Maria Eugénia Neto, em declarações aos jornalistas.

A homenagem, promovida pela missão diplomática angolana, por ocasião do Dia do Herói Nacional, 17 de setembro, data em Angola comemora em memória de Agostinho Neto, começou com a deposição de uma coroa de flores e rosas no seu busto dentro da embaixada de Angola em Portugal e culminou com a apresentação de um documentário sobre a vida e obra da maior figura histórica que contribuiu para a edificação da nação angolana.

Mas para Maria Eugénia Neto, a contribuição de Agostinho Neto acabou por ter um resultado diferente do sonho e da luta que o médico travou em prol da Angola.

“Acho que não era bem assim. Mas há sempre espinhos no caminho. Vamos lá outra vez voltar ao início. Vamos lá abrir o caminho de novo”, disse numa alusão ao facto de a Angola de hoje não ser a mesma com que o Agostinho Neto sonhou e lutou.

No entanto, Maria Eugénia Neto garante ter confiança no atual governo angolano, pelo que exortou “a todos” os cidadãos dentro e fora do país a ajudarem o Presidente da República de Angola, João Lourenço, na sua governação.

“Até agora sim”, respondeu quando indagada pelos jornalistas se tem confiança no novo governo.
“Temos todos de ajudá-lo”, pois “sozinho ele não pode fazer tudo. Eu já disse isso mais do que uma vez e estou disposta, desde que eu veja realmente que as palavras são verdades, e vejo que são, estou disposta a ajudar”, afirmou.

Falando ao Jornal É@GORA, o embaixador angolano em Portugal, Carlos Alberto Fonseca, enalteceu os feitos de Agostinho Neto enquanto estadista e homem de cultura num momento em que a obra literária do fundador da República de Angola passa a constar de uma cátedra no ensino superior português, resultado de um protocolo entre a Fundação Agostinho Neto e a Faculdade de Letras da Universidade do Porto com o objetivo de divulgar e estudar os seus livros.

“Esta data é a evocação do poeta, do político, do líder, do guerrilheiro, do estadista cuja a dimensão e o legado que deixou às gerações presentes e vindouras, ultrapassou as circunstâncias do seu tempo. Ao comemorarmos o 17 de Setembro em Portugal, apraz-me mencionar o que deve ser para nós angolanos também motivo de satisfação e orgulho que foi a criação de uma cátedra a qual foi denominada: a cátedra de Agostinho Neto, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. O que constitui para nós uma honrosa homenagem à Agostinho Neto, aos angolanos e à literatura angolana”, disse o diplomata.

De entre a plateia no ato que visou recordar Agostinho Neto, destacava-se também Troufa Real, renomado arquiteto e seu contemporâneo que, em declarações ao jornal É@GORA, assinalou os bons momentos vividos ao lado do seu amigo, muitos deles em território português.

“Trabalhei para ele com muita honra, estive com ele na Zâmbia, estive com ele quando chegou, tenho grandes filmes e grandes registos desses momentos e cumpri algumas missões a pedido dele. Foi sempre um homem humilde na grandeza que ele tinha e no que representava para o mundo”, disse Troufa Real.

O arquitecto lembrou que Agostinho Neto era uma personalidade “de uma humildade que é preciso um dia se estudar com muito cuidado”.

“Foi aqui que criou grandes amizades, participou em todos os movimentos desde o mundo juvenil também da libertação da ditadura de Salazar. Ele participou em tudo enquanto estudante. Eu estive também em Cabo-Verde, em Santiago, onde ele esteve preso. O que quer dizer que a luta dele era uma luta generalizada, sem discriminação porque não era um homem que discriminasse o ser humano”, afirmou.

Depois de assistir o documentário sobre a sua vida e obra de Agostinho Neto, que morreu vitima de doença no dia 10 de Setembro de 1979, na antiga União Soviética, Elena Konkus, cidadã de nacionalidade ucraniana, mostrou-se surpreendida com a trajetória do fundador de Angola e assegurou que iria pesquisar mais sobre aquele que é conhecido também como o Poeta da Sagrada Esperança.

“Nunca tinha me interessado de forma mais profunda sobre a História de Angola e, hoje, realmente, eu mergulhei mais e estou muito feliz por cada dia saber mais. Vou pesquisar mais. Agostinho Neto é uma grande figura. Por coisas que passou na vida dele, é muita luta, é muita força que ele teve”, considerou. (X)

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