Waldemar Bastos, porque eu nunca saí daí

0
658
Waldemar Bastos, o músico que tinha Angola na voz. FOTO: Lusa ©

Ulika Paixão Franco
Faz hoje um ano que soube da notícia por um outro irmão, o Rui Monteiro Romano.

Estava a fazer o que faço agora, a escrever, quando 48 horas depois de ter falado com o Rui acerca da doença que tinha apanhado o Waldemar de surpresa, este volta a ligar, desta feita a confirmar que a LUSA acabava de transmitir a notícia de que o Waldemar Bastos havia falecido.

Atónita, fiz dois telefonemas que só a mim apanharam de surpresa, e depois da insistência lá me foram dizendo que era verdade, que o Waldemar havia falecido. Ao mesmo tempo ia ouvindo «Sabes, entendemos que é melhor não ires, pela tua saúde, não te vai fazer bem.» e eu nem perdi muito mais tempo. Que sim, que sim, que estivessem descansados que eu não iria. Não dei mais um segundo à arrogância de quem, por se ter sentado com um Anjo, se convenceu ser Deus e outorgar-se ao direito de escolher a dedo quem tem e quem não tem direito ao último adeus. Guardei as memórias que eram as minhas e ali fiquei deitada, em cima do colchão, derreada, profundamente sozinha. Devo ter ficado horas sem dizer uma palavra, sem deixar cair um suspiro, a dor profunda seca tudo.

Depois fui ouvir as músicas. Numa mão cheia, algumas das escolhas partilho consigo.

Comece sempre por “Perto e Longe”, na opção do clássico acompanhado pela London Symphony Orchestra. Fique aí, imaginando-se a olhar ao longe. Mantenha-se nas palavras, depois na forma como a voz encontra corpo, logo a seguir dará por si de sorriso nos lábios, aquela lágrima das folhas caídas, das folhas voando. E de novo a força daquele “Aqui, bem perto de ti”. Nessa altura perceberá que, a pessoa tanto quanto a música, nada nem ninguém esteve tão longe o suficiente para estar sempre ao seu lado. Era um dos seus maiores atributos. Com Waldemar, Deus estava sempre lá.

O clássico que Liceu Vieira Dias recuperou como ninguém: “M’biri! M’biri!” Ngogojame é a raiz de Angola, a árvore a ver partir o gigante pássaro, o encontro da terra, pazes feitas com a natureza. Poucas foram as músicas do cancioneiro tradicional de Angola atingiram tamanho respeito nacional. São hinos, são bandeiras por pintar que só os grandes sabem tocar. E Waldemar tocava com as mãos, tocava com a voz, tocava com o corpo, com o sentimento presente e com o riso que lhe inundava a face sempre que subia aos palcos e se encontrava com os seus. Tinha Angola na voz.

E se Angola tivesse inventado a música, num primeiro impulso chamar-lhe-ia “Velha Chica”. Nunca ninguém vai perceber o motivo pelo qual a mais-velha senhora tanto incomodou os que se ocuparam da cidade alta para eternizar a pobreza, o desgosto, a miséria, a falta de tudo a um povo que foi assaltado até no nada. A música tornou-se num aplauso tanto quanto numa arma contra um homem que só soube cantar a paz que os políticos da sua terra nunca souberam ouvir, agarrados que estavam à mais alta palavra da Nação: Corrupção. O seu nome bastava para justificar tudo: dificultar o passaporte, boicotar os concertos, limitar-lhe o sustento, prolongar a inveja, jogá-lo à solidão.  E mesmo depois de morto, do maior partido de Angola nem consenso na hora de um voto de consternação. Mas Waldemar e sua “Velha Chica” não ficaram só mais velhos, ficaram verdadeiramente independentes e em paz, neste que é um tema de cantar para não sofrer mais.

A forma como Waldemar Bastos faz dançar Luanda com a sua “Georgina” é absolutamente inexplicável, transpira música um dos melhores álbuns de sempre, se pensarmos que é possível enunciar melhor e sempre quando se fala é de Waldemar Bastos. Um génio nascido para a música num tema extraordinário em que mais uma vez o mergulho pela música se faz por via da simplicidade, da ingenuidade, da bondade imediata e da entrega simples, pelo amor. Aquele fim de rebita, aquela percussão num lugar onde ninguém mais coloca, aqueles metais acertados, a guitarra a lembrar o rock n’ rol e Bastos de mão cheia, sempre a ser melhor que ele mesmo.

A esta altura já todo o “Sofrimento” terá resistido. Acaba de entrar num outro clássico que questiona a insanidade da terra. O tema, pujante, como a força que vem de Angola, que une e que separa, que cria e que destrói, que dá vida e que mata, que é poeta e se torna assassino: “Olha o sofrimento, que vem cá de dentro”. As vozes potentes de Angola formam agora um ritual de morte e de vida numa perfeita imitação da História de um país que se nasceu para logo a seguir morrer, um país em que 75 nasceu com tal força que matou logo ao começo, perpetuando ódio e alimentando rancor bastaram-lhe dois anos para ceifar 77. O que ficou por saber continua sem resposta: Quantos anos Angola terá de viver para esquecer? Muito serão sempre demais. Mas atente-se no fim: “Angola, Viva”

Fecho aqui a minha mão cheia de canções. Terá as suas. Quem sabe algumas se cruzam com as minhas. Os amigos verdadeiros não são vaidades que se exibem para ocupar espaço. Waldemar teve muitos e bons amigos ao lado dele. Ficarão os músicos que sempre o acompanharam e que com ele gravaram, alguns até mais do que um disco. Ficará a mulher que sempre amou e dignificou, o seu fiel irmão, o seu filho e todos os incógnitos que estiveram sobretudo quando ele estava em baixo, porque a verdadeira amizade custa nada e à sua volta, quem o ouviu com o coração, aprendeu a não viver de procurar fama. (X)

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here